Israel volta a atingir Beirute após o cessar-fogo de 16 de abril
Israel voltou a bombardear a capital do Líbano na quarta-feira, no primeiro ataque em Beirute desde o anúncio do cessar-fogo - negociado entre os dois países com mediação dos Estados Unidos - na noite de 16 de abril. O Expresso esteve na zona poucas horas antes de esta ser atingida.
A ofensiva ocorreu no subúrbio sul de Beirute, no bairro de Haret Hreik, perto do Hospital Bahman. Segundo a agência nacional de notícias libanesa, Israel terá disparado três mísseis a partir de um navio de guerra.
O Exército israelita indicou como alvo Malek Ballout, comandante de elite da Força Radwan do Hezbollah, embora a informação não tenha sido oficialmente confirmada por nenhuma das partes.
De acordo com a comunicação social israelita, o ataque foi executado em coordenação com os Estados Unidos.
Deslocados em Beirute: abrigos, tendas e casas inabitáveis
As consequências para quem foi obrigado a abandonar a sua casa notam-se um pouco por toda a capital. São milhares as pessoas instaladas em abrigos públicos ou em tendas improvisadas nas ruas de Beirute e noutras cidades. Entre elas está o libanês Bilal Hijazi, que, neste momento, divide uma sala na Universidade Libanesa com a esposa, dois filhos e mais seis famílias.
Mesmo depois do cessar-fogo, Bilal continua sem conseguir regressar à sua casa, na zona de Dahieh, porque a área não tem condições de habitabilidade. A região ficou completamente arrasada: não há água nem eletricidade, e muitas vias continuam bloqueadas por escombros.
No ataque de quarta-feira, Bilal encontrava-se muito perto do local, mas conseguiu afastar-se a tempo, após ter ficado retido durante horas no trânsito.
“Eu tenho regressado a minha casa, em Dahieh, todos os dias de manhã e volto ao final da tarde. O meu prédio ainda está de pé, mas muitos outros na minha rua foram alvo de explosões já em 2024. Como vivemos no oitavo andar, ainda não nos sentimos seguros para voltar, pois o edifício não tem elevador. A minha família dorme na sala da universidade, e eu fico aqui no meu carro, sempre em alerta.”
Em dois meses de conflito, o Exército israelita matou mais de 2700 pessoas em todo o país e feriu outras 8438. Milhares das vítimas eram civis sem ligação ao movimento xiita Hezbollah, e mais de 170 eram crianças.
Um mar de escombros
Horas antes do ataque israelita à capital libanesa, o Expresso esteve em Dahieh, uma zona que tem sido repetidamente bombardeada desde julho de 2024. Um relatório das Nações Unidas aponta para várias violações do cessar-fogo celebrado em novembro desse ano por parte do Exército israelita.
No bairro de Haret Hreik, visitámos o pavilhão onde o ex-secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah - morto em 2024 -, costumava discursar nas suas aparições públicas. A estrutura de grandes dimensões foi transformada num amontoado de ferro queimado e retorcido.
Ao longo do percurso, deparámo-nos com inúmeros edifícios residenciais e comerciais destruídos, além de ruas e avenidas cobertas de vidros partidos e fragmentos de cimento. As infraestruturas estão gravemente afetadas e há quem continue impedido de regressar por falta de eletricidade, água ou internet.
Ainda assim, alguns moradores vão tentando reerguer casas e lojas - um processo difícil, uma vez que Israel nunca deixou de bombardear a área. Entre os destroços, encontrámos Karim Zein, natural do sul do Líbano, que descreveu ao Expresso como foi obrigado a abandonar o bairro onde vivia.
“Fui forçado a sair porque o nosso prédio foi atingido e desabou. Um inimigo brutal, usurpador e criminoso bombardeou-o.” Diz que entende a destruição da sua casa como “um sacrifício pela resistência” contra o invasor. “Como podem ver, o nosso prédio era uma construção civil comum. O inimigo está a atacar alvos sem sentido”, afirmou, enquanto mostrava o local bombardeado onde vivia.
Resistência
Ammar Badran, de 18 anos, também residente no subúrbio sul da capital, contou ao Expresso que a sua casa ruiu. “Mas nada disto se compara com as mães dos mártires que estão a sacrificar os seus filhos para defenderem a nossa terra”, disse.
Naquele bairro, não é fácil encontrar alguém que não apoie o partido, que, além do braço armado, tem representação parlamentar e ministros de Estado.
Confrontado com a hipótese de um acordo de paz com Israel, Ammar criticou o caminho seguido pelo Governo libanês, que tem apostado na via negocial, enquanto Israel continua, segundo ele, a matar mulheres, crianças, profissionais de saúde e jornalistas. Para Ammar, esta abordagem equivale a uma rendição. “Por isso, temos dito que qualquer um que nos queira atacar, atacar a nossa resistência receberá a mesma resposta que tem sido dada ao inimigo israelita.”
Antes de nos despedirmos, Karim perguntou se podia deixar uma mensagem de apoio a Naim Qassem, o atual secretário-geral do Hezbollah. “Não se preocupe connosco. Somos fortes e resilientes. Estamos consigo, não importa o que aconteça. Mesmo que todos morramos pela resistência, não entregaremos as nossas armas.”
Esta sexta-feira, o Presidente libanês, Joseph Aoun, reuniu-se com uma delegação da União Europeia - que incluía a comissária para a Igualdade e Preparação e Gestão de Crises, Hadja Lahbib - para pedir aos países europeus que façam pressão no sentido de Israel respeitar o cessar-fogo estabelecido em 16 de abril.
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