Os seres humanos estão a viver mais tempo do que nunca. Para 2050, os cientistas antecipam que quase quinhentos milhões de pessoas poderão ter mais de 80 anos.
O aumento da esperança de vida tem sido atribuído, em parte, a melhorias na nutrição - mas continua por esclarecer que escolhas alimentares estão mais ligadas a envelhecer com mais anos e com melhor saúde.
A verdade é que os investigadores ainda estão a tentar perceber isso.
Dietas associadas a mais anos de vida (e a polémica da carne)
Em grupos mais jovens, alguns padrões alimentares têm sido associados a mais anos de vida, sobretudo os que privilegiam alimentos integrais de origem vegetal e gorduras consideradas saudáveis.
Já as escolhas relacionadas com carne tendem a gerar mais controvérsia e, regra geral, vêm acompanhadas de uma ressalva.
Estudo do CLHLS na China: carne, vegetarianismo e chegar aos 100
Um estudo realizado na China veio acrescentar mais uma camada a esta discussão. Numa amostra com mais de 5.000 pessoas com 80 anos ou mais, os investigadores observaram que as mulheres que comiam carne tinham maior probabilidade de atingir os 100 anos do que as mulheres vegetarianas.
Quando os dados foram analisados por sexo, não se encontrou uma associação estatisticamente significativa entre longevidade e vegetarianismo nos homens.
Antes de partilhar isto com todas as vegetarianas que conhece, vale a pena ficar com a parte importante: a diferença apareceu apenas num subgrupo específico.
Só as participantes vegetarianas classificadas como estando com baixo peso mostraram menor probabilidade de chegar aos 100 anos do que as participantes que comiam carne.
"O consumo diário de carne associou-se a uma probabilidade 44 por cento mais elevada de atingir os 100 anos [em comparação com uma dieta vegetariana] no grupo com baixo peso, ao passo que esta associação não se verificou no grupo com peso normal ou com excesso de peso", concluem os autores.
Além disso, as vegetarianas que incluíam peixe, lacticínios ou ovos apresentaram uma probabilidade semelhante de alcançar os 100 anos quando comparadas com quem comia carne.
Em conjunto, estes resultados sugerem que mulheres idosas que garantam calorias suficientes e nutrientes essenciais poderão aumentar as hipóteses de se tornarem centenárias.
IMC, massa muscular e necessidades proteicas na velhice
As conclusões vão ao encontro de trabalhos recentes que defendem que, para envelhecer de forma saudável, é fundamental proteger a massa muscular - e que a ingestão de proteína desempenha aí um papel relevante.
Os novos dados vêm de um dos maiores estudos sobre idosos a nível mundial: o Inquérito Longitudinal Chinês sobre Longevidade Saudável (CLHLS).
Investigadores da Universidade de Fudan, do Centro Chinês de Controlo e Prevenção de Doenças e da Universidade Jiao Tong de Xangai compararam os resultados de 1.459 centenários com os de 3.744 não centenários nos seus 80 e 90 anos.
A equipa concluiu que o índice de massa corporal (IMC) ajudava, em parte, a explicar a associação entre vegetarianismo e menor esperança de vida.
Tendo em conta que as populações mais velhas têm maior probabilidade de apresentar baixo peso, os autores defendem que o papel do IMC na longevidade "merece ser explorado" com mais detalhe.
Um exemplo frequentemente referido é o chamado "paradoxo da obesidade": a ideia de que, em populações mais idosas, um maior peso corporal parece associar-se a melhores resultados de saúde - o contrário do que se observa em populações mais jovens.
Limitações do estudo e o que pode estar a influenciar os resultados
O estudo chinês sobre centenários apenas permite identificar associações, pelo que é possível que outros factores estejam a contribuir para os resultados observados.
Por exemplo, o trabalho não acompanha como os hábitos alimentares se alteram ao longo do tempo: os questionários avaliaram apenas o que os participantes comiam nas idades mais avançadas, e isso pode ser influenciado por algo tão prático como a facilidade de mastigar determinados alimentos.
Ainda assim, estudos anteriores sustentam a noção de que escolhas de estilo de vida - incluindo a alimentação - podem ser razões importantes para algumas pessoas chegarem aos 100 anos.
Aliás, segundo algumas estimativas, chegar aos 90 anos pode ser explicado em 70 por cento por comportamentos saudáveis, como sono, actividade física ou dieta.
Também é plausível que adultos mais velhos tenham necessidades nutricionais diferentes, apesar de muitos estudos sobre vegetarianismo se centrarem em grupos mais jovens.
Um estudo com mais de 65.000 pessoas, jovens e idosas, concluiu que quem segue uma dieta vegetariana poderá ter um risco mais elevado de fracturas, possivelmente devido a menor ingestão de cálcio e proteína.
Há, inclusive, indícios de que pessoas mais velhas necessitam de mais proteína alimentar do que aquilo que as recomendações actuais sugerem.
Ao mesmo tempo, a nutrição é uma área de investigação extremamente complexa, e os resultados em saúde podem ser condicionados por inúmeros factores sociais, ambientais e individuais.
É provável que, para prolongar a vida, as melhores opções alimentares passem por diversidade e equilíbrio - e que variem de pessoa para pessoa.
Dietas vegetarianas, dietas de base vegetal e dietas com pouca carne têm sido associadas a menor risco de alguns problemas de saúde, como doença cardíaca, AVC, diabetes tipo 2 e obesidade.
Ainda assim, nem toda a carne se relaciona da mesma forma com resultados negativos, e a quantidade consumida também pode ser determinante. Carnes processadas e carne vermelha, por exemplo, são frequentemente associadas a pior saúde e a menor longevidade, motivo pelo qual se recomenda, em geral, consumo moderado.
"Os nossos resultados salientaram a importância de uma dieta equilibrada, com alimentos de origem animal e de origem vegetal, para uma longevidade saudável", escreve a equipa.
"São necessários estudos futuros centrados em adultos mais velhos de idade avançada para a formulação de orientações alimentares."
O estudo foi publicado na Revista Americana de Nutrição Clínica.
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