Manifestação do Vida Justa na Baixa de Lisboa
Centenas de pessoas concentraram-se este sábado na Baixa de Lisboa para contestar a sentença que aplicou uma pena suspensa ao polícia que matou Odair Moniz. A iniciativa foi convocada pelo movimento Vida Justa.
Com o mote "Sem justiça não há paz", o movimento quis também denunciar o que considera ser o "racismo estrutural" no funcionamento da justiça.
A marcha contou com o apoio de outros coletivos, entre os quais a Frente Anti-Racista e a SOS Racismo, e teve início às 18:00, no Largo de São Domingos.
Palavras de ordem e mensagens nas ruas
Num fim de tarde muito quente, os participantes percorreram as ruas da Baixa entoando palavras de ordem, com destaque para "Violência policial é herança colonial".
Em cartazes e faixas exibidos ao longo do percurso podiam ler-se frases como "Justiça para Odair Moniz", "Sem justiça não há paz" e "Vidas negras importam", entre outras mensagens de protesto.
Críticas à decisão judicial e referência a outros casos
"Uma pessoa desarmada é abatida, e diz-se [na sentença] que é legítima defesa", afirmou à Lusa Flávio Almada, ativista do movimento Vida Justa, defendendo que "a memória de Odair Moniz foi traída pela justiça".
Segundo o ativista, a convocatória desta manifestação pretendeu igualmente "chamar a atenção para outras pessoas que foram mortas pela polícia nas mesmas circunstâncias".
Flávio Almada evocou ainda a morte de um jovem de 14 anos, em 2009, caso em que a justiça considerou tratar-se de "um evento infeliz" para absolver o agente que foi julgado.
O ativista apontou também a nova lei que cria zonas de impacto social e criminalidade como mais um indício de "criminalização da pobreza e da imigração, da repressão e da deriva autoritária a que estamos a assistir".
Vozes dos manifestantes
Berenice, de 23 anos, explicou que decidiu juntar-se ao protesto por "uma razão muito complexa e uma mistura de sentimentos".
"Sou cabo-verdiana, na segunda-feira estava muito feliz porque tínhamos ganho - para mim foi como se tivéssemos ganho - o jogo do Mundial contra Espanha e, na terça-feira, estava a chorar no autocarro em que me dirigia para o trabalho e a pensar 'mas que justiça é esta?", disse, ao referir-se à sentença relativa ao polícia que matou Odair Moniz.
"Fiquei a pensar em como as nossas vidas nada valem, e em como não somos respeitados", acrescentou.
Também Francisco, de 40 anos, marcou presença por considerar que a decisão do tribunal foi "de uma injustiça tremenda".
"É por isso que estou aqui, para pedir justiça. As autoridades têm de dar o exemplo. Acredito que há bons profissionais na PSP, mas todos têm de dar o exemplo", afirmou.
Decisão do Tribunal de Sintra
No dia 15 de junho, o Tribunal de Sintra condenou o agente da PSP Bruno Pinto pelo homicídio do cabo-verdiano Odair Moniz, de 43 anos, que foi baleado na Cova da Moura, no concelho da Amadora, no distrito de Lisboa, em outubro de 2024.
Ainda assim, no mesmo processo, o tribunal decidiu aplicar uma pena suspensa de três anos e seis meses e entendeu que Bruno Pinto pode manter-se em funções como polícia.
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