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O pacote laboral de Luís Montenegro e a aposta em André Ventura e no Chega

Dois homens em fatos apertam as mãos em corredor de prédio oficial com outras pessoas ao fundo.

Um pacote laboral marcado à partida

O pacote laboral já vinha condenado antes de qualquer votação. Mesmo que tivesse sido aprovado, nascia com um selo impossível de apagar: um conjunto de mudanças que, na prática, favorecia os patrões face aos trabalhadores. Numa relação que já tende a ser assimétrica por definição, o desequilíbrio seria ainda mais acentuado. E, ainda que passasse no Parlamento, manter-se-ia inaceitável para uma das partes - alimentando a conflitualidade social - até que, noutro momento de diferentes equilíbrios políticos, acabaria por ser revertido. Era, por isso, um nado-morto.

Luís Montenegro, André Ventura e o Chega como aposta

Entretanto, o que aconteceu transformou esse nado-morto numa espécie de caricatura política. Luís Montenegro sabia desde o início que não contaria com o apoio de nenhuma das centrais sindicais, nem do PS, nem do restante espectro da Esquerda. Ainda assim, decidiu jogar tudo na dependência de André Ventura e da sua claque parlamentar.

E tinha o dever de perceber que o Chega não funciona como um bloco político coerente - e, menos ainda, como um parceiro fiável. É um partido que cresce com o caos, não com a ordem. Prefere o espetáculo à negociação ponderada. Não se apresenta para construir, mas para corroer o pouco que sobra da credibilidade da democracia.

Os derrotados do folhetim e a linguagem agressiva

André Ventura, na verdade, nem pode ser visto como um dos derrotados deste folhetim. Atendendo ao modo corrosivo como faz política, correu-lhe tudo de feição. Quem sai verdadeiramente derrotado é Montenegro (com a ministra Rosário Palma Ramalho e o líder parlamentar Hugo Soares também a pagarem um preço, embora num plano diferente).

E não lhe fica bem recorrer a um registo agressivo e deslocado - o mesmo estilo de linguagem que Ventura converteu em votos e que Passos Coelho, nos últimos tempos, ajudou a normalizar.

PS, oposições e a falsa equivalência

Apontar ao PS uma "estratégica política manhosa" soa mais a despeito do que a diagnóstico político, mesmo admitindo que o PS tenha sido, nesta história, um espectador sem grande influência. A tentativa de Montenegro, na abertura do Congresso do PSD, de estabelecer uma equivalência entre as diferentes oposições é forçada e errada.

Goste-se ou deteste-se o que defendem os restantes partidos com assento parlamentar (IL, PS, PAN, Livre, PCP e BE), nenhum deles se confunde com o Chega. E Montenegro sabe isso melhor do que a maioria dos portugueses. É como comparar a estrada da Beira com a beira da estrada.

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