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André Villas-Boas explica finanças, mercado e rivalidades no F. C. Porto: "somos nós contra Lisboa"

Homem de fato segurando plantas num estádio de futebol vazio com mesa, tablet e cachecol azul e branco.

Num ano desportivo pintado de azul - sobretudo no futebol - o presidente dos dragões, André Villas-Boas, detalha as medidas tomadas para pôr as contas do clube no rumo certo, reconhece que já neste mercado será necessário vender jogadores, fecha de vez a porta a qualquer entendimento com Frederico Varandas e admite que gostava de ver Sérgio Conceição a receber uma ovação de pé, no centro do relvado do estádio. Quanto ao rugido, mantém-se bem audível: "Não há outra forma: somos nós contra Lisboa".

O F. C. Porto tem vindo a aumentar o número de sócios. É viável poder aumentar a lotação do estádio ou do ponto de vista arquitetónico e até de engenharia esse aumento é impossível?

A capacidade do estádio - que registou 91% de ocupação nesta época, algo que nos deixou muito orgulhosos e que foi um número absolutamente histórico, a par do crescimento dos lugares anuais, do número de sócios, da bilhética e das receitas - não está, neste momento, em cima da mesa. Primeiro, porque existe uma questão ligada à componente arquitetónica; depois, porque 91% não equivalem a vários anos seguidos com 100% de enchente. Foi um excelente primeiro teste: um sinal de evolução e de aumento da massa associativa, e também de uma relação renovada com o estádio e com a casa do clube, mas não creio que seja já.

Além disso, aumentar a lotação do Estádio do Dragão pode, por um lado, nem ser tecnicamente possível; por outro, ainda não me parece justificado. E, antes de tudo, temos de elevar os serviços que o Estádio do Dragão entrega a sócios e adeptos. É precisamente esse o trabalho em curso: uma renovação profunda, com impacto real, para garantir melhores condições a quem acompanha o Futebol Clube do Porto.

Para estar pronta já na próxima época desportiva?

Sim. É um plano dividido em várias fases, que arrancou no ano passado, no início da época anterior. Está agora a entrar na segunda etapa, com a criação de um número muito alargado de produtos de hospitalidade, opções de restauração e novos serviços. A fase final ficará concluída no próximo ano e é a que está ligada às acessibilidades do Estádio do Dragão: entradas e saídas melhores e mais rápidas para quem vive o estádio de forma diária ou semanal.

E que novidades podemos dar sobre essas novas funcionalidades?

Sobretudo na restauração e nos serviços. Os adeptos do Futebol Clube do Porto podem contar com mais e melhores opções ao nível do serviço de comida e bebida, maior diversidade de escolha e, no essencial, uma experiência de estádio significativamente superior.

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O F. C. Porto no ano passado fez o maior investimento da história, ao gastar 100 milhões de euros em reforços. Este ano vai gastar tanto como no ano anterior?

Foi uma mudança necessária: uma injeção evidente de talento e uma aposta que o F. C. Porto tinha mesmo de fazer. Como sabem, o primeiro grande desafio foi a realidade económica. A época 24-25 permitiu-nos também um encaixe financeiro relevante, mas obrigou-nos, novamente, a reconstruir a equipa para 25-26 e a voltar a investir em qualidade.

Foi, por isso, um mercado histórico, sem equivalente no passado do clube - e, ainda assim, inevitável para quem queria assumir-se como candidato ao título. Aliás, se chegássemos ao fim da época 25-26 e o F. C. Porto não fosse campeão nacional, isso significaria que falhámos o trabalho de renovação e investimento do plantel. Foi uma transformação muito profunda, mas indispensável, e dá-nos agora outra base para encarar o mercado de maneira diferente.

Dito isto, é importante perceber que a situação económica do F. C. Porto ainda não está totalmente fechada. A dívida foi, por assim dizer, empurrada para um horizonte mais longo. Continuamos com responsabilidades financeiras - enormes - às quais não podemos fugir. A diferença é que hoje trabalhamos a partir de um ponto de partida que não existia há um ano: um ponto mais sólido, em que queremos segurar os melhores talentos da equipa principal e reforçar posições-chave, identificadas pelo treinador. Não será, naturalmente, um mercado de 100 milhões, porque esta nova base permite-nos uma abordagem distinta e muito mais ponderada.

E nessa perspetiva consegue garantir também a permanência desses principais jogadores ou está sempre sujeito aos interesses do mercado?

Estamos sempre dependentes do mercado, que, nesta altura, também se comporta de forma particular por causa do Mundial. Para ser competitivo, o F. C. Porto tem de tentar preservar o seu núcleo.

Ao mesmo tempo, é sabido que os clubes portugueses têm necessidades imediatas de tesouraria: precisam de caixa para cumprir compromissos e garantir fluxos que suportem essas obrigações - desde logo salários, pagamentos a outros clubes e prestações de transferências feitas no passado. É isso que nos obriga, com frequência, a mexer no mercado.

Neste momento, não há nada de concreto em cima da mesa pelos nossos jogadores, o que nos dá proteção e alguma tranquilidade. Ainda assim, temos de ter consciência de que é preciso gerar fluxos de caixa para nos mantermos sustentáveis durante a época, do ponto de vista das nossas responsabilidades.

Há algum alvo preferencial que o F. C. Porto tenha identificado em termos de contratações?

Sim, existem muitos nomes e vários já estão referenciados. Mas o mercado de junho e julho tende a ser o mais caro: é quando os clubes se protegem mais, valorizam os seus ativos e pedem montantes superiores.

É um mercado que, normalmente, ganha tração mais tarde: por causa das entradas de novos treinadores, do arranque das pré-épocas, das escolhas iniciais desses treinadores e também das necessidades de caixa de outros clubes. Diria que a maior agitação surgirá em agosto, nas últimas semanas do mês, quando há urgências financeiras e o mercado se ativa de outro modo.

Isto pode limitar, por vezes, o ideal do treinador, que preferiria iniciar a pré-época com o plantel completo e fechado. Mas também não podemos ignorar o que vivemos no início desta época 25-26: alguns jogadores do F. C. Porto chegaram tarde, como o Kivior, que entrou no último dia do mercado.

Olhando para esse equilíbrio do plantel, há setores da equipa que o preocupam mais, a defesa, o meio campo, o ataque, o ataque é sempre aquela questão.

O grande marco da época foram as lesões dos dois pontas de lança mais diferenciadores. Um deles é o Samu, que representa a maior transferência de sempre realizada por um clube português; no outro caso, o Luuk de Jong, uma contratação surpresa vinda da Holanda para o campeonato português, de um jogador de referência no futebol europeu.

Essas lesões condicionaram o F. C. Porto e levaram-nos a antecipar movimentos no mercado, com a entrada do Moffi. Neste momento, projetamos que o Samu esteja a 100% fisicamente e desportivamente no início, meados de novembro.

Com um calendário nacional e europeu exigente, o F. C. Porto tem, neste momento, apenas duas alternativas disponíveis: André Silva e Denis Gul.

É aí que aparece o Lewandowski.

É aí que aparece o Lewandowski, construído pelos sonhos dos adeptos...

E não entrou aí também o sonho do presidente?

Partir da ideia de que, por termos três polacos, isso chegaria para convencer um dos melhores jogadores do Mundo - e também um dos mais caros do Mundo em termos salariais - quando, tanto quanto sei, hoje (sexta-feira) está mesmo a assinar pelo Chicago Fire.

Está fora, portanto...

Sim, sempre esteve fora. Sonhar com grandes nomes é bom. O que não podemos é ter delírios que ponham em causa a sustentabilidade financeira do clube.

A entrada do André no F. C. Porto marca uma cisão com o passado. E essa relação com o passado continua a ter alguns focos de tensão, pensando aqui no enorme peso histórico de Pinto da Costa. Pergunto-lhe como é que estão as relações com a família do ex-presidente e as pontes que sempre foi procurando fazer, mas que nem sempre foram conseguidas.

Sim, tentar encurtar distâncias... A presença da família de Pinto da Costa aproxima-nos do nome e do legado de Pinto da Costa - um legado que é, também, familiar. Há, contudo, um limite claro: o F. C. Porto não entra em disputas internas dessa família.

O que nos liga é Jorge Nuno Pinto da Costa - e é ele que une todos os portistas. Assim, tudo o que acontece relativamente à família traduz-se em homenagens e, sobretudo, no reconhecimento de um direito que lhes assiste: o de viverem a glória que o pai alcançou no F. C. Porto. Mas o clube tem de manter-se fora de qualquer problemática familiar. Nessa dimensão, não nos envolvemos.

Com simpatia, vamos convidando a família sempre que há eventos que consideramos relevantes, não só para a história de Jorge Nuno Pinto da Costa, mas também para a história do F. C. Porto, como, por exemplo, a conquista de títulos.

Guarda algum tipo de mágoa por essa pacificação não ter sido completa? E acha, por outro lado, que o universo portista já está pacificado com essa memória e com esse legado de Jorge Nuno Pinto da Costa?

Eu tenho feito uma coisa de forma consistente: honrar o passado de Jorge Nuno Pinto da Costa. É uma obrigação e uma responsabilidade muito grande.

Tivemos uma afluência histórica ao memorial de Jorge Nuno Pinto da Costa, lançado este ano, um ano após o seu falecimento. Essa adesão demonstra bem o cordão umbilical que liga os portistas ao presidente dos presidentes do F. C. Porto. A minha responsabilidade maior é continuar a elevar e a respeitar o bom nome de Jorge Nuno Pinto da Costa.

Para fecharmos este capítulo, consegue identificar a melhor memória que tem com Pinto da Costa?

Se recuar a 2010-2011, comigo como treinador principal, foi uma época extraordinária: tudo correu tão bem que a nossa relação foi impecável. Ainda assim, existem vários momentos da minha vida em que me cruzei com ele, nomeadamente quando era o Robsonzinho, o "estatístico" do Bobby Robson, como ele me chamava.

Era assim que ele o tratava?

Era, e fazia-o com carinho. São memórias boas e que ficam para sempre.

Talvez a mais marcante tenha sido a primeira chamada que tive com ele, em que confirmou, na prática, a intenção de me tornar treinador do F. C. Porto para 2010-2011. Essa conversa tem um peso enorme: pelo valor da palavra, pela honra e pelo simbolismo máximo do que o F. C. Porto representa. São momentos muito emocionais que me ligam ao presidente.

Farioli, enquanto treinador vencedor, conseguiu potenciar vários jogadores. Que papel é que tem hoje o treinador no êxito da equipa e que perspectiva é que tem para a próxima temporada, com a fasquia tão alta?

Para lá de tudo o que envolve a vertente técnica, a liderança, a motivação do grupo e o trabalho diário, há outro aspeto decisivo: foi alguém que se relacionou com a estrutura do F. C. Porto como ninguém.

Desde logo com o Tiago Madureira, com o Henrique Monteiro, com a prospeção, com as várias estruturas de apoio, com o rendimento, com a área médica e com a nutrição. Um gestor forte de pessoas e de recursos humanos - e, claro, de jogadores - que nesta época também se superaram, absorveram as ideias do treinador de forma exemplar, respeitaram-no e conseguiram traduzir em campo a sua visão. O resultado foi um F. C. Porto atrativo, intenso, pressionante, que defende e honra os pergaminhos do clube.

É o líder certo da "famiglia portista", como ele próprio a classificou?

Sim, sem dúvida. O conceito de líder certo da família foi criado por ele, e ele próprio o assumiu e o abraçou. E foi algo que defendeu durante toda a época.

Isso também é muito Porto: a capacidade que jogadores e treinador tiveram para perceber a nossa realidade e ajustar-se a ela.

O F. C. Porto não tem equipas de modalidades femininas como andebol, basquetebol e hóquei em patins, ao contrário dos rivais. É possível vir a ter até ao final do seu mandato?

No feminino, é difícil. Temos a sustentabilidade económica controlada, mas a urgência mantém-se, sobretudo na questão dos fluxos de caixa. Ter mais equipas femininas significa também mais custos, que precisam de ser geridos.

É uma ambição do F. C. Porto. Do meu programa eleitoral, falta-me cumprir uma promessa: a confirmação da criação da Fundação Futebol Clube do Porto, que aguardamos que fique totalmente resolvida do ponto de vista jurídico.

Com a Fundação, chegam o atletismo amador e o regresso ao atletismo em várias vertentes; chega também o regresso do voleibol masculino, que, até hoje, penso ser uma das modalidades mais vencedoras da história do clube. O futsal é o passo seguinte: começou na terceira divisão e tem margem para crescer.

Pedimos, no entanto, alguma tolerância aos sócios, porque o nível a que os nossos rivais estão é muito alto, desde logo porque já competem na Europa. Há um gap e uma distância grande até ao topo, até termos condições para ambicionar ser campeões na primeira divisão. Isto tem de ser gradual e também formativo.

Quanto ao lançamento de mais modalidades femininas, há outro desafio incontornável: tem de estar intimamente ligado ao avanço do pavilhão em Ramalho Ortigão.

Em que ponto está esse processo?

Foi atribuído ao F. C. Porto um direito de superfície por 75 anos para desenvolver um novo pavilhão. Para pensarmos em modalidades femininas, precisamos dessa nova casa.

O local está definido - o pavilhão Ramalho Artigão - mas é necessário encontrar financiamento para o construir. Depois, a longo prazo, e idealmente num segundo mandato, lançar esse desafio de aumentar a diversidade, que é uma obrigação e uma responsabilidade social do F. C. Porto.

O F. C. Porto foi, nos últimos tempos, abordado por investidores estrangeiros?

Não, não de forma formal e direta. Se um dia abrirmos a porta a investimento estrangeiro - seja em que modelo for - isso será o princípio do fim do F. C. Porto como clube de associados.

O nosso objetivo é que, enquanto clube de associados, o F. C. Porto se mantenha e perdure pelo maior período possível da sua história. É assim que deve ser.

As dificuldades económico-financeiras são típicas de um clube português. Por isso mesmo, temos de reformatar o conceito de receitas para sermos sustentáveis enquanto clube de associados.

Acredito que ser um clube de associados é, hoje, uma vantagem competitiva no futebol europeu: não ficamos reféns das extravagâncias de proprietários diferentes, que vão dominando as sociedades que gerem clubes, sejam sociedades ou fundos. Passa-se da extravagância de um chinês para um russo, de um russo para um americano, de um americano para um inglês - e, nessa disrupção, destroem-se culturas, valores e princípios.

Portanto, capital estrangeiro no Porto, com um acionista maioritário, está fora de questão. Seria o fim do associativismo. É o princípio do fim e é algo que temos de combater. Só se lá chegaria num caso evidente de falência financeira. É um passo que temos de evitar a todo o custo. Se isso acontecesse - e acontecesse comigo - seria um falhanço grave meu enquanto presidente.

Não é uma perspetiva demasiado conservadora e até romântica, atendendo às dificuldades tradicionais dos clubes portugueses?

Em primeiro lugar, voltando à vantagem competitiva: acho que é clara. Não estamos sujeitos a essas disrupções. O F. C. Porto é um clube de princípios, de valores e de uma exigência interna muito evidente; e a sua base são os associados. Para mim, isso conta como vantagem competitiva no contexto europeu - embora, financeiramente, os clubes portugueses sofram quando competem com os outros.

Depois, existem novas formas de receita. Desde logo a que criámos com as Notas Dragão, que permitem construir sustentabilidade para clubes de associados. Fomos os primeiros, pioneiros; o Sporting seguiu-se com as suas Notas Leão, ou o que lhe quiser chamar, e potencialmente o Benfica poderá lançar uma nova emissão de dívida associada às receitas do estádio para captar capital e, no fundo, reformatar e reformular a sua base económica.

Há, portanto, novas formas de gerar receita. E, esgotadas essas, para onde vamos? Aqui entramos num tema maior: a dificuldade que os clubes europeus têm, hoje, para competir com a Premier League - o “animal” que distingue o futebol europeu e que se tornou tão poderoso que o F. C. Porto já disputa jogadores com clubes do Championship, porque os da Premier League estão noutro patamar.

Como podem os clubes europeus unir-se para criar novas condições de receitas que lhes permitam competir com a Premier League? Até que ponto e quando teremos competições intrafronteiriças que permitam aos clubes europeus gerar mais receitas?

Acredita que essa independência económica do Porto continua muito alicerçada no desempenho desportivo e na capitalização dos ativos, sobretudo os jogadores?

Sim - e também no mercado de transferências. Ou seja: receitas europeias, direitos audiovisuais e entradas na Liga dos Campeões.

A questão do estádio, a questão do naming é recorrente. Pergunto-lhe se o naming do estádio é negociável e quanto é que pode valer esse naming?

Se recuarmos algumas décadas, quando a afirmação publicitária era sobretudo nacional, havia empresas que patrocinavam os três clubes. Se partirmos de um pressuposto baixo - de que a denominação comercial de um estádio de um dos três grandes vale pelo menos três milhões de euros -, então qualquer multinacional que quisesse implementar-se em Portugal patrocinaria os três grandes, o que significaria, de imediato, nove milhões de euros de investimento publicitário em território nacional.

Isso, simplesmente, não é viável para grandes companhias. Por outro lado, empresas nacionais evitam associar-se de forma direta a um clube, por receio de represálias no comportamento de clientes que apoiam outros clubes.

É um desafio: exige uma lógica muito coordenada e específica com investidores que procurem este nível de exposição mediática. O F. C. Porto está a trabalhar nisso, tal como a Legends também está a trabalhar para o F. C. Porto.

Esse valor que tem, os tais três milhões de euros, é uma referência do mercado?

É uma referência de mercado. A partir daí, tudo depende dos ativos que entram no pacote da denominação comercial: o patrocínio em si, mais a relação com a base de dados - os adeptos do Futebol Clube do Porto.

E nós não queremos que isso seja invasivo ao ponto de tratarmos a nossa base de dados como clientes ao serviço dos interesses de outras empresas. É um tema sensível.

A verdade é que estamos no mercado e acreditamos que a exposição mediática deste tipo de acordo é forte. Também reformula o conceito dos próprios estádios. E o nome Dragão, para nós, é unânime; teria de ser preservado.

Ainda dentro do mesmo tema, mas saindo aqui um bocadinho da questão da monetização, preocupa-o esta perda de identidade no futebol, quer dentro de portas quer em termos internacionais? Vemos agora, por exemplo, que está a decorrer o Mundial, pausas para hidratação em estádios com ar condicionado, onde a temperatura é perfeitamente aceitável... Esse excesso de mercantilismo preocupa-o?

Há sinais preocupantes do tempo em que vivemos. Há também sinais que obrigam a adaptações - e nós próprios nos fomos adaptando.

Estive na final da Copa América do ano passado, entre Argentina e Colômbia, e o intervalo teve 30 minutos por causa de um espetáculo da Shakira. As instituições internacionais procuram reinventar modelos económicos. São organizações sem fins lucrativos, mas que, ainda assim, empurram para certos posicionamentos: a exposição do volume de patrocinadores e, por vezes, a tentativa de entregar um produto que alguns adeptos apreciam e outros rejeitam.

Entre as novas realidades, as que mais me preocupam são as multipropriedades. No comité de competições de clubes da UEFA, temos mostrado cada vez mais resistência e inquietação perante o seu domínio.

Em Portugal, estas multipropriedades funcionam sobretudo como veículos de investimento; assim, as nossas sociedades desportivas - ao contrário dos clubes ainda puramente associativos - mudam de dono com grande frequência. Com dificuldades económicas relevantes, entram em multipropriedades e acabam por servir interesses do clube-mãe, do investidor e do proprietário, e não os dos associados e adeptos.

É um fenómeno transversal ao futebol europeu, cada vez mais premente, e os clubes europeus estão preocupados e a tentar evitar a proliferação destes multiclubes.

Também me parece claro que a ideia do multiclube está a falhar. Inicialmente foi pensada como um projeto de cadeia de desenvolvimento, em que jogadores passariam de clube em clube, evoluindo desportivamente. Creio que esse ideal, hoje, também está a ruir.

Há muitas ameaças à forma como nós, mais conservadores, olhamos para o futebol. Mas o consumidor, no fim, tende sempre a adaptar-se.

Podemos qualificar as relações do F. C. Porto com o Benfica e o Sporting como institucionalmente toleráveis ou há uma diferença de tratamento e respeito entre Rui Costa e Frederico Varandas? E, tendo em conta o atual cenário, é de prever uma maior aproximação entre F. C. Porto e Benfica?

A relação institucional com o Benfica é pautada por elevação e respeito. Até houve mais excessos da minha parte, enquanto presidente do F. C. Porto, em direção ao Rui Costa do que o inverso. Fiz, inclusive, um "mea culpa" recentemente. Tento corrigir-me sempre que posso e volto a fazê-lo aqui.

Existe uma rivalidade histórica com o clube que lidera em número de campeonatos nacionais - não no número de títulos nacionais e internacionais de futebol, porque esse é nosso -, e o F. C. Porto quer ultrapassar essa liderança o mais rápido possível.

Tudo o que é “mágico” na rivalidade entre F. C. Porto e Benfica deve ser dignificado.

Com o Sporting, isso não acontece, porque a liderança atual opera num patamar de injúria, calúnia e vitimização contra o F. C. Porto que não podemos tolerar. Mesmo existindo alguma convergência estratégica sobre o que o futebol português precisa, a verdade é que, por causa dessa vitimização permanente, das calúnias e das injúrias que semanalmente lançam sobre o F. C. Porto, não há - nem pode haver - relação possível.

Que explicação encontra para isso? O F. C. Porto transformou-se num alvo útil à gestão interna do Sporting?

Talvez sim. Com o apoio de um grupo de Comunicação Social com maior afinidade clubística com o Sporting, que procura, no fundo, filtrar e opinar guiado por uma visão estratégica e por uma voz popular alinhada com o Sporting.

Tudo o que Frederico Varandas fez no Sporting foi transformar um clube recentemente vencedor num clube que se afirma e que foi construído para ser vencedor - algo que não era, porque vivia numa instabilidade política e desportiva muito evidente. Isso é mérito e sucesso dele.

Mas não pode viver permanentemente na vitimização, na injúria e na calúnia em relação ao F. C. Porto. O auge desse comportamento foi o caso do pavilhão e do cheiro a amoníaco. O Sporting ultrapassou todos os limites do razoável.

O F. C. Porto já entregou ao Ministério Público todos os documentos, devidamente sustentados, e o mais provável é que o caso seja arquivado, por se tratar de um processo inventado pelo Sporting. E, a partir daí, o F. C. Porto irá com tudo contra o Sporting.

Essa blindagem institucional do F. C. Porto para com o Sporting vai manter-se durante o seu mandato? Não há margem para nenhum tipo de abertura e pacificação?

Pela personalidade do próprio (Frederico Varandas), não vejo qualquer possibilidade de relacionamento. São tipologias de personalidade com que eu não consigo conviver, nem respeitar.

Aquela frase de Frederico Varandas após o jogo da primeira-mão das meias-finais da Taça de Portugal - "eles têm medo" -, foi utilizada no balneário portista?

Terá sido utilizada, seguramente, por jogadores e treinador - não sei em que medida. Há sempre estratégias motivacionais que os líderes usam para fazer os atletas transcendê-los. Isso faz parte do desporto: encontrar estímulos, jogo a jogo, para procurar a vitória.

Essa questão é mais para o mister Farioli do que para mim. Eu sempre fui um líder muito mais emocional e mais irracional. O André Villas-Boas treinador, seguramente, teria usado. Não sei se o Francesco Farioli, treinador, faria o mesmo - ou se o fez.

Qual é o seu grau de satisfação no que se refere à chave de repartição de receitas em matéria de direitos televisivos que foi aprovada na Assembleia Geral da Liga?

Para já, foi uma concessão dos grandes em relação a essa chave. E, neste caso, os grandes foram, basicamente, o F. C. Porto e o Sporting, porque o Benfica ficou fora.

Houve cedência, mas também há risco: se algum dia um destes três grandes cair para a quarta posição, pagará pelo fator de performance desportiva associado à chave de repartição.

Estou satisfeito com o que foi aprovado na Assembleia Geral e com o que tinha sido previamente alinhado na direção da Liga Centralização. Agora falta ir ao mercado para chegar ao valor que entendemos que o futebol português vale.

Qual é esse número?

Esse valor está entre os 200 e 250 milhões de euros. Seria um número, digamos, perfeito - ou perfeitamente atingível - para o futebol português.

Naturalmente pode variar. Queremos que seja construtivo num primeiro ciclo para permitir um segundo ciclo, até porque está desenhado para crescer. Para isso, é essencial que o futebol português melhore transversalmente noutros temas: a qualidade das infraestruturas, a qualidade da tecnologia do VAR e também a fiscalidade, porque isso daria aos clubes um pouco mais de fluxo de caixa para gerir investimentos futuros.

Há, portanto, um conjunto de problemas novos que é urgente resolver.

Com a nova realidade dos streamings que temos visto no Mundial, acredita que o caminho é para aumentar esse valor ou está um bocadinho cético?

Temos de ser criativos na forma de vender os direitos. Essa resposta é mais adequada para o André Mosqueira do Amaral (diretor-executivo da Liga), que tem sido muito ativo na comercialização do produto do futebol português.

Acredito que existem novas formas de criar conteúdos e, também, de os clubes colocarem mais ativos dentro do processo de centralização. É por isso que o F. C. Porto tinha de resistir a qualquer proposta diferente: os três grandes, apesar de tudo, são o motor do futebol. Nós não temos o comportamento regional que existe noutros países e, com todo o respeito, os clubes nacionais não têm o poder que outros clubes têm em diferentes geografias.

Como motor do futebol, os três grandes também tinham de se proteger nesta chave de repartição.

Mencionou também a questão dos custos de contexto, da melhoria da tecnologia VAR. Acha que estão a ser dados os passos corretos ou poderia ter sido feito muito mais?

É necessário alterar as regras do licenciamento e as exigências associadas. Essa preocupação existe e ganhou força também pelo que aconteceu com o F. C. Porto B na época passada.

A uniformização do VAR em todos os estádios portugueses é urgente, esse é o primeiro passo. Mas, antes de evoluirmos tecnologicamente, temos de uniformizar as condições: as mesmas câmaras, a mesma qualidade, o mesmo número de câmaras. Só depois vem a melhoria das ferramentas.

Desde logo, linha de golo e foras de jogo semiautomáticos. Essas mudanças tecnológicas devem estar ligadas à centralização, através de uma parceria possível entre a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portugal, para suportar os custos iniciais desse investimento - uma das grandes dificuldades apontadas pelos clubes no processo de uniformização.

Ultrapassado isso, o produto futebol português melhora: menos casos nos jogos, melhores decisões, tecnologia ao serviço da verdade desportiva.

E evitamos situações como a do ano passado no F. C. Porto B, em que um fora de jogo evidente não foi decidido por causa da exposição solar e do posicionamento da câmara e das colunas do estádio. É patético e tem de ser combatido.

Fizemos muito ruído no ano passado. Agora temos finalmente a Federação connosco, porque, na Liga Portugal, o Pedro Proença foi muito recetivo ao nosso movimento e quer transformar isto numa obrigatoriedade para promover melhorias.

As câmaras usadas na Premier League para decidir foras de jogo conseguem captar 60 fotogramas por segundo. Em Portugal, as câmaras andam entre 5 e 10 fotogramas por segundo para decidir um fora de jogo. Isso é a diferença entre a bola estar colada ao pé ou estar ligeiramente afastada 5 centímetros.

Com essa limitação, é muito mais difícil para quem opera o VAR tomar decisões coerentes. Há, portanto, uma parte tecnológica, e há outra ligada à informação e à formação dos árbitros: o Conselho de Arbitragem, o desenvolvimento dos árbitros e a forma como são penalizados ou recompensados.

Já vimos árbitros que passam de apitar um jogo na Liga 2 para serem promovidos a um clássico; e não vimos uma regularidade que premie os melhores.

A qualidade dos árbitros é um problema no futebol português?

A uniformização de critérios é uma das grandes dificuldades do futebol europeu - ou até mundial. Há um esforço constante para uniformizar, e esse é o ponto central.

O que aconteceu este ano desde a tomada de posse do Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Provença? Houve uma liderança bicéfala no Conselho de Arbitragem que não funcionou. Houve também uma maior exposição pública e mediática dos árbitros, com diferentes leituras de critério em lances que nos parecem semelhantes, o que acabou por confundir os próprios árbitros e degradar a qualidade e a consistência das decisões em determinadas jogadas.

Todos queremos critérios claros: o que é penálti, o que é mão, o que é falta, uma falta para amarelo, uma falta para vermelho - as decisões grandes, no fundo.

O presidente da Federação Portuguesa de Futebol pede tempo para que o Conselho de Arbitragem funcione em pleno. Esta primeira época foi um falhanço evidente. Houve um recuo por parte dos próprios árbitros em relação a certas posições, e isso, a meu ver, foi positivo.

Vamos ver, na próxima época, que postura terá esta liderança bicéfala do Conselho de Arbitragem face ao que aconteceu. Esta época não foi boa; foi difícil.

Também me parece claro que há órgãos de Comunicação Social que vivem mediaticamente de más decisões para criarem programas e conteúdos que puxam audiência. Não digo que seja o vosso (grupo), mas existe empolamento destes episódios, porque geram controvérsia, caos, atenção - e, no fim, receita.

O F. C. Porto está mais satisfeito com o presidente da Liga? E com a Liga em geral?

Nós não apoiámos esta candidatura. Já felicitei publicamente o Reinaldo Teixeira pelo trabalho, sobretudo no tema da centralização dos direitos audiovisuais, que foi uma das grandes vitórias do primeiro mandato, que termina em 2027.

Agora surgem outras questões. A sua concentração esteve muito nesse dossiê; falta agora a parte da competição, a organização dos jogos e o fair play financeiro, que suponho e espero que sejam bandeiras numa candidatura a um segundo mandato. Depois, o F. C. Porto tomará posição perante este ou outros candidatos.

Que transformações foram feitas no âmbito do futebol de formação que conduziram a este sucesso, para muitos inesperado, em todos os escalões?

Foram mudanças profundas, e queremos que se sustentem no tempo. É exatamente o que procuramos fazer também na equipa sénior: que o F. C. Porto não abandone mais o lugar que lhe pertence, o primeiro.

Na formação, apesar de tudo, não é obrigatório ganhar títulos para se ter uma boa formação: é preciso visão e um projeto claro do que é um jogador “à Porto” que chegue à equipa principal.

Aqui, encontrámos estabilidade a partir do momento em que colocámos o José Tavares nesta função: alguém que conhece profundamente a casa, já foi vencedor e, gradualmente, está a implementar novamente o seu projeto e a sua visão formativa.

Desde 2010-2011, em 39 títulos disponíveis, o F. C. Porto só tinha vencido seis na formação. Recuperar um pleno é muito reconfortante para o futuro.

O verdadeiro “bingo” do pleno é estes miúdos chegarem, de facto, à equipa principal; por isso, é um projeto de médio e longo prazo. A afirmação real do pleno que terminamos agora com os sub-15 só se confirmará daqui a quatro anos, quando, por exemplo, o Tiago Portugal chegar à equipa principal.

Ganhar títulos ajudou a consolidar o projeto e a trazer o Tiago Portugal como exemplo para a equipa principal.

É um projeto formativo que, por definição, corresponde sempre a 10 anos. Serão 10 anos em que eu espero que o José Tavares se mantenha à frente. Se ligarmos isto a mandatos, serão 12 anos, seguindo boas práticas.

A pergunta que interessa é: quantos jogadores da formação chegarão à equipa principal com capacidade para ganhar títulos e afirmar-se como jogadores do Futebol Clube do Porto?

O F. C. Porto mudou um bocadinho a estratégia para blindar os jogadores em função daquilo que aconteceu com o Cardoso Varela?

No caso do Cardoso Varela, o F. C. Porto fez o ruído necessário para que algo semelhante não volte a acontecer.

O Cardoso Varela não está aqui ao meu lado, mas estou convencido de que, provavelmente, diria que cometeu um erro. Não propriamente por culpa dele, mas pela ganância de outros que o levaram a sair do F. C. Porto. Ganância que, possivelmente, foi vendida à família - uma família pobre, com grandes dificuldades -, que pode ter sido influenciada por palavras e por um sonho.

Não estou a dizer que estas mudanças não funcionem por vezes. No caso do Cardoso Varela, não resultou: o jogador está perdido na Croácia, no Dínamo de Zagreb B, à espera de um futuro melhor e, com certeza, lamenta o passo dado - sobretudo quando o F. C. Porto defendeu de forma muito clara o seu futuro, e quando o Vítor Bruno lhe disse que seria integrado na pré-época da equipa principal, tal como o Rodrigo Moura.

Custa ver um talento assim perdido.

Depois há o assédio a jovens, que é uma competição. Isto está ligado ao crescimento exponencial dos clubes da Premier League, que hoje têm redes de prospeção praticamente infalíveis. E não é só prospeção: é também análise de dados, ferramentas e filtros que lhes permitem chegar ao talento mais depressa do que os clubes portugueses.

Os clubes portugueses, que antes serviam frequentemente de ponte para esses destinos, são agora obrigados a proteger melhor os seus ativos: com melhores condições, melhores propostas e uma comunicação mais forte do projeto formativo.

Mas o contrário também acontece. O F. C. Porto contratou agora um prodígio de 16 anos da Noruega.

Mas com total acordo do clube de origem. O F. C. Porto pagou caro por um miúdo de 16 anos, pelo potencial futuro, para vir para uma escola melhor - que acreditamos ser esta - num contexto competitivo mais forte, para se desenvolver.

E isso nunca foi feito à revelia do Fredrikstad, neste caso. O F. C. Porto não deixou de pagar cerca de 1.8 milhões por um diamante em bruto, basicamente.

E esse trabalho em dupla via, vamos chamar-lhe assim, tem que continuar a ser feito?

Sim, no fundo é uma lógica muito simples....

... mas não há o risco de ser mal entendido pelos sócios? Vamos apostar na formação, mas depois vamos contratar fora um miúdo de 16 anos?

O F. C. Porto sempre se afirmou tanto na formação como, sobretudo, na prospeção ao longo dos anos. Conseguiu convencer jogadores de topo mundial - que depois se afirmaram - a passarem pela escola F. C. Porto.

O clube distinguiu-se por atrair talento internacional: James Rodriguez, Falcão, Hulk, etc. E, em paralelo, pela produção interna: Ricardo Carvalho, Vitinha, Ruben Neves e Diogo Costa, entre outros.

Na linha de prospeção, o F. C. Porto tem de se antecipar cada vez mais e chegar aos 16 e aos 17 anos, quando custam, mais ou menos, entre 2 e 10 milhões de euros. A partir daí, passam a custar entre 10 e 20, 20 e 30, e 30 e 40.

Qual é a política atual do F. C. Porto perante os agentes?

O F. C. Porto trabalha com todos. E este é outro fenómeno em grande transformação.

Os jogadores passaram a trocar de agências com frequência. A relação de compromisso - quase de “amor” - com o agente que te descobriu e te acompanhava até ao fim, deixou de existir.

Os atletas são assediados por outros agentes com compensações para mudarem de representação; esses agentes também fazem a sua própria prospeção ao talento e ao potencial retorno futuro. Quebrou-se essa relação umbilical com o agente “original”, e hoje vemos muitas mudanças.

O segundo fenómeno é que fundos começaram a comprar agências. Ou seja: há basicamente um, dois, três fundos que controlam, no total, perto de 20 agências de jogadores.

Este é o novo veículo pelo qual poderemos ver dinâmicas ainda mais específicas entre clubes, por causa dos interesses desses fundos em colocar determinados jogadores em determinados clubes.

São novos fenómenos e novos problemas.

Nesta altura não há agentes preferenciais?

Não. Deixou de haver. É, no essencial, o representante do atleta.

Para fechar o capítulo da formação, o F. C. Porto conseguiu o pleno andando com a casa às costas, como o próprio André reconheceu. Na melhor das hipóteses, quando é que teremos o centro de alto rendimento em Gaia concluído e quando é que vai ser dado esse passo decisivo para poder dar alguma estabilidade também à formação em termos logísticos e infraestruturais?

É um processo longo e difícil, sobretudo porque o F. C. Porto não tem capacidade económica para se autossustentar nesse projeto.

O nosso desafio é escolher o veículo financeiro para construir o centro de treino.

O F. C. Porto fez duas coisas: pagou, com capital próprio, a compra do terreno, garantindo a propriedade do centro de alto rendimento; e suportou também, do seu bolso, a movimentação de terras, que ainda tem nove meses de trabalho pela frente, por causa da inclinação do terreno.

Um centro de treinos daquela dimensão terá um custo entre 40 a 50 milhões de euros, também devido ao aumento de custos.

Dificilmente vê como concluído no final deste seu mandato?

Dificilmente. Estamos a trabalhar para escolher o veículo financeiro e avançar para a construção. Mas é uma dor de cabeça grande.

Podemos deduzir que está em condições de nos dizer que se vai recandidatar? Está a dois anos de concluir o mandato, o tempo passa muito rápido....

Sim, passa depressa. Já conquistámos um título; em dois anos faltam mais dois para disputar, sendo que o último coincide, naturalmente, com as eleições de abril, de acordo com os estatutos do F. C. Porto.

Acho que os sócios votarão no trabalho. Sempre disse que o presidente do F. C. Porto deveria ser eleito de forma unânime. Penso que isso é algo que também une os portistas: o F. C. Porto é mais forte quando está unido.

Por muito que respeite a democracia, entendo que a história do F. C. Porto exige que o presidente seja eleito de forma unânime, para existir união em torno do objetivo maior: o sucesso do clube.

Dito isto: enquanto o meu projeto F. C. Porto, seja ele qual for, for unânime, cá estarei para o liderar. No momento em que eu perceber que deixo de ser unânime, nem me recandidato, porque antes de presidente sou sócio e sei ler as dinâmicas associadas à união do clube. Nunca me poderia candidatar se sentisse que não tinha um projeto claramente vencedor.

Portanto, conta com uma vitória ainda mais esmagadora dentro de dois anos.

Em primeiro lugar, quero conquistar o título 26-27 e, a partir daí, usar essa base para construir um F. C. Porto cada vez melhor.

Essas feridas do passado já foram todas lambidas? Essa pacificação e conciliação já foram alcançadas?

O F. C. Porto agarra-se ao passado. Por isso fizemos esta entrevista no museu: pela construção da sua história, pelo reconhecimento único do clube que somos e dos princípios e valores que nos definem enquanto adeptos.

Eu fui moldado por esta geração, pela liderança de Pinto da Costa, que durou 42 anos. Tenho 48 anos, portanto fui altamente e profundamente marcado por uma liderança única e vencedora.

E estes novos sócios que estão a chegar - a crescer a 20% ao ano - eu quero que sejam marcados da mesma forma que eu fui.

O que é que o F. C. Porto não tinha quando chegou à presidência e agora tem?

Houve, sobretudo, uma mudança radical: no projeto, na sustentabilidade económica, na relação com a massa associativa, na forma de comunicar com o verdadeiro dono do clube e, talvez, numa visão mais projetada no tempo - também fruto da juventude do atual presidente.

Foi nisso que os sócios votaram.

Existe uma nova forma de nos relacionarmos com os associados: mais viva, mais direta, frontal e honesta, de forma a honrá-los. Ser sócio do F. C. Porto, ter um lugar anual, custa dinheiro - é caro.

Por isso, os sócios também têm de ser recompensados na forma como vivem o clube do coração. E isso melhora-se com necessidades, serviços, comunicação, benefícios e títulos.

Para si, ainda faz sentido o mantra "nós contra Lisboa?"

Acho que não há outra forma de o ver enquanto se mantiver a disparidade de tratamento em relação ao F. C. Porto: aos seus méritos, à forma como vence, à forma como nos penalizam, como desgostam de nós e como desgostam dos nossos ativos. É uma cultura muito nossa e que deve ser preservada no tempo.

O período de convulsão interna que o F. C. Porto viveu antes do André chegar à presidência teve também uma relação direta com as claques. Qual é o estado da arte em termos de relações institucionais entre a direcção do clube e as organizações de adeptos?

Existe hoje uma relação muito próxima e direta com o grupo organizado de adeptos, depois de uma revisão profunda do protocolo.

Esse protocolo era algo que, como vocês sabem, eu gostava de ver um dia aprovado em Assembleia Geral. Penso que já não precisamos desse passo, porque a relação é cordial e frontal.

O que deixou de acontecer - em especial com um dos grupos organizados - foi o desvio de fundos. Isto é claro e factual. O F. C. Porto perdia cerca de dois milhões de euros por ano em bilhética associada a um grupo organizado, além de outras questões ligadas a algumas casas.

Isso ficou resolvido quando o F. C. Porto avançou na transformação digital e deixou de existir margem para ilícitos relacionados com bilhetes.

A partir do momento em que isso terminou, a relação passou a ser factual, direta e honesta.

Houve, naturalmente, retaliação. Mas houve também uma retaliação desportiva em 24-25 que, se eu fosse adepto, teria feito de forma semelhante - não de modo violento, mas vocal e comunicativo - em relação a objetivos que tínhamos de cumprir e não cumprimos.

Se calhar existiu pouca tolerância para um ano de transição, absolutamente necessário, por causa das fragilidades económicas que encontramos. Algumas são públicas; outras só nós as conhecemos. E foram muitas e duras.

O F. C. Porto era um clube com salários em atraso. Em 2025-26, não falhámos uma única vez com atletas de nenhuma modalidade, nem com qualquer funcionário. Isso orgulha-nos enquanto gestores e é o patamar de excelência que queremos consolidar.

"Gostava que o Sérgio fosse aplaudido de pé por um estádio cheio"

O Sérgio Conceição deu-lhes parabéns depois deste título de futebol?

Deu os parabéns ao F. C. Porto, como era devido.

Já que entramos no tema do Sérgio, é importante lembrar: o Sérgio também ajudou a construir este museu onde estamos. É um dos treinadores mais vitoriosos de sempre na história do F. C. Porto, em número de títulos, e está intimamente ligado ao clube.

Eu disse-lhe que não queria que lhe acontecesse o que aconteceu comigo: um afastamento entre instituição e o treinador André Villas-Boas, provavelmente por causa das ambições de vida do André Villas-Boas, sócio do F. C. Porto.

A verdade é que houve distanciamento, muito por o F. C. Porto ter escolhido um antigo adjunto seu (Vítor Bruno) como futuro treinador principal. Na cabeça do Sérgio Conceição, temas emocionais ligados a lealdades e traições terão pesado, talvez por ele entender que houve desonestidade - quando foi honesto em todos os sentidos.

O F. C. Porto tinha de ser livre nas suas escolhas; era o mínimo.

Ainda assim, eu gostava muito de receber o Sérgio Conceição no centro do relvado.

É um convite?

É um convite - que ele não irá aceitar.

Recebê-lo num estádio cheio. Comigo na presidência do F. C. Porto, seguramente que não aceitará.

Mas esse seria o cenário certo: estádio cheio, adeptos de pé, a aplaudir um treinador histórico. Esse reconhecimento é o que ele merece.

E é algo que já distinguiu esta presidência com José Mourinho e com Vítor Pereira.

Gostava muito que o Sérgio tivesse esse momento, tal como o Pepe. Se eles entenderem que com esta presidência isso é impossível, é um tema que lhes diz respeito e do qual sou completamente alheio. O meu desejo é esse. Queria que tivéssemos essa oportunidade.

Certamente tem acompanhado o Mundial de Futebol. Como é que viu esta entrada de Portugal? Completamente em falso?

Sim e não. Em termos desportivos, conta pouco: dá para recuperar e é possível que Portugal, ainda assim, ganhe o Campeonato do Mundo que alimenta os sonhos de todos.

A entrada foi em falso, mas já aconteceu com muitas seleções. Vimos empates no primeiro jogo, inclusive por parte de favoritas...

"É altura de os jogadores da Seleção se refocarem, de pensarem em estratégias, se calhar de irem menos à praia e de irem mais à sala de reuniões"

Mas que fizeram mais remates à baliza.

Mas a Espanha também empatou. E várias outras seleções candidatas empataram e passaram dificuldades.

Primeiro, é preciso enquadrar pelo lado da qualificação.

No plano desportivo, a exibição foi fraca e não esteve ao nível do que é uma geração de ouro absoluta do futebol português. Isso é evidente. Penaliza-nos e obriga-nos a uma semana de críticas absurdas e de dúvidas sobre a qualidade de cada um daqueles jogadores.

Tem de haver enquadramento do processo competitivo; e esse, para mim, não está em causa.

É tempo de repensar, de se refocarem, de definir estratégias - se calhar de irem menos à praia e de irem mais à sala de reuniões.

E, com união, Portugal tem todas as condições para se qualificar, que era o mínimo num grupo daqueles.

Dito isto, as ambições continuam muito altas: porque é uma geração de ouro, porque queremos muito, porque ambicionamos muito, e porque também desejamos que o maior talento do futebol mundial - o homem que deu tanto a Portugal (Cristiano Ronaldo) - termine agarrado ao troféu de campeão do Mundo, como o Messi fez no Catar.

Se calhar também tem que sair um bocadinho durante os jogos, quando estiver cansado.

Isso é gestão do treinador. O treinador administra como entender o máximo goleador da história do futebol; ele saberá melhor do que ninguém como o gerir.

Agora, sim: a seleção obrigou-nos a esta semana dura de reflexão, críticas, dúvidas e penalização. Mas acredito que se reencontrará. Talento tem, e acho que no próximo jogo dará uma imagem melhor.

Preocupa-o perder o Diogo Costa, guarda-redes da seleção?

O Diogo é o futuro do clube. Quero muito vê-lo entrar em campo com a camisola 2 para o ano. Mas é um dos maiores ativos do F. C. Porto e tem ambições próprias.

Tem uma carreira única e sem paralelo no F. C. Porto. Quer ganhar aqui e quer continuar a ganhar.

Nós estamos felicíssimos por tê-lo cá, com a braçadeira no braço e o número 2 nas costas.

"Não sei se o Diogo Costa vai cá estar na próxima época. É uma decisão tripartida entre proposta, o F. C. Porto aceitar a cláusula e depois o atleta chegar a acordo com determinado clube"

Diogo Costa vai estar no Dragão na próxima época?

Não sei se vai cá estar, porque é uma decisão tripartida: existe uma proposta, existe o clube, o F. C. Porto aceitar ou não a cláusula de rescisão, e depois o atleta chegar a acordo com determinado clube.

Portanto, não posso dizer que o Diogo não é dos atletas mais assediados que temos.

Quem ficou, e já tinha sido anteriormente chamado aos trabalhos da Seleção A, foi o Rodrigo Moura, também ele um jogador muito assediado. Acha que vai ser possível ele continuar no F. C. Porto?

O objetivo é manter a base, mas sem desligar da sustentabilidade económico-financeira.

Há, claramente, necessidade de fazer tesouraria - de realizar transferências - para termos dinheiro e operarmos cumprindo as nossas responsabilidades.

A intenção é segurar a base e mexer o mínimo possível. E essa base inclui os melhores jogadores do F. C. Porto, os nossos melhores ativos.

No nosso pensamento têm de estar: pagar salários aos jogadores, pagar salários aos funcionários, cumprir as responsabilidades e, também, dar resposta ao mercado de transferências de 100 milhões de euros do ano passado.

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