O Exército do Ar e do Espaço de França tem vindo a prestar, de forma discreta, apoio à defesa dos Emirados Árabes Unidos, numa série de acções em que caças Rafale abateram dezenas de drones iranianos Shahed. Ainda assim, o ritmo elevado de emprego e os stocks reduzidos de mísseis ar-ar MICA fizeram soar alarmes em Paris.
Segundo o que foi noticiado pela La Tribune, o consumo muito significativo de mísseis MICA por parte dos Rafale do Exército do Ar e do Espaço “…está a gerar uma tensão importante em Paris. O Primeiro-Ministro convocou uma reunião de crise para terça-feira, com o objectivo de encontrar soluções que permitam manter as capacidades a longo prazo…”, referiu o órgão.
Emprego dos Rafale franceses nos Emirados Árabes Unidos
Desde o início das hostilidades entre o Irão, Israel e os EUA, as Forças Armadas francesas destacaram caças Rafale e sistemas de defesa antiaérea para os Emirados Árabes Unidos, cumprindo assim os acordos de defesa assinados entre Paris e Abu Dabi. Porém, a sucessão de ataques com drones iranianos levou os pilotos franceses a recorrer, de forma continuada, aos mísseis ar-ar MICA para eliminar a ameaça não tripulada.
A La Tribune assinalou que “…nas últimas semanas, os pilotos franceses de Rafale interceptaram, com grande sucesso, dezenas de drones Shahed disparando mísseis ar-ar MICA… Mas, para lá da inegável perícia do exército francês, existe um problema. Um problema, de facto, muito grave. As reservas de mísseis MICA esgotaram-se depressa demais sob o sol intenso dos Emirados Árabes Unidos…”.
Interceptores e o dilema custo/benefício na defesa antidrones
A disponibilidade de interceptores - tanto para caças como para sistemas de defesa antiaérea - tem sido objecto de análise aprofundada nas últimas semanas. Apesar de as forças iranianas terem reduzido a cadência de utilização de mísseis balísticos e de cruzeiro, os primeiros dias do conflito implicaram um consumo elevado de projécteis de vários tipos, com o propósito de neutralizar a ameaça colocada pelos vectores iranianos.
A este desafio juntaram-se centenas de drones Shahed, bem como outros veículos aéreos não tripulados de ataque, lançados por forças iranianas contra diferentes países vizinhos. Como é sabido, embora as forças armadas da região e os aliados disponham de diversos meios para enfrentar esta ameaça, em muitos casos a resposta levanta questões de equilíbrio entre custo e benefício.
As Forças Armadas dos EUA empregaram com sucesso os foguetes guiados AGR-20F APKWS II contra drones iranianos. Contudo - e de forma particularmente notória tendo em conta a experiência da Ucrânia e do Mar Vermelho - este armamento não foi integrado em muitos dos sistemas de armas operados por forças aéreas que estão a entrar em combate. Isso ficou patente há alguns dias, quando um F-35B Lightning II da Real Força Aérea britânica utilizou dois mísseis ASRAAM para abater dois drones iranianos.
O mesmo raciocínio aplica-se aos Rafale do Exército do Ar e do Espaço de França: apesar de acumularem dezenas de abates, também foram forçados a empregar os seus mísseis ar-ar MICA. Sem uma alternativa mais económica, os caças franceses têm recorrido aos valiosos MICA para anular as ameaças iranianas.
Reservas limitadas
No seu relato, a La Tribune indicou que “…este conflito revelará, de forma cruel, uma das vulnerabilidades mais evidentes das Forças Armadas francesas, incluindo as Forças Aéreas: as suas reservas de munições continuam a ser muito limitadas… Esta situação nos Emirados Árabes Unidos está a exercer grande pressão sobre o Ministério das Forças Armadas e outras instâncias. Isto gera fricção e uma desconfiança considerável entre o Estado-Maior Conjunto (EMA) e a Direcção-Geral do Armamento (DGA), assim como entre o Ministério das Forças Armadas e a MBDA, que sofre atrasos todos os anos na entrega de mísseis MICA adicionais…”.
Importa recordar que a DGA francesa mantém uma encomenda à MBDA de um total de 567 MICA NG, cuja primeira tranche (200) deveria começar a ser recebida este ano. Uma segunda encomenda de 367 mísseis, acordada em 2021, começaria a ser entregue a partir de 2028.
Em paralelo, o Exército do Ar e do Espaço e a Marinha Nacional avançaram com um programa de renovação pirotécnica de 300 mísseis MICA, com o objectivo de prolongar a vida útil até 2030. “…Esta operação, que consiste em substituir os componentes pirotécnicos do míssil (propulsor) que limitam a duração de vida, permite assegurar a reserva de munições ar/ar até ao início da transição com os MICA NG a partir de 2026…”, informou a DGA em 2022. Uma primeira tranche de 14 MICA renovados foi recebida em Junho de 2022, tendo-se sucedido entregas nos anos seguintes, incluindo com previsão de continuidade em 2026.
Imagem de capa ilustrativa. Créditos: USAF – Staff Sgt. Trevor T. McBride
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