Há cerca de uma década, a NIO estreou-se no mercado com um registo comunicacional mais contido do que o de muitas marcas chinesas, mas com o ET9 decidiu subir claramente o nível da audácia.
E não havia palco mais adequado para pôr essa abordagem em prática do que o NIO Day, o “concerto” anual em que o protagonista é William Li, presidente do fabricante. Num enorme estádio em Guangzhou, falou sobre o futuro do grupo, agora estruturado em três marcas - NIO, Onvo e Firefly - que prometem igualmente agitar o mercado europeu.
Depois de enumerar várias realizações da empresa, muitas delas com impacto concreto no quotidiano dos clientes, Li passou a dissecar, ao detalhe, os argumentos do grande destaque da noite: o NIO ET9, o novo porta-estandarte do construtor.
As proporções são tão marcantes quanto o desenho: 5,32 m de comprimento, 2,01 m de largura e 3,25 m de distância entre eixos. “O ET9 é uma revolução na indústria automóvel”, garante o líder da NIO, sozinho no palco, apoiado por vídeos que reforçam a mensagem.
Nem uma gota de champanhe desperdiçada
Algumas das imagens exibidas serviram para evidenciar o nível do chassis hidráulico, batizado SkyRide, mostrando que os construtores chineses já não definem apenas a referência na tecnologia de propulsão elétrica.
Num dos exemplos, o ET9 é colocado lado a lado com um Mercedes-Maybach Classe S ao passar pequenas lombas, com a carroçaria do chinês a permanecer imóvel (movem-se apenas as rodas), ao contrário do que se vê no alemão. Noutro, repete-se o exercício com uma pirâmide de taças de champanhe cheias, com quatro e cinco níveis, pousada sobre o capô. Nem uma gota de champanhe foi desperdiçada.
A plateia, composta por 22 mil seguidores chineses da NIO, reagiu como esperado: risos audíveis perante a prestação do automóvel alemão e, logo depois, aplausos em êxtase quando o carro chinês entrou em ação.
Ainda assim, o fundador e atual presidente da NIO guardava mais um momento para a apresentação: a entrada de Herbert Diess, ex-quadro de topo da BMW e ex-CEO da Volkswagen. Diess acrescentou peso e credibilidade à demonstração, validando a capacidade do SkyRide para isolar o habitáculo do ET9 das diferentes imperfeições do piso.
Durante a prova do champanhe, não esconde o espanto: “Isso é impossível”. William Li entrega-lhe então o volante para que seja o próprio Diess a repetir a experiência - desta vez com mais uma taça de champanhe, colocada sozinha no topo da pirâmide. O resultado é o esperado: teste ultrapassado, mesmo com jantes enormes de 23″ - veja o vídeo.
O desempenho do SkyRide, com amortecedores integrados no acionamento elétrico da suspensão ativa, impressiona. Sobretudo num automóvel que deverá ficar perto das 2,5 toneladas - o valor oficial ainda não foi divulgado.
Com um tempo de resposta muito rápido, de 50 milésimas de segundo, o SkyRide assegura ainda um curso de suspensão de 22 cm, com altura ao solo “normal” nos 20 cm - ao nível de um SUV. Para comparação, o chassis hidráulico do Porsche Panamera faz ajustes a cada 200 milésimas de segundos.
O eixo traseiro direcional baixa o diâmetro de viragem para 10,9 m e, mesmo no caso de um pneu rebentar a 170 km/h, o NIO ET9 mantém estabilidade e controlo, segundo os engenheiros chineses. O sistema identifica em menos de 0,3s uma perda de pressão - cerca de 10 vezes mais depressa do que o habitual na indústria - e conjuga o eixo traseiro direcional, a suspensão ativa e a direção by-wire para conservar a trajetória.
Mais de 700 cv e 650 km… na China
Na motorização, o NIO ET9 usa dois motores elétricos (um em cada eixo), totalizando 520 kW, ou seja, 707 cv (180 kW/245 cv à frente e 340 kW/462 cv atrás) e 700 Nm de binário. Este conjunto permite a esta grande berlina chegar aos 100 km/h em 4,3s.
O ET9 pode receber baterias com duas capacidades: 120 kWh (112 kWh utilizáveis) e 100 kWh (95,8 kWh utilizáveis). A autonomia máxima anunciada é de 650 km, com jantes de 22″, mas convém lembrar que o valor é medido no ciclo chinês de homologação (CLTC), tipicamente mais otimista do que o WLTP usado deste lado do mundo.
A plataforma NT 3.0 deste elétrico de luxo, desenvolvida internamente pela NIO, recorre a uma arquitetura de 900 V (até 925 V, para ser mais exato), abrindo a porta a carregamentos até 600 kW.
Com a bateria maior, é possível adicionar energia para 255 km em cinco minutos ou passar de 10% a 80% em cerca de 15 minutos. Já a bateria de 100 kWh atinge um pico de carregamento de 325 kW, o que se traduz em aproximadamente 20 minutos para ir de 10% a 80%.
Ou então, naturalmente, nos países em que existirem, podem ser utilizadas as estações de troca de bateria: a nova geração consegue substituir uma bateria vazia por outra cheia em três minutos.
Primeira classe
Para que viagens tão longas sejam feitas com o máximo conforto, o NIO ET9 foi pensado como um verdadeiro espaço de primeira classe.
Para aplicar o couro na posição certa nos bancos de luxo são necessários 200 mil pontos de costura. Cada poltrona executiva da segunda fila (58,2 cm de largura) disponibiliza uma área de dois metros quadrados e recorre a 14 camadas de esponja, além de incluir um elaborado sistema de massagem de 16 pontos com efeito de pedras quentes.
No ET9, quem segue atrás é claramente o mais mimado. A posição da cabeça fica junto ao pilar traseiro - como num Rolls-Royce - e existe ainda um botão VIP. Ao ser pressionado, a zona traseira transforma-se num quarto sobre rodas, escurecido por sete cortinas elétricas.
Somam-se dois ecrãs fixos de 14,5″ nas costas dos bancos dianteiros. E, para o ambiente a bordo, há um sistema de cancelamento de ruído para uma viagem em silêncio absoluto ou, em alternativa, 35 altifalantes distribuídos pela cabine, oito deles integrados nos encostos de cabeça, num total de 2800 W de potência sonora. Tudo acompanhado por iluminação ambiente a condizer.
Mais regalias? Para facilitar entradas e saídas, a suspensão baixa o carro em 50 mm e as portas de grandes dimensões abrem e fecham sem necessidade de empurrar ou puxar. Existe um frigorífico de 10 litros, capaz de arrefecer bebidas até aos dois graus negativos, e um pequeno cofre entre os assentos para guardar objetos de valor.
Na frente, o painel é atravessado por uma faixa de 48″ (com alta definição 5K), há um ecrã tátil de 15,6″ como centro de comando e um head-up display com realidade aumentada apoia a orientação do condutor.
Quase autónomo
A NIO aproveitou o ET9 para concentrar a tecnologia mais recente em assistência à condução e condução autónoma. O modelo vem com 31 sensores e inclui três unidades LiDAR: uma no tejadilho e duas na zona frontal esquerda e direita do tejadilho, responsáveis por ler tudo o que rodeia o automóvel.
Serão decisivas nas funções de condução autónoma para as quais o ET9 está preparado. A NIO parece mesmo ter antecipado um cenário em que o carro-robô se torna realidade - em condução pilotada, o volante recua 13,5 cm para libertar espaço para o condutor… que passa a ser mais um passageiro.
Primeira edição esgotou em 12 horas
Na China, as primeiras entregas do NIO ET9 deverão arrancar em março de 2025. Os preços começam em torno dos 103 mil euros, podendo descer para os 87 mil euros se o cliente optar pelo aluguer da bateria.
Durante a apresentação, a NIO abriu as encomendas do ET9 Limited Edition, uma primeira série especial e limitada a 999 unidades do topo de gama, por 107 500 euros. Nem isso impediu que as 999 unidades ficassem reservadas em apenas 12 horas.
Para responder à procura, a NIO avançou rapidamente com uma segunda série especial (ao que tudo indica, sem limite de unidades), chamada Signature Edition, com preço ligeiramente mais baixo, mas igualmente com detalhes exclusivos.
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