As forças russas na Ucrânia estão agora a receber espingardas de cano liso a par das espingardas de assalto - um indício de que o combate contra drones pequenos e de baixa altitude desceu até ao nível do soldado individual. O que começou, nas trincheiras, como uma resposta improvisada do tipo “mandar abaixo a tiro” está a transformar-se numa orientação oficial, apoiada por empresas estatais de armamento e por novas munições especializadas.
Da improvisação no terreno à doutrina oficial
No início da invasão em grande escala, as unidades russas de defesa antiaérea tentaram travar drones ucranianos com os meios clássicos: mísseis, canhões guiados por radar e sistemas de interferência electrónica. Esses meios continuam a contar, mas os pequenos drones de ataque FPV (first-person view) e os quadricópteros expuseram falhas.
“Os comandantes russos encaram agora as espingardas como um escudo formal dos ‘últimos metros’ para as tropas, e não apenas como uma improvisação desesperada.”
Drones baratos a zumbir a poucos metros acima das trincheiras são difíceis de detectar por radar e deixam muito pouco tempo de reacção. Disparar um míssil que custa dezenas de milhares de libras contra um drone que vale algumas centenas não é apenas desconfortável; é um desperdício estratégico. Esse desequilíbrio económico está a empurrar a doutrina noutra direcção.
O conglomerado estatal russo Rostec tem enquadrado publicamente o problema precisamente nesses termos. Reconhece que os mini-drones se tornaram uma ameaça relevante no campo de batalha e que os mísseis terra-ar tradicionais nem sempre são a resposta adequada. Do ponto de vista de Moscovo, a solução passa por uma combinação escalonada de ferramentas: guerra electrónica, interceptores em miniatura e, de forma reveladora, armas ligeiras com cartuchos concebidos para esse fim.
Espingardas MP-155 convertidas em ferramentas anti-drone
O sinal mais visível desta mudança é a espingarda semi-automática MP-155, produzida pelo Grupo Kalashnikov. Antes associada à caça e ao uso policial, está a ser adaptada como arma contra drones.
Na nova configuração, a MP-155 recebe várias alterações destinadas a abater alvos aéreos a curtíssima distância:
- Calha Picatinny na caixa da culatra para montar ópticas
- Carregador prolongado de seis munições para cartuchos 12×76 mm
- Suporte para miras de ponto vermelho (colimador)
- Compatibilidade com dispositivos de visão nocturna para utilização com pouca luz
Estas mudanças reflectem a realidade da guerra de drones. Muitos ataques surgem ao amanhecer, ao entardecer ou de noite, e chegam de ângulos improváveis. Os soldados precisam de uma arma que suba rapidamente ao ombro, aponte de forma instintiva e dispare uma rajada curta de bagos densos.
“O objectivo não é uma pontaria elegante, mas lançar para o ar bagos endurecidos suficientes para destruir as hélices e a electrónica de um drone.”
Munição especializada: cartuchos IGLA 100
O equipamento resolve apenas metade do problema. A Rostec afirma ter iniciado a produção em série de cartuchos “anti-drone” de calibre 12, conhecidos como IGLA 100, com projécteis feitos de uma liga de tungsténio–níquel–ferro.
Face aos tradicionais bagos de chumbo, estes são mais densos e mais duros. Mantêm melhor a forma, atravessam estruturas de plástico e podem danificar motores ou placas de controlo, em vez de apenas as amolgar. Segundo relatos, a formação mostra aos militares como estas munições se comportam contra alvos rápidos, comparando-as com cartuchos normais de caça (bagos finos) ou com bagos mais grossos.
| Característica | Cartuchos de espingarda standard | Cartuchos anti-drone IGLA 100 |
|---|---|---|
| Material dos bagos | Chumbo | Liga de tungsténio–níquel–ferro |
| Objectivo principal | Caça / combate geral | Destruir pequenos UAV a curta distância |
| Efeito esperado | Danos limitados na estrutura do drone | Partir hélices, motores e componentes críticos |
As tropas russas estão a ser treinadas em sala e em carreiras de tiro para enfrentar alvos do tamanho de drones. O método assemelha-se ao tiro ao prato, mas com mais pressão: acompanhar um objecto minúsculo, calcular o avanço, “varrer” com bagos e ajustar imediatamente para uma segunda rajada.
As espingardas automáticas como recurso sempre disponível
As espingardas de cano liso entram agora no quadro, mas as espingardas de assalto e as metralhadoras ligeiras continuam a fazer grande parte do trabalho, simplesmente porque estão sempre à mão. As espingardas de 5,45 mm do tipo Kalashnikov, como a AK-74 e a AK-12, são amplamente usadas, a par de versões de 7,62 mm e de espingardas de atirador designado quando alguém tem competência e tempo para apontar com cuidado.
A lógica é simples: todos os soldados já transportam uma espingarda. Quando um drone aparece por cima de uma trincheira ou da linha das árvores, não há tempo para esperar por um especialista com espingarda; quem o avista dispara.
“As espingardas dão alcance para lá do da espingarda de cano liso, mas exigem muito mais sorte e perícia contra um drone rápido e errático.”
Os militares têm de colocar uma bala minúscula num alvo minúsculo e em movimento, enquanto tentam também não ser atingidos. Na prática, isto transforma-se muitas vezes numa resposta de “encher o céu de tiros”: muitos disparos num intervalo curto, aumentando a probabilidade de acertar, mas desperdiçando munições e sobreaquecendo canos.
Limites práticos e questões de segurança
Esse tipo de fogo tem desvantagens óbvias. As munições que falham o drone acabam por cair algures, o que pode ser perigoso em redes densas de trincheiras ou em zonas urbanas próximas de civis. Além disso, rajadas sustentadas desgastam as armas mais depressa e podem quebrar a disciplina da unidade quando vários homens disparam em simultâneo.
Estes problemas reforçam a aposta em espingardas e em cartuchos concebidos de raiz. Um padrão fechado de bagos pesados a curta distância dá maior probabilidade de uma neutralização limpa e reduz a distância a que projécteis perdidos permanecem letais.
Camadas de defesa com falhas cada vez mais visíveis
Em teoria, a Rússia mantém um dispositivo antiaéreo em várias camadas em torno das suas forças na Ucrânia. Na retaguarda, sistemas terra-ar de longo alcance protegem centros logísticos. Mais perto da linha de contacto, viaturas de defesa de curto alcance e estações de interferência tentam interceptar drones e mísseis. Na frente, pequenas equipas com bloqueadores portáteis e observadores varrem o céu.
O facto de a infantaria estar agora a treinar para abater drones com espingardas evidencia os espaços entre essas camadas. Enxames de drones FPV baratos podem saturar os sistemas de guerra electrónica, voar abaixo da cobertura de radar ou explorar ângulos que grandes lançadores não conseguem cobrir com rapidez suficiente.
“Se os soldados na linha da frente precisam regularmente de armas de alma lisa para derrubar drones, então os escalões superiores da defesa estão claramente a deixar passar ameaças.”
A própria comunicação da Rostec aponta nesse sentido. Fala em combinar guerra electrónica com “sistemas cinéticos alternativos”, como mísseis em miniatura e armas ligeiras. A doutrina emergente parece menos uma promessa de escudo perfeito e mais uma rede de segurança imperfeita e por camadas, em que os drones são enfrentados repetidamente, a várias distâncias e com ferramentas diferentes.
O que isto significa para a NATO e para as guerras futuras
As forças armadas ocidentais estão a acompanhar de perto. A experiência russa antecipa o que forças da NATO poderão encontrar num futuro conflito de grande escala: céus cheios de drones baratos e descartáveis, pilotados por operadores com competências ao nível dos videojogos.
Mesmo que as defesas de escalão superior da NATO superem as russas, o volume de drones pode, ainda assim, pressionar sistemas e orçamentos. Nenhuma aliança quer trocar mísseis interceptores caros por cada quadricóptero de lazer transformado em bomba.
Para planeadores a olhar para a solução russa baseada em espingardas, sobressaem várias lições:
- As unidades de infantaria precisam de opções próprias de defesa anti-drone a muito curta distância, e não apenas de depender de meios especializados de defesa antiaérea.
- A economia conta tanto como a tecnologia; munições baratas, disparáveis em grandes quantidades, tenderão a ser preferidas.
- O treino tem de tratar os drones como ameaças rotineiras, não como alvos de nicho, integrando-os na instrução de tiro e nos exercícios de terreno.
Termos-chave e cenários no campo de batalha
Dois termos ajudam a explicar a tendência: drones FPV e densidade de bagos.
Os drones FPV são aeronaves pequenas, muitas vezes construídas em casa, pilotadas através de óculos com vídeo em directo. Os operadores conseguem guiá-los directamente contra viaturas, trincheiras ou mesmo escotilhas abertas. São baratos, ágeis e, nas mãos certas, extremamente precisos.
Densidade de bagos refere-se a quantos projécteis atravessam uma determinada área num determinado intervalo de tempo. Um disparo de espingarda lança dezenas de bagos para o ar, aumentando muito a probabilidade de um deles atingir um drone pequeno. É essa lógica - quantidade em vez de precisão - que está por trás dos novos cartuchos russos e dos exercícios de treino.
Num dia típico na frente, um pelotão russo pode enfrentar um misto de quadricópteros de reconhecimento e atacantes FPV. Drones distantes podem ser bloqueados ou atingidos por armas montadas em viaturas. Se alguns conseguirem ultrapassar a última elevação e dispararem em direcção às trincheiras, espera-se que os soldados equipados com espingardas levantem a arma, acompanhem o alvo e disparem uma ou duas rajadas bem temporizadas. Em paralelo, outros podem despejar fogo de espingarda na mesma zona do céu como recurso de apoio.
Essa reacção por camadas mostra para onde está a caminhar a guerra terrestre. Mísseis de precisão e radares de topo continuam a ser importantes, mas também o são cartuchos baratos em espingardas gastas. O combate aos drones está a tornar-se tanto uma questão de economia, treino e improviso quanto de tecnologia de ponta.
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