Saltar para o conteúdo

Luís Montenegro: baixar a idade da reforma hoje é cortar pensões amanhã; promete demitir-se

Homem de fato prestando juramento em tribunal com público e objetos sobre a mesa de madeira.

A ideia de antecipar a idade da reforma pode, no entendimento do Governo, abrir caminho a cortes nas pensões no futuro. E, se isso viesse a acontecer, Luís Montenegro - primeiro-ministro e líder do PSD - afirma que apresentaria a demissão. A posição foi reiterada em Anadia, no encerramento do 43.º Congresso do PSD, e foi também usada para explicar por que motivo não cedeu às pretensões do Chega, que acabou por não viabilizar o pacote laboral.

O tom do último discurso de Montenegro tornou ainda mais visível como o chumbo da reforma marcou o conclave. Só numa segunda parte é que o primeiro-ministro se afastou do tema e das críticas dirigidas à Oposição, avançando então com um conjunto de medidas do Governo (ver abaixo), num esforço para sublinhar o que considera ser o carácter "reformista" do partido que sustenta o Executivo.

"As pensões são sagradas. Não aceito e não deixo, a troco de nada, que se faça o que quer que seja que ponha em causa o pagamento das pensões hoje e no futuro", frisou, explicando que pretende "cuidar do bem-estar de quem cá está, mas cuidar também dos vindouros", um princípio que classifica como "inegociável".

Aproveitar potencial

Numa mensagem direta aos portugueses, deixou um aviso: "não se deixem enganar. Baixar a idade das reformas hoje significa cortar pensões amanhã". Trata-se, disse, de uma linha vermelha que não tenciona ultrapassar. E foi ainda mais longe: "No dia em que, por absurdo, tivesse de cortar pensões, demitir-me-ia", reafirmando um compromisso que já assumira anteriormente.

Para Montenegro, o "grande desafio" é converter o "potencial" do país em "prosperidade, em bem-estar e qualidade de vida". É esse o objetivo, pelo que o PSD, acrescentou, não opta pelo "imobilismo" nem pelo cálculo "cínico" de quem escolhe o momento mais conveniente para agir - numa referência ao PS e ao Chega, os dois principais partidos da Oposição.

"O PSD escolheu sempre a responsabilidade da transformação", ao contrário de outras forças partidárias que preferem "a conveniência do momento à responsabilidade do longo prazo". Governar, prosseguiu, é "pensar nas consequências das decisões a curto, a médio e a longo prazo; governar significa proteger o interesse nacional, mesmo quando isso exige não tomar decisões simpáticas no presente, até eventualmente capazes de gerar alguma incompreensão". Ainda assim, defendeu, é preciso avançar com essas decisões pelos "interesses dos portugueses".

O melhor "está para chegar"

O líder do PSD e primeiro-ministro sustentou que o partido "nunca escolheu o imobilismo", mas que "sempre que surge uma reforma para responder aos desafios do futuro, logo aparecem forças políticas disponíveis para a travar". "Por vezes, até, obstinadas em fazer com que tudo fique na mesma".

Na leitura de Montenegro, a realidade é evidente - só não a vê quem não quer. O PSD, disse, "não nasceu para administrar apenas as circunstâncias do momento" nem "para gerir expectativas de curto prazo". "Nasceu para preparar e construir o futuro". É por isso, argumentou, que muitas das medidas propostas visam transformar o país. Porque, para o PSD, o "melhor de Portugal está para chegar".

Medidas para o país

No mesmo discurso, Luís Montenegro enunciou um conjunto de iniciativas do Governo, apresentadas como exemplo do espírito "reformista" que tem defendido e do trabalho que o Executivo diz estar a realizar.

1. Fundo soberano em áreas estratégicas
O Estado passará a deter participações acionistas relevantes em empresas consideradas estratégicas para o desenvolvimento nacional, como energia, banca ou comunicações, "se os concessionários não cumprirem as suas obrigações".

2. Fundo de catástrofes dividido em dois
O fundo terá dois subfundos: um destinado a riscos sísmicos e outro para fenómenos climáticos extremos. A intenção é permitir gerir o impacto financeiro no território, nas infraestruturas e na economia.

3. Investimento na ferrovia
A Linha de Cascais será a primeira a avançar com uma subconcessão. O mesmo modelo será aplicado nas áreas metropolitanas, para incentivar a mobilidade, o transporte público e reforçar a sustentabilidade ambiental.

4. Novo código à contratação pública
Num contexto de tensão com o Tribunal de Contas, a proposta pretende acelerar o investimento e simplificar procedimentos.

5. Reforma administrativa e fiscal
O objetivo passa por evitar que empresas e cidadãos continuem a enfrentar as "demoras intermináveis" que, muitas vezes, surgem na relação com o Estado. Considera-a essencial para captar e reter investimento.

6. Incentivos à Administração Pública
Será criado um regime de incentivos ao desempenho na Função Pública, centrado na valorização do mérito e na obtenção de resultados. A medida visa também atrair jovens altamente qualificados.

7. Reforma orgânica dos ministérios
A próxima etapa, segundo Montenegro, será a reforma orgânica do Ministério da Saúde, que procurará ajustar o enquadramento institucional à visão do Governo, aproveitando a capacidade instalada nos setores público, social e privado.

8. Regime jurídico do arrendamento
Montenegro defendeu que é necessário colocar no mercado todas as casas disponíveis e que, para isso, é preciso garantir "equilíbrio" na relação entre proprietários e inquilinos, de forma a aumentar a oferta para arrendamento.

9. Ferramenta de inteligência artificial
A ferramenta portuguesa Amália "está pronta e será apresentada no próximo mês".

10. Comemorações dos 900 anos de Portugal
As comemorações dos 900 anos de Portugal serão lançadas nas próximas semanas, em Guimarães.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário