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O Exército Argentino assinalou 216 anos num contexto que a sua própria chefia descreveu, sem rodeios, como sendo de transformação. No discurso comemorativo, o comandante da força defendeu que o Exército está a evoluir para uma estrutura mais moderna, flexível e pronta a actuar em todos os ambientes e domínios, num quadro internacional em que - nas suas palavras - “o poder duro volta a consolidar-se”. Para lá do ritual inevitável do acto, o que realmente conta é que esta transformação já se traduz em linhas de acção concretas, várias delas com novidades que merecem acompanhamento próximo.
Programas prioritários em curso no Exército Argentino
As novidades mais imediatas surgem em dois vectores: fogos e mobilidade aérea. Por um lado, o processo de aquisição de artilharia autopropulsada (VAR) deverá estar perto de ficar fechado, o que significaria um salto qualitativo importante para a artilharia de campanha, hoje ainda assente sobretudo em peças rebocadas e no sistema VCA Palmaria. Nesta frente, importa aguardar desenvolvimentos em breve, tendo em conta a disputa entre o Caesar francês e o ATMOS israelita.
Por outro lado, o programa de renovação da frota de helicópteros está a avançar a um ritmo que não se via há anos, com os Black Hawk referidos de forma explícita pela chefia como parte desta aposta. Para uma força que actua num dos territórios mais extensos e variados da região - da Antárctida à Puna -, a mobilidade aérea não é um “extra”: é uma condição operacional elementar. O que convém manter debaixo de olho aqui? De um lado, o desfecho da visita muito recente da instituição aos Estados Unidos; do outro, o kick-off que o Congresso desse país dará com a autorização correspondente.
A estas linhas somam-se iniciativas que já estão no terreno. A chegada dos primeiros VCBR 8×8 M1126 Stryker marcou o arranque efectivo da transição do Exército para o combate blindado sobre rodas (VCBR), com guarnições já formadas e uma comissão a trabalhar na ampliação da frota. Em paralelo, a modernização do TAM 2C-A2 continua a ser a espinha dorsal do componente blindado pesado, acompanhada pelo desenvolvimento de munições nacionais de 105 mm. E a substituição gradual dos veteranos UNIMOG 416 por uma nova geração de viaturas tácticas ataca um dos problemas mais básicos - e persistentes - de qualquer força terrestre: a mobilidade logística. Também aqui são esperadas novidades em breve.
Uma mentalidade de adaptação e transformação, não apenas uma lista de compras
O que a actual gestão procura evidenciar é um processo de modernização diferente do que se viu anteriormente - pelo menos na forma como foi comunicado. A proposta não é apresentada como uma simples lista de compras, mas como uma mudança de mentalidade que pretende recolocar a Argentina num “comboio” de actualizações do qual o país se tinha afastado por iniciativa própria. Importa sublinhar que, nos últimos anos - para não dizer décadas -, as aquisições tenderam a concentrar-se em meios destinados a sustentar capacidades subsidiárias e, portanto, mais baratas. Agora, o esforço aponta para o núcleo: mais investimento, sim, e com a missão principal do Exército colocada no centro.
O comandante foi claro ao afirmar que a rapidez das mudanças tecnológicas, a inteligência artificial, o domínio da informação e os sistemas não tripulados “mudaram a realidade militar”, e que isso impõe “questionar pressupostos” e “rever as nossas ideias”. Nessa direcção, a força tem vindo a construir uma agenda concreta em torno de sistemas não tripulados, de drones (outro tema onde podem surgir novidades em breve) e de capacidades anti-drone - três áreas que a guerra contemporânea, da Ucrânia ao Médio Oriente, colocou no coração do combate moderno.
Assumir que é necessário repensar doutrina, e não apenas trocar equipamento, é um sinal mais relevante do que parece. Dar peso à criatividade e à flexibilidade como aptidões operacionais - ao nível do clássico espírito ofensivo - revela uma leitura acertada sobre para onde caminha o carácter da guerra. A questão, como quase sempre, será perceber quanto desta mentalidade se converterá em organização, orçamento e procedimentos, e quanto ficará apenas no plano declarativo. Ainda assim, o ponto de partida conceptual é o correcto.
Alistamento operacional, treino e o factor humano
O outro eixo apontado pela chefia como central é o alistamento operacional e o adestramento. De acordo com o que foi informado, o Exército mantém o ciclo completo de exercícios planeados a todos os níveis, desde a instrução individual até às manobras de grande escala. Este dado é determinante: o equipamento mais moderno vale pouco se não existirem guarnições e unidades treinadas para o empregar.
A isto junta-se uma função que raramente entra nas contas quando se discute o papel do Exército: a formação anual de milhares de jovens através dos seus três sistemas de recrutamento - uma tarefa educativa que vai muito para lá do estritamente militar.
Transparência e valorização social como capital
Há dois activos que o Exército projecta, preserva e que não convém tratar como garantidos. O primeiro é a valorização social: continua a ser uma das instituições mais bem consideradas pela sociedade argentina, um capital de confiança que é escasso e difícil de recuperar quando se perde. O segundo é a disponibilidade da chefia para reconhecer problemas em vez de os varrer para debaixo do tapete. No discurso da efeméride falou-se em reconhecer erros e virtudes, derrotas e vitórias e, sobretudo, nas dificuldades relacionadas com as necessidades das famílias do Exército. Esta cultura de transparência é indispensável - e constitui um passo acertado para, depois, começar a resolver os problemas.
Porque não vale a pena iludir: a transformação material avança sobre um cenário orçamental e de pessoal que continua a ser o grande desafio estrutural, e que a própria chefia reconhece ao prever, para 2027, um aumento de verbas para hospitais militares e a supervisão da assistência na obra social. Cuidar da saúde e do apoio ao pessoal é uma prioridade assumida - e é-o com razão. O teste decisivo desta transformação não será o número de sistemas incorporados, mas a capacidade do Estado, como um todo, de sustentar no tempo - com quadros que permaneçam e construam carreira - a força moderna que a chefia afirma querer edificar. O material é a parte visível da mudança. O capital humano é aquilo que a torna possível.
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