Às vezes é preciso fitar a paragem de autocarro com tempo para perceber de onde veio o comboio. Em Milagres, porém, para Lígia Sousa, trabalhadora da Junta de freguesia, olhar não basta - há que registar o estrago em fotografia, encaminhá-lo para a Câmara Municipal e aguardar. Não é novidade. Três meses depois do comboio de tempestades que redesenhou a paisagem de Leiria, e muito para lá disso, a espera virou rotina. Há quem continue à espera de apoio, à espera do seguro, à espera do regresso da televisão, do telefone, de uma ligação à internet. A 28 de janeiro de 2026, o mundo de quem vive dentro do pinhal ficou de pernas para o ar.
Esperar, fotografar, comunicar
O café central da vila está encostado ao que sobrou da paragem de autocarro e dá para o Santuário do Senhor Jesus dos Milagres, que domina o lugar. Esta terça-feira, por volta das três da tarde, quase não há movimento. Marta Marques vai servindo um ou dois cafés e soma lamentos: desde janeiro, muitos clientes foram deixando no balcão uma sequência de perdas - “alguns perderam tudo o que tinham”.
Numa mesa, duas amigas calculam a distância até Lisboa, onde está “quem manda”. A sensação é de abandono. “Já ninguém quer saber de nós. As promessas são tão leves que nem asas têm, sabe? Se fosse na Avenida de Roma, pode ter a certeza de que já estava tudo resolvido”, atira Alzira José, enquanto menciona a casa dos cunhados, que terá ficado sem teto. Ao lado, Élia Santos fala da oficina da família, em Marrazes, ali perto, que ficou destruída. “Falta-nos tudo aqui”, diz, a olhar pela janela para o largo amplo, com dois coretos e um poço antigo.
À entrada do santuário, no topo de 15 degraus, duas placas na parede recordam os filhos da terra que combateram na Grande Guerra, uma de cada lado da porta (e, lá dentro, junto ao altar, aguenta-se um mistério mais antigo). À esquerda estão os “mártires”, os três que não regressaram. Na outra placa alinham-se 16 nomes: um Francisco, por exemplo, um Amadeu, quatro António, oito Manuel e outros tantos José. Entre eles, um José S. Carpalhoso.
O pinhal entre Milagres e Souto da Carpalhosa
Avancemos. De Milagres a Souto da Carpalhosa a distância é curta: oito quilómetros, por duas estradas municipais que, com sorte, se fazem em dez minutos sem cruzar um único carro. Ainda assim, o percurso mostra o retrato de uma região esmagada. Não se trata só das árvores partidas e derrubadas, dos troncos arrancados sem copa nem ramos, ou dos eucaliptos vergados como se se virassem de costas ao mar, numa vénia de quem espera o sol nascer a leste. O que desconcerta é também o castanho estranho onde se esperaria verde. A mesma cor segue pelas nacionais e chega às bermas da autoestrada. A tragédia, repetida, cria monotonia: há mais árvores no chão do que palavras para as enumerar.
Nesse caminho curto, já perto da Charneca do Nicho, o parque de merendas, no coração da mata nacional, parece perder outra guerra - a do lixo, que se acumula na berma. Telhas, telhados, cimento, tijolos, sofás. “Cresce todos os dias”, avisa Horácio Santos, o mais velho de dois irmãos que carregam um camião de madeira cortada, com Souto da Carpalhosa quase à vista. Alcino, o mais novo, percorre a paisagem com os olhos e não tem dúvidas: “Vão ser precisos anos para limpar tudo isto. Anos. Escreva isso. Está tudo destruído, daqui até à Marinha Grande”, diz.
Segundo a Câmara Municipal de Leiria, a destruição atingiu mais de 10 mil hectares de floresta, o equivalente a cerca de 8 milhões de árvores tombadas. Alcino encadeia o receio com a urgência: “Se vem o fogo, vai ser uma tragédia. Se fosse eu a mandar, proibia o abate de árvores a norte e a sul e trazia todos os madeireiros para aqui. E mesmo assim era pouco”, defende. Horácio acompanha a ideia e aponta para a tonalidade do eucaliptal: “Está a ver a cor dos eucaliptos? Aquele castanho é da maresia. O ar do mar, que o pinhal segurava, agora vem todo por aí fora e parece que queima as árvores.”
Meia dúzia de cabras vai pastando junto à estrada, enquadradas por esta paisagem fora do sítio. E a estranheza continua. Quando o problema é grande, as pequenas coisas ficam minúsculas: sinais de trânsito partidos ou torcidos, postes caídos, a relva a tomar conta das bermas e dos passeios. Em qualquer freguesia do distrito - da castigada Vieira de Leiria, encostada ao mar, à visigótica Abiul, que se diz berço da mais antiga praça de touros portuguesa, ali num vale ao sopé da serra de Sicó, não muito longe de Pombal - repete-se a mesma imagem: há sempre alguém de pé no cimo de um telhado. Há lonas pretas a tapar coberturas. Há buracos abertos no alto das casas. E há situações em que, passados 100 dias da tempestade “Kristin”, locomotiva do comboio meteorológico destruidor, nem sequer existe telhado.
Souto da Carpalhosa: telhados que não voltaram
O caso de Filomena César, logo à entrada de Souto da Carpalhosa, ainda traz mais camadas. É também uma terra associada a José Braz Arroteia (1795-1880), o “Gigante do Souto”, homem enorme e exímio no jogo do pau; conta-se que chegou a ensinar a lutar o rei D. Miguel I, para uns o Usurpador e para outros o Absolutista. No que toca a Filomena, absoluto é mesmo o problema.
A versão curta soa assim: uma madrugada de ruído, estrondo e medo; depois, a manhã a revelar a destruição; a casa sem telhado; mais receio; quase duas semanas a dormir no pavilhão municipal; e agora a mulher à porta desse pavilhão, instalada numa de três casas pré-fabricadas. “Estamos à espera, mas não sabemos até quando”, diz quem regressara a Portugal a 11 de novembro, após três décadas na Suíça. O marido, comovido, recolhe-se ao interior. Um cão pequeno atravessa de um lado para o outro a urbanização improvisada, que Filomena, à terceira tentativa, aceita baptizar de Bairro da Tempestade.
A monotonia da tragédia é que há mais árvores caídas do que palavras para as descrever
Pelas terras do pinhal ainda há quem se recorde de outra tempestade, a de 1941, que em nada ficou atrás da “Kristin”. Mas, para a maioria, as referências mais próximas são outras, igualmente duras. “O pinhal que sobreviveu aos incêndios de 2017 acabou por ir agora”, lamenta o presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande. O autarca, Paulo Vicente, sublinha o impacto íntimo: “Desta vez foi mais assustador, muito mais, tocou-nos no íntimo, nas nossas casas”, garante.
Para já, a prioridade é limpar os caminhos florestais e preparar as praias. E, ao mesmo tempo, lidar com um incómodo físico atribuído ao ar que vem do mar. “Não tenha dúvidas de que sentimos no corpo a falta das árvores”, diz, insistindo na “resiliência” local. “Não será fácil, mas não baixamos os braços.”
Do alto do Santuário do Senhor Jesus dos Milagres, memórias e datas
Para quem está lá em cima, junto ao sino do Santuário do Bom Jesus dos Milagres, a olhar em volta, a Marinha Grande ficará algures para a direita, em frente, na direcção do mar. Para abarcar a dimensão do que aconteceu ao pinhal, o reitor do santuário, padre Virgílio Francisco, sobe os degraus de pedra gastos por séculos de passos, contorna lonas estendidas no chão e passa ao lado de uma estrutura que sustém o telhado - um dos vários pináculos arrancados caiu ali por cima; os restantes, tal como o relógio e uma série de telhas, foram parar a meio da rua.
A partir dali, fala do que continua por resolver. “Sabe, há muita gente que ainda sofre. Sente-se o desespero de quem não tem respostas. Há gente que persiste, que todos os dias luta, mas também há, principalmente os mais velhos, quem já tenha desistido. Gente que perdeu tudo.”
A história conta que, em 1728, um mendigo chamado Manuel Francisco Mayo, paralítico da cintura para baixo, perdeu a peça de cortiça com que se deslocava e ficou ali, a pedir ao Senhor Jesus de Aveiro que o ajudasse, até adormecer. Quando acordou, diz-se, estava curado e passou a dedicar-se à construção do santuário naquele lugar, chegando a sofrer dois acidentes que, segundo a tradição, só não foram fatais “por graça de Deus”. E, apesar disso, não desistiu. Com o tempo, as curas e milagres atribuídos ao Senhor Jesus foram atraindo gente de toda a parte. “Estamos já a preparar o tricentenário”, explica o padre Virgílio, seja ele quando for.
Aqui mora o mistério do santuário. Um painel de azulejos, à direita do altar, assegura que o milagre aconteceu em 1728. Já um documento da época, emoldurado na parede à esquerda, garante que foi em 1729.
Mas há um outro número a pairar sobre a freguesia. Passará o verão e as festas; virá o Natal e o ano novo; depois, um novo inverno. Talvez se estendam cinco anos, dez anos. E, num dia qualquer, alguém há-de caminhar pela Rua do Brejo, que começa nas traseiras do santuário, e encontrará uma árvore partida onde, entre os anéis que denunciam a idade, crescem sete algarismos em ferro dourado. É em Milagres, sim, mas não é um milagre. É uma lembrança: o dia, o mês e o ano que o cunhado de Alzira, a senhora do café, mandou cravar naquela madeira para nunca mais esquecer a data em que o céu lhe levou o telhado. 28-1-2026.
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