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António Pargana e a Fundação António Pargana: a diáspora como ponte para Portugal

Homem a fazer videochamada num escritório com vista para Lisboa e bandeira de Portugal na secretária.

Entre peças de arte contemporânea - com nomes como Paula Rego e Júlio Resende a sobressaírem - António Pargana recebe-nos no Chiado, em Lisboa, com a simpatia de quem fala com gosto do que está a construir. O empresário dá a conhecer a Fundação António Pargana, criada com o propósito de incentivar, entre os lusodescendentes, a ligação à cultura portuguesa e de lhes acender a ambição de gerar oportunidades de negócio que tenham Portugal como ponto de passagem.

Português com raízes no Porto e no Algarve e afirmado como um dos grandes empresários no Brasil, com interesses em infraestruturas, petróleo e energia e comércio, Pargana recorre a um exemplo concreto para sustentar o que defende. Em 2015, numa fase difícil para o país, investiu com um grupo de sócios brasileiros quase €800 milhões na aquisição de 30% da Brisa Concessão Rodoviária. Nalguns momentos, insiste, é mesmo necessário arriscar. E acrescenta que, somando esta posição à do grupo José de Mello, se consegue que quase metade da Brisa “fale português”.

“Somos um povo desbravador, com iniciativa e que procura desa­fios”, afirma, explicando o orgulho que sente. Apesar de ter vivido a infância e parte da juventude em Moçambique e Angola e de ter feito vida adulta no Brasil, diz que nunca perdeu o fio à ligação com Portugal. Na sua leitura, um país com menor dimensão pode compensar essa limitação através de parcerias que o projetem para mercados além-fronteiras, tirando partido da rede que os milhões de lusodescendentes podem proporcionar.

“As empresas portuguesas têm de ir para fora. A minha experiência mostrou-me a importância de se ter escala, de procurarmos aumentar continuamente o volume dos nossos negócios para reduzir custos”, sublinha ao Expresso. E vai mais longe ao considerar que juntar “a inteligência e ligações de milhões de descendentes de portugueses” pode ampliar significativamente o mercado potencial das empresas nacionais. A Fundação António Pargana (FAP), defende, existe precisamente para fazer essa ponte.

Fundação António Pargana: cultura portuguesa e oportunidades de negócio

Com dois filhos cuja ligação a Portugal é, nas suas palavras, pouco intensa, o empresário diz querer retribuir ao país - e às gerações mais novas - parte do que a vida lhe proporcionou. Foi a partir dessa vontade que identificou um caminho: aproximar Portugal dos lusodescendentes.

Recorda que era ainda jovem quando o 25 de Abril de 1974 o libertou da guerra em Angola. Pouco tempo depois, a escassez de emprego em Portugal levou-o, juntamente com a mulher recém-licenciada em Medicina, a emigrar para o Brasil. Foi aí que começou a trabalhar na Cotia Trading, do grupo Ovídio Miranda Brito, um dos maiores cria­dores de gado brasileiros. “Tinham acabado de fechar um contrato para venda de carne fresca, por avião, para a Nigéria e acharam piada a um português, de bigode, que falava francês e inglês e tinha estado em África. Fiquei a trabalhar com eles durante 15 anos e terminei como vice-presidente comercial numa empresa que foi muito grande”, conta.

O poder da diáspora e do comércio

Para António Pargana, a diáspora portuguesa representa “uma das maiores riquezas que temos” e continua, na sua perspetiva, muito aquém do potencial que poderia ter. É esse espaço por preencher que a fundação - criada há dois anos e, por enquanto, suportada apenas pelo próprio - quer ajudar a ocupar.

“Queremos mostrar aos lusodescendentes um Portugal atual, moderno, inovador, com oportunidades.” E enquadra a ideia com o seu percurso: “Quando comecei a trabalhar com a Nigéria, o Gana, a China, o Japão ou o Iraque, Portugal estava fora da minha cabeça, mas as coisas ao longo da vida vão-se modificando. A minha visão é: se conheceres mais Portugal, há muito mais possibilidade de poderes fazer negócios com Portugal e atrair outros para o fazerem. Há oportunidades.”

Programas cruzam a experiência das empresas com as universidades para mostrar as oportunidades em portugal

Programas universitários e contacto com grandes empresas

A estratégia está a arrancar com acordos com universidades portuguesas e com estudantes lusodescendentes que se encontram em Portugal, podendo mais tarde evoluir para iniciativas dirigidas a alunos que estudam no estrangeiro. A intenção é que as universidades apresentem aos participantes como é o país hoje e, em simultâneo, os ajudem a construir uma rede de contactos.

A FAP tem já programas no terreno e parcerias com a Católica, a Universidade Nova, a de Évora, a de Trás-os Montes e Alto Douro e a UPTEC, no Porto. Num futuro próximo, deverão juntar-se a Universidade da Beira Interior e o Instituto Superior Técnico.

Os formatos, explica, são adaptáveis: variam na duração, realizam-se em diferentes épocas do ano e combinam várias áreas, como história, sustentabilidade, direito, gestão e inovação e tecnologia. Incluem ainda contacto direto com o tecido empresarial e com grandes empresas, entre as quais a EDP, a Galp e a Embraer.

Fazer-se empresário

O percurso de António Pargana, conta, foi marcado por mudanças e experiências pouco lineares. Filho de um engenheiro, partiu aos 4 anos para Moçambique, onde viveu até aos 8. Diz que aí ganhou o gosto pela vida ao ar livre - sem esquecer “a mordida de um macaco no joelho” - e aprendeu a lidar com realidades culturais distintas, uma aprendizagem que mais tarde lhe seria útil.

Da escola em Lisboa a Luanda: aprender a vender e a ler o risco

“Voltámos para Lisboa e aí estudei no Liceu Camões. Fui colega do António Guterres. O Camões era um liceu onde havia gente muito interessante. O Guterres morava ali no Bairro de São Miguel, os meus pais também, então nós íamos a pé para o liceu. Depois entrei no Instituto Superior Técnico. Entretanto, o meu pai foi para Luanda e a família foi com ele”, relata.

Em Luanda, aos 19 anos, começou por vender enciclopédias porta a porta. Entre momentos melhores e piores, essa fase serviu-lhe para dominar o essencial do comércio e para perceber o impacto das relações cambiais. “Foi uma das experiências mais marcantes na minha vida, aprendi que o teu negócio não depende só de ti, tens de olhar para a política dos Governos e para eventuais problemas de balança de pagamento, por causa das divisas. Isso é importante a negociar com países africanos ou sul-americanos”, recorda. António Pargana é primo direito de Francisco Louçã e Vítor Gaspar, que estudou Gestão na Bélgica.

Com uma vivência internacional que o tornou, nas suas palavras, um cidadão do mundo, diz que ganhou a confiança necessária para os negócios que viria a desenvolver no Brasil. Depois de anos ligados ao comércio de gado na Cotia Trading, avançou para projetos próprios. Em 1994, com Olacyr de Moraes, o maior produtor de soja do mundo, fundou a Cisa Trading, que cresceu até se tornar uma das maiores empresas brasileiras de comércio internacional. O foco principal era a importação de veículos, produtos farmacêuticos e de informática, máquinas e equipamentos, metais não ferrosos e aço, entre outros.

Em 2000, inaugurou a Companhia Portuária de Vila Velha, um terminal portuário de apoio à exploração de petróleo. Foi também cofundador da Companhia Energética de Petrolina e da Quanta Geração, ambas geradoras de energia. Em 2016, estabelece uma parceria com uma empresa norte-americana para o processamento de aço de carbono. Em Portugal, mantém igualmente a TivarInvest, orientada para investimentos imobiliários. “Gosto de fazer negócios, gosto de criar coisas. Sou bom vendedor, mas também sou bom a avaliar o risco e a fazer com que as coisas aconteçam”, descreve.

Aponta ainda exemplos de resultados obtidos a partir do Conselho de Diáspora, que, no seu entendimento, poderão agora encontrar continuidade através da FAP. “Havia um membro da Diáspora que estava à frente do instituto hospitalar, em Houston, de pesquisa de cancro, que fez acordo com o Hospital de Santa Maria e avançaram juntos nessa investigação. Há também um português a partilhar as técnicas de conservação e venda de santolas e caranguejos, usadas em New England, no Algarve, com a santola e o nosso marisco”, detalha.

Não pretende que o Estado assuma o papel de mecenas: “Já tem muita coisa com que se preo­cupar.” Em contrapartida, diz ver com bons olhos a entrada de empresas no esforço da FAP. “Há muitas instituições que poderão alinhar e juntar-se ao processo. Poderão apadrinhar um programa com Évora, outro com Vila Real, outro com Faro, e o negócio vai avançando”, exemplifica.

A fundação tem uma estrutura enxuta: Diogo Feio desempenha as funções de diretor-executivo e o Conselho Consultivo conta com ex-ministros como Pedro Reis, Pedro Siza Vieira, David Justino e Graça Fonseca, além da ex-presidente da Anacom Fátima Barros e Miguel Guedes. Entre as ambições do empresário está a criação do Fórum de Portugal Global e, mais à frente, a expansão do projeto - que começa em Portugal - a outros países.


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