A 17 de junho de 2017, em Pedrógão Grande, cinco bombeiros de Castanheira de Pera formaram uma roda à volta de uma família para a resguardar das chamas. Rui Rosinha ficou tão gravemente queimado que a mulher só conseguiu identificá-lo pelos pés. Durante o internamento no Hospital de São João, no Porto, Marina Rodrigues foi chamada "três ou quatro vezes" para se despedir do marido - e para Francisco, então com 9 anos, e António, então com 12, se despedirem do pai. Ainda assim, Marina manteve-se sempre ao lado de Rui, convencida de que ele iria sobreviver. Até ao momento em que entrou em "burnout".
O telefonema chegou às 20.13 horas. Do outro lado, Rui disse: "Eu amo-vos muito". Marina sentiu de imediato que algo estava errado, mas já não conseguiu voltar a falar com ele. Foi ao quartel tentar perceber o que se passava; no entanto, só por volta das 22 horas, quando viu chegar uma ambulância e a tia de Rui - que ali trabalhava - desatar a chorar, percebeu que era com ele. "Fui atrás da ambulância para o centro de saúde e encontrei-o no chão."
"Conheci-o pelos pés. Estava todo preto, não tinha a ponta do nariz, os lábios estavam queimados e os olhos empolados com bolhas", lembra. "Tinha as mãos a pingar e com coisas penduradas. Eram as unhas e a pele", veio a confirmar depois. Marina conta ainda que o filho lhe disse: "pai, estás proibido de morrer". Os bombeiros sofreram queimaduras por radiação do calor libertado pelos rails; o professor Xavier Viegas estima que, naquele momento, estivessem 1200 graus.
Rui Rosinha seguiu helitransportado para a Prelada, onde deu entrada às 6.04 horas e ficou até 28 de junho. Nesse dia, foi transferido para o São João para ser ligado à ECMO, permanecendo ali até 14 de setembro, tendo passado pelas "infeciosas, queimados e plástica". Depois, seguiu para Coimbra, onde esteve até 14 de dezembro. Ao longo desses seis meses, Marina visitou o marido diariamente.
Senha e contrasenha
A primeira semana e meia no São João foi particularmente dura. "Perguntava como estava o Rui, respondiam "está como ontem" e mandavam-me falar com um assessor. Expliquei que não era jornalista, mas a mulher dele, e que tinha o direito de saber. Foi muito perturbador", garante. Só mais tarde estabeleceram um código: "Ligava para lá para saber informações clínicas, dizia que era mulher dele, faziam-me uma pergunta e eu dava-lhes a resposta. A partir daí, as coisas correram bem".
Durante o coma induzido, Marina falava-lhe do que se ia passando em Castanheira de Pera e notava reação: "Enquanto esteve em coma induzido, contava-lhe tudo o que acontecia na Castanheira e o coração reagia", assegura. À sua volta, quase todos repetiam que ele não iria resistir, mas ela não cedeu: "Toda a gente dizia que ele ia morrer, mas eu sabia que ia sobreviver".
Entretanto, deixou de trabalhar e, com os filhos, mudou-se para casa da mãe, que passou a ajudá-la, tal como o irmão e os amigos. E foi aí que percebeu mudanças inesperadas nas pessoas: "Apareceram aqueles que a gente não está à espera e desaparecem os que a gente mais espera", comenta.
Hoje, com 47 anos, Marina carrega um sentimento de culpa por não ter conseguido estar mais presente para os filhos. "Sabia que tinha os miúdos bem entregues, mas sinto que os abandonei um bocadinho. Eles também sofreram muito", explica. "Ainda hoje não gostam de falar do fogo nem do hospital", acrescenta. Houve noites em que lhe telefonaram do hospital a dizer que tinham tido de reanimar Rui; mesmo assim, ela manteve sempre a convicção de que ele melhoraria. "Temos um vínculo muito especial. Começámos a namorar há 30 anos."
Mais à frente, fizeram-lhe uma pergunta que a apanhou de frente: se estava preparada para o marido sobreviver. "Não vai jogar mais à bola nem passear de bicicleta com os miúdos, que não o vão reconhecer." Marina reconhece a mudança: "Hoje, está mais parecido, mas não é a cara do meu Rui", diz, sublinhando, ao mesmo tempo: "Mas ficou muito melhor, fisicamente e a nível estético." Depois de Rui ir para casa da mãe dele, já após ter sido submetido a "mais de 40 cirurgias", Marina ficou a cuidar dele, com o apoio da mãe e do irmão.
Gritos de dor
O que a desgastou mais, recorda, foi o esforço físico acumulado. "O que mais me custou foi o cansaço físico. Não dormia, porque o Rui gritava com dores e com pesadelos. As noites eram horríveis". Ao fim de um ano e meio, voltou ao trabalho, mas o caminho em casa continuou pesado: "Os primeiros quatro anos foram muito complicados. Queria ir para a minha casa. Precisava do meu espaço e não aguentava mais. Tive um burnout. Fiquei de cama, não me conseguia levantar nem comer. Estava exausta."
Entre 12 de janeiro e o fim de março de 2020, Marina diz não se recordar de quase nada. "Depois do burnout, nunca mais fui a mesma", admite. Rui ganhou alguma autonomia desde que começou a conduzir. Na fisioterapia, foi treinado para tarefas simples - como lavar os dentes ou cortar pão -, mas continua a ser Marina a retirar as espinhas mais pequenas do peixe e a dar-lhe banho. "Deixo-o vestido, antes de ir trabalhar. Quando não posso, os meus filhos ajudam-no."
O casal faz brainspotting, uma técnica direcionada ao trauma, nos hospitais da Universidade de Coimbra, e sente "alguma recuperação". Ao mesmo tempo, reconstruíram a vida social com um novo grupo de amigos, com quem convivem e viajam. A organização do quotidiano passou a girar em torno de Rui. Embora conduza, usa o carro apenas para trajetos curtos e, quando as distâncias são pequenas, consegue caminhar apoiado num tripé.
Até ao diabo pediu
No mesmo carro de bombeiros de Rui seguia Fernando, com o filho, Fernando Paulo Tomé, quando foram abalroados na EN 236-1. Tal como Rui, também eles se colocaram fisicamente a proteger uma família - que acabou por sair ilesa. Sem notícias desde as 14 horas, Cecília Tomé, 55 anos, foi aos bombeiros, mas ninguém lhe esclarecia nada. "Até que soube que tinham tido um acidente e estavam no centro de saúde."
Quando lá chegou, o marido estava na ambulância e, mesmo assim, não a deixavam vê-lo. "À terceira tentativa, disse ao meu vizinho: "António, eu vou entrar"", conta. "Quando o vi, pensei que era o fim. A pele das mãos estava pendurada, a cara eram bolhas enormes e ficou todo queimado", descreve. A preocupação de Fernando, naquele momento, foi sobretudo com o irmão deficiente, com quem vivem: "Olha pelo Chico, que eu não volto mais a casa", disse. Cecília respondeu-lhe: "voltas sim".
Fernando Tomé foi helitransportado para o Hospital Santa Maria, em Lisboa, com queimaduras nas pernas, nas mãos e na cara. Ficou dois meses e meio em coma induzido e esteve internado três meses. Mais tarde, passou por dois centros de reabilitação. "O meu filho ficou queimado nas pernas, esteve mês e meio em coma induzido, e internado dois meses. Fez fisioterapia na Santa Casa de Misericórdia."
Cecília lembra períodos de enorme tensão no Santa Maria, quando uma auxiliar lhe pedia para aguardar porque a médica queria falar - e a resposta, por vezes, era apenas: "ainda não". "Foram fases em que o meu marido esteve mais para o outro lado", recorda. "Os órgãos entraram em falência e a medicação não estava a fazer efeito. As médicas diziam: "se tem alguém, peça". E eu respondia: "até ao diabo já pedi"."
Durante o coma, Cecília falava-lhe de tudo e procurava sinais: "No período de coma, falava com ele de tudo. As máquinas disparavam ou ele mexia um dedo do pé. Era muito estimulante, porque era sinal que me tinha ouvido", acredita. E descreve uma rotina esmagadora: "Saía do quarto do meu marido, limpava as lágrimas, respirava fundo e ia ao quarto do meu filho. "Não tinha vida própria. Eu, o meu filho mais novo e a minha nora íamos todos os dias para Lisboa. Vínhamos à noite, passávamos pela instituição para ir buscar o Chico, e não tinha ninguém que me desse um prato de comida. Foi sempre uma luta.""
Quando Fernando Tomé saiu do coma, iniciou uma recuperação do zero: "teve de aprender a comer, a respirar, a falar, a andar" - mas mantinha a memória intacta. Cecília conta que ele se culpava pela morte do Gonçalo [bombeiro]. "Quando estava no Rovisco Pais e vinha aos fins de semana a casa, às vezes, ia dar com ele a chorar", recorda. Apesar de se mostrar resistente, diz que "só Deus sabe as muitas noites que ficou na varanda a olhar para as estrelas. Era para lá que ia descarregar".
Nesse mesmo ano, o filho voltou ao trabalho e o marido regressou ao ativo nos bombeiros em 2019. "Dizia que o bichinho estava lá", conta Cecília. Fernando deixou de ser serralheiro e passou a trabalhar numa empresa de transportes. "Hoje, corre, salta, faz tudo normal, mas há mazelas que vão ficar para a vida".
Para esta família, é algo que ficou para trás; para todos, diz, a vida dividiu-se em dois momentos. "Para eles, é uma situação passada, mas, para todos nós, há um antes e um depois. Não precisamos do 17 de junho para nos lembrar. Vivemos com ele diariamente", sublinha Cecília Tomé. "Há coisas que nos acontecem. Será que foi por alguma razão? Porquê logo dois? Porque me tinha de acontecer a mim? São perguntas que ficam sem resposta".
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