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José Paiva Capucho e Hugo van der Ding avaliam O Papel, derivado de O Escritório, no No Último Episódio

Homem sorridente a gravar vídeo com câmara numa redação de jornal, rodeado por colegas a trabalhar.

O impacto de “O Escritório” desde 2005

Há coisas que não cabem bem em palavras sobre o que “O Escritório” significou quando chegou, em 2005. Michael Scott - interpretado por Ricky Gervais na versão britânica e por Steve Carell na versão norte-americana, que se prolongou por mais temporadas - e o grupo fechado na Dunder Mifflin, empresa de papel e material de escritório, acabaram por marcar a televisão de forma definitiva. Uma das comédias mais bem escritas de sempre traçou um retrato certeiro da classe trabalhadora norte-americana no pós-11 de setembro. E, quando terminou, deixou um vazio: aquela empatia trapalhona, vista à distância, ficou a fazer falta no pequeno ecrã.

“O Papel”: o derivado que troca Scranton por Toledo

Duas décadas depois, aparece o derivado “O Papel”. Scranton sai de cena e Toledo entra no mapa: é através do jornal local Toledo Porta-Verdade que regressa uma parte da nostalgia “officeiana”, com a câmara de falso documentário sempre levantada.

Aqui seguimos o quotidiano de “jornalistas” voluntários, sem qualquer experiência, numa casa que tanto comercializa papel de jornal como papel higiénico. À frente do grupo está Ned Sampson (Domhnall Gleeson), ele próprio um nostálgico - mas da antiga ética do jornalismo.

Para perceber se “O Papel” honra o legado de “O Escritório” ou se teria sido melhor nunca passar da ideia, o crítico de cinema e televisão José Paiva Capucho convidou o comediante, escritor, autor e radialista Hugo van der Ding. O resultado é mais um episódio de “No Último Episódio” para ouvir.

Personagens e humor: entre o tempo cómico e a previsibilidade

“‘A série surpreende até certo ponto. São episódios curtos, nota-se que os actores gostam de interpretar aquelas personagens apesar de serem bidimensionais. É divertida de ver. Até porque, no meu caso, para histórias mais densas, para me deixar pela imaginação, prefiro ler’, começa por dizer Hugo van der Ding.”

Mesmo quando parecem demasiado óbvias, as personagens funcionam pelo tempo cómico. Esmeralda Grande (Sabrina Impacciatore, de “O Lótus Branco”), por exemplo, assume o papel de “vilã” com um registo que faz lembrar “novelas brasileiras”, e vai infernizar a vida de Ned Sampson. Já Ken Davies (Tim Key) é o patrão “à Michael Scott”: sempre em esforço, sempre a levar-se muito a sério - mesmo quando isso o torna ridículo. E há ainda Oscar Martinez (Oscar Nuñez), o contabilista de “O Escritório” e, até ao momento, o único regresso confirmado do elenco original.

Uma crítica aos media tradicionais sem cair no moralismo

Entre a saída de um novo livro (“Uma Família Surreal”), programas de áudio e teatro, van der Ding diz ter pouco tempo para séries. Por isso, agradou-lhe que “O Papel” não exigisse um compromisso televisivo demasiado pesado.

Apesar disso, o derivado faz uma crítica afiada - sem moralismos - ao estado actual dos media tradicionais: as iscas de cliques, a forma como se trabalham as fontes, a corrida agressiva entre blogues, sítios noticiosos e outras plataformas. “Eles estão num jornal sem jornalistas que usam artigos comprados. No mundo real todos os jornais fazem clickbait, não censuro, porque é preciso fazer dinheiro. Agora, a série faz essa crítica. Custa-me é dizer que os jornais são só isso”.

E, em “O Papel”, a redacção não se resume a isso. Pelo meio há histórias de colchões, esquemas com identidades falsas e reuniões de orçamento que mal passam dos dez minutos.

E, acima de tudo, fica uma crença quase desmedida de que ainda dá para fazer bom jornalismo. “O novo chefe, o Ned Sampson, é um bocadinho como nós, não é? Alguém no caos absoluto a tentar segurar as pontas”, defende van der Ding.

Ainda assim, o comediante considera que a base do humor não é a que este tipo de séries - ou outras vindas dos Estados Unidos da América - costuma oferecer. “Nós somos filhos dos Monty Python ou de programas como ‘Absolutamente Famoso’, que adorava ver. Quando passamos para os risos enlatados, para o humor americano, fica-se com a sensação de que já conseguias antever o que ia acontecer. Era para rir, mas não surpreendia”. E, como lembra, o melhor do humor é “ver a idosa a dar um pontapé num polícia de dois metros”. Acontece em “O Papel”? Terá de ligar a SkyShowtime para descobrir.

Quantas vezes já quis saber mais sobre “aquele” último episódio? Encontrar respostas que, em vez de fechar o assunto, abrem novas perguntas e só o deixam a pensar quando é que estreia o próximo capítulo?

Em “No Último Episódio”, José Paiva Capucho não promete sossegar fãs de séries - aparece é para se juntar à festa.

Traz histórias de bastidores, o confronto entre críticas do público e críticas dos críticos, e análises de cenas.

Tudo isto num programa de áudio dedicado ao melhor da televisão nacional e internacional do ano.

‘No Último Episódio’ chega todas as sextas-feiras no Expresso e em todas as plataformas de programas de áudio. Ouça aqui a antevisão da segunda temporada.

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