As unidades públicas de saúde estão a prestar menos cuidados aos utentes - e, quando os prestam, estão a demorar mais. A informação oficial de fevereiro indica um agravamento marcado do estado do Serviço Nacional de Saúde (SNS) face ao mesmo mês do ano anterior: 82% dos hospitais realizaram menos consultas, 87% reduziram os primeiros atendimentos e 72% fizeram menos cirurgias programadas do que no ano passado, aprofundando o corte na assistência que já vinha a acentuar-se desde 2024.
SNS: consultas e primeiras consultas em queda
A leitura global dos primeiros dois meses do ano, comparando com os dois anos anteriores, é clara: com o atual Governo, o SNS entrou em “estado crítico”. De acordo com o “Painel do SNS - fevereiro 2026”, os cuidados de saúde primários totalizam 5,64 milhões de consultas no acumulado dos dois primeiros meses, menos 6,1% do que em 2025 e menos 5,9% do que em 2024 (ver gráficos).
Nos hospitais, o retrato é ligeiramente menos negativo. Em fevereiro, os especialistas asseguraram 2,42 milhões de atendimentos, 3,8% abaixo do ano passado, ainda que 0,5% acima de 2024. Já nas primeiras consultas hospitalares, o recuo é mais acentuado: 650.288, menos 7,3% e menos 4,7%, respetivamente.
Entre as unidades locais de saúde (ULS) com maior diminuição de consultas de especialidade hospitalar surge Loures-Odivelas. Em termos homólogos, foram feitas menos 13.329 consultas (menos 30,4%). Nas primeiras consultas hospitalares, a redução foi de 27,7%. Ao Expresso, a administração atribui os números ao facto de “os dados atualmente refletidos no Portal da Transparência terem sido influenciados pela alteração de sistemas de informação hospitalares e das várias aplicações satélite, o que criou dificuldades no registo e contabilização da atividade assistencial”. E acrescenta: “em vários momentos, foi necessário recorrer a planos de contingência e a registos em papel, pelo que parte da atividade realizada pode não estar ainda totalmente refletida nos dados reportados”.
Cirurgias programadas e listas de espera no SNS
Na produção cirúrgica programada, a ULS Médio Ave é a que mais se destaca pela negativa, com menos 35,4% do que tinha realizado em 2025. No entanto, em volume absoluto de operações não realizadas, o pior registo é do Santa Maria, o maior hospital de Lisboa: menos 2846 cirurgias do que no ano anterior, um corte de 31,6%.
Mesmo nas intervenções em ambulatório, Santa Maria aparece entre os piores desempenhos, com menos 2033 procedimentos (31,2% abaixo). Em percentagem, só fica atrás das ULS Médio Tejo, Arco Ribeirinho (Barreiro-Montijo) e Médio Ave, por ordem crescente.
O desempenho fraco de um dos maiores hospitais do país já vinha a ser sinalizado. No Santa Maria, de 2024 para 2026, as cirurgias programadas desceram 27,5% e as consultas 2,4%. Aliás, quando comparado com unidades equivalentes, como São José (Lisboa), São João (Porto) e Coimbra, é o que garante menos cuidados, quer cirúrgicos quer em consultas. A administração optou por não justificar as razões.
Ainda no universo hospitalar, os doentes que necessitam de cirurgia estão, este ano, mais penalizados. As intervenções programadas passaram de 133.349 em 2024 e de 140.833 no ano passado para 130.439 em fevereiro deste ano. E, do lado do acesso, os tempos de espera agravaram-se. O número de inscritos para cirurgia subiu para 273.871 - mais 1,4% face a 2025 e 2,6% face a 2024 - e a permanência na lista é hoje mais longa. Ao todo, 84.593 doentes já ultrapassam o tempo considerado clinicamente indicado, traduzindo um agravamento severo deste indicador, já que em fevereiro dos dois anos anteriores o valor foi de 73.486 (menos 15%) e 75.824 (menos 11,6%).
Mais profissionais e mais custos, mas menos atividade
A quebra na assistência contrasta com o facto de o SNS contar agora com mais profissionais e com mais trabalho extraordinário. Os recursos humanos somam 157.094 pessoas, 2,3% acima de 2025 e 4,1% acima de 2024. Existem 22.122 médicos e 52.989 enfermeiros, ambos com mais 2,4% do que no ano passado.
Ainda assim, as horas extraordinárias aumentaram, com destaque para o trabalho noturno. O custo ascendeu a €2,10 milhões, face a €1,94 milhões e €1,91 milhões nos anos anteriores. Feitas as contas, o SNS ficou mais oneroso. Os gastos operacionais subiram para €2723,6 milhões, mais 39,7% do que em 2024. Os pagamentos em atraso e a dívida total a fornecedores também cresceram: €78,1 milhões no primeiro caso e €1718,9 milhões no total.
Nos centros de saúde, registam-se melhorias quase impercetíveis: 85,1% de utentes com médico atribuído, mais 0,1% do que em 2025 e menos 0,1% do que em 2024. As áreas com evolução positiva são agora mais limitadas, havendo, por exemplo, melhorias na afluência às Urgências ou nos gastos com tarefeiros e suplementos.
Gestores culpam Governo
A Direção Executiva do SNS não respondeu ao Expresso e o gabinete ministerial repetiu as justificações apresentadas por Ana Paula Martins no Parlamento no final de abril, começando por defender que é “fundamental não retirar conclusões apressadas”. A ministra sustentou que a redução nos cuidados primários “deve-se em grande medida a fatores concretos: menos dias úteis e condições climatéricas adversas no primeiro trimestre”. Quanto aos hospitais, disse que “também os dados exigem leitura responsável, houve uma redução pontual (...) explicada pelo impacto do pico da gripe e pela suspensão da atividade programada”. Contudo, os dados do Instituto Ricardo Jorge indicam que, a 18 de janeiro, a atividade gripal estava em “tendência decrescente” e, na primeira semana de fevereiro, era já uma “atividade não epidémica”.
“É altamente preocupante e as causas são todas responsabilidade do governo”
Líder dos gestores do SNS
A ministra traçou ainda um prognóstico para o SNS: “Quando comparamos com 2023, temos mais consultas, mais cirurgias e maior capacidade de resposta global e isto demonstra que o sistema não está a recuar, está a adaptar-se.” Os gestores das ULS contestam. “A situação é altamente preocupante. Temos mais médicos, mais médicos em dedicação, mais enfermeiros, mais trabalho extraordinário, mais 25% nas remunerações e um ano depois temos uma redução na atividade. É preciso explicar o que está a acontecer”, afirma Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares.
Na ausência de uma explicação do Governo, Xavier Barreto descreve o que, na sua perspetiva, está em curso: “Não existem objetivos definidos, as equipas não estão mobilizadas, não temos os termos de contratualização nem os contratos-programa assinados, não sabemos quais são os objetivos definidos, não há gestão intermédia, temos administradores que nunca geriram uma unidade de saúde, investimento abaixo do necessário, camas bloqueadas. Tudo questões da responsabilidade do Governo.”
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