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Pacote laboral 2.0: Tiago Oliveira e a novela política e social

Grupo de pessoas em manifestação na rua com bandeiras vermelhas, cartaz e um homem a falar num megafone.

A primeira temporada e a “reviravolta”

Quem seguiu, ao longo dos últimos 11 meses, a novela política e social iniciada com o anúncio, em julho do ano passado, de mais de cem alterações à legislação laboral, viu na sexta-feira a “reviravolta” que marcou o fecho da primeira temporada. E, enquanto nos bastidores já se ensaiam os próximos capítulos do “pacote laboral 2.0”, acumulam-se críticas ao enredo e à prestação dos intérpretes, reforçando a dúvida sobre onde acaba a ficção e começa a realidade.

Simbolismo sem encenação

Neste limbo perigoso de incerteza - onde a fronteira se torna cada vez mais fina e sufoca o bom senso - há uma evidência que vai ganhando peso, apesar do esforço teimoso e quase desesperante de tantos para a ocultar: o simbolismo vale tanto mais quanto menos for encenado.

Tiago Oliveira, a CGTP e a rua como palco

Num registo em crescendo e, não raras vezes, empurrado para o papel de ator secundário, Tiago Oliveira fez da rua o seu cenário e assumiu-se como rosto da luta dos trabalhadores. Travou batalhas de números, empunhou argumentos e manteve a voz firme perante a arrogância, o desdém e a soberba. Sem ter contracenado no palco principal das negociações - o que, no fim, acabou por expor a escassa influência política -, o secretário-geral da CGTP amplificou as inquietações do Portugal real, tantas vezes longe do radar do Parlamento e do Palácio de São Bento.

Numa temporada que parecia condenada ao fracasso, tal foi a falta de paz social provocada pela rutura da Concertação Social, o mecânico acabou por protagonizar a cena mais forte, tanto no plano simbólico como no da reflexão. Com o pano a descer, perante um resultado agridoce de uma votação inesperada, a emoção de Tiago Oliveira tomou conta dos ecrãs e deu corpo ao que sentiam milhares de espectadores.

Discursos difusos e “lágrimas de crocodilo”

Se algumas figuras se mostram simples e geram empatia, outras teimam em repetir a rábula, apostando em intervenções difusas e caóticas, agressivas e contraditórias. Ora entoam “vitória”, ora se revoltam com a “injustiça”, numa dramatização de herói que “não se verga”. Reivindicam o protagonismo sem saber muito bem porquê, tratam aliados como adversários e pintam adversários como vilões, quando, no essencial, não passam de personagens manhosas e pouco fiáveis.

E há ainda o (outro) protagonista. Diz-se traído e despeja um chorrilho de queixas, ao mesmo tempo que tenta desviar os holofotes para outro lado do palco, sem perceber que repetir o mesmo guião - e levar outros a repeti-lo - não convence uma audiência que já confia pouco nos políticos e está farta de “politiquices”.

Seja qual for o desfecho dos próximos episódios, o argumento terá, inevitavelmente, de mudar. Ver a política reduzida a uma novela mexicana é cansativo, pouco interessante e afasta a audiência que, mesmo sem dominar os bastidores, consegue reconhecer quem verte lágrimas de crocodilo.

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