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Trump regressa a Pequim em plena guerra no Irão e com Taiwan na agenda

Dois homens em fato sentados à mesa com mapa, bandeiras dos EUA e China e edifício tradicional ao fundo.

Há mais de oito anos que um Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) não fazia uma visita oficial a Pequim. Na última ocasião, tal como acontece agora, era Donald Trump quem ocupava a Casa Branca. A deslocação foi classificada como uma “visita de Estado reforçada”, com guarda de honra militar e um jantar sem precedentes na Cidade Proibida. Pelo caminho, ocorreu ainda um incidente com a “mala nuclear” - onde estão os códigos de lançamento das armas nucleares americanas -, que só se tornou público mais de dois meses depois da viagem.

Na próxima semana, Trump volta à capital chinesa. Desta feita, a visita - marcada para 14 e 15 de maio - realiza-se num cenário particularmente carregado: guerra no Irão (um conflito que levou o Presidente norte-americano a adiar o encontro, inicialmente apontado para o fim de março, precisamente por esse motivo), tensões económicas que apenas abrandaram em outubro, um acordo de venda de armamento americano a Taiwan no valor de milhares de milhões de euros e uma sucessão de deslocações a Pequim por parte de líderes de países aliados dos EUA.

Contexto da visita a Pequim: temas e incógnitas

A uma semana do encontro entre os líderes das duas maiores economias do mundo, a agenda formal continua por divulgar, mas é já certo que o Irão será um dos dossiês discutidos. A confirmação foi dada pelo secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, que também disse que os dois líderes “têm grande respeito um pelo outro”. Ainda assim, acusou a China de “financiar o maior Estado patrocinador de terrorismo” ao comprar energia ao Irão. E deixou um apelo: “Vamos ver se intensificam a diplomacia e conseguem que os iranianos abram o estreito [de Ormuz]”.

Na quarta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, esteve em Pequim. Do lado chinês, as autoridades defenderam que “a cessação completa de hostilidades é imperativa, recomeçar o conflito é inaceitável e persistir nas negociações é particularmente importante”, apelando à reabertura do estreito, noticiou a agência Reuters. A diplomacia chinesa acrescentou ainda uma nota sobre o programa nuclear iraniano - cuja eliminação tem sido apontada como objetivo central da guerra -, afirmando que aprecia “o compromisso do Irão em não desenvolver armas nucleares”.

Economia, sanções e tecnologia na relação EUA–China

Em paralelo com a frente diplomática, Pequim tem resistido à pressão económica de Washington relacionada com os seus laços com Teerão. Desde 2016, a China mantém com o Irão uma parceria estratégica alargada. No início deste mês, o Ministério do Comércio chinês reagiu a sanções americanas aplicadas a cinco empresas chinesas ligadas a transações de petróleo com o Irão, declarando: “Não será reconhecida, nem executada, nem cumprida qualquer medida de sanção imposta pelos Estados Unidos”. No mesmo comunicado (traduzido pelo Expresso com recurso a inteligência artificial), as autoridades chinesas classificaram as sanções como “uma aplicação extraterritorial indevida”. Em 2025, cerca de 13,4% das importações marítimas chinesas de petróleo tinham origem no Irão. Para Raquel Vaz-Pinto, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), a posição do Ministério funciona como um “barómetro da relação de forças [com os EUA] na perspetiva da China”.

Wen-Ti Sung, colaborador do Global China Hub do grupo de reflexão norte-americano Atlantic Council, considera que, para se poder falar num avanço efetivo na relação bilateral - e não apenas numa redução passageira das tensões -, seria necessário que a administração Trump autorizasse a venda à China de chips de última geração da empresa Nvidia e que Pequim “reduzisse significativamente” a tensão com o Japão.

Guerra altera “urgência” da visita

Para Yu Tao, professor associado da Universidade da Austrália Ocidental, o conflito no Irão “acrescenta uma camada extra de urgência à visita, mas não altera fundamentalmente a estrutura subjacente das negociações entre os EUA e a China”.

“Para Trump, a prioridade imediata é demonstrar que consegue gerir várias crises em simultâneo. Os EUA provavelmente gostariam que a China usasse a sua influência económica e diplomática sobre o Irão para ajudar a estabilizar o estreito de Ormuz e a reduzir a pressão sobre os mercados globais de energia”, afirma Yu Tao ao Expresso. Ainda assim, sublinha, isto apenas “dá a Washington uma razão prática para procurar a cooperação chinesa”, sem eliminar a competição estratégica entre as duas potências.

Do lado de Pequim, o académico sustenta que, para o Presidente chinês, Xi Jinping, “a crise gera tanto pressão como vantagem”. Embora a China tenha “um forte interesse em manter abertos os fluxos de energia e o comércio marítimo”, Yu Tao antecipa que Pequim “formule a sua posição em torno da desescalada, da soberania e da estabilidade económica global, em vez do alinhamento com Washington”.

À data de publicação deste artigo, havia relatos de que os EUA acreditavam estar perto de um entendimento com o Irão para declarar o fim da guerra e estabelecer um quadro de negociações mais amplo. Ainda assim, aconteça o que acontecer, Vaz-Pinto considera que “há claramente uma alteração na relação de forças entre a China e os Estados Unidos”. “Os EUA estão numa posição mais enfraquecida face à China”, afirma a investigadora, chamando a atenção para o impacto na “imagem” americana no que toca à capacidade de apoiar aliados em caso de ataque - algo que, segundo a investigadora, “não se verificou” relativamente aos países do Golfo -, bem como para uma logística “muito mal pensada” que levou Washington a “redirecionar armamento de outras regiões do mundo, em concreto da Coreia do Sul e da região do Indo-Pacífico”.

Segurança regional

A transferência de militares e de meios dos EUA da Ásia para os confrontos contra o Irão - incluindo um navio de assalto anfíbio anteriormente destacado no arquipélago japonês de Okinawa e partes de um sistema de defesa antimísseis instalado na Coreia do Sul - aumentou os receios sobre a capacidade americana de dissuadir uma eventual agressão no Indo-Pacífico.

Com a visita iminente e a guerra a marcar o contexto, impõe-se uma questão adicional: até que ponto estará a administração Trump preparada para ceder, ao nível das garantias de segurança na região, para alcançar um entendimento comercial?

“Seria cauteloso quanto a prever um grande acordo. É pouco provável que Washington abdique formalmente de compromissos fundamentais de segurança regional ou de importantes controlos tecnológicos, mas é perfeitamente possível que Trump esbata as fronteiras entre as questões, aliviando a pressão numa área em troca de cooperação noutra”, responde Yu Tao.

No ano passado, o défice comercial de bens dos EUA com a China foi superior a 200 mil milhões de dólares.

Na leitura de Wen-Ti Sung, Pequim está disponível para prometer mais compras aos EUA - nomeadamente energia, produtos agrícolas e soja - de forma a “levar Trump a dizer que os EUA se opõem à independência de Taiwan”. Ainda assim, prevê “continuidade” na política americana.

Segundo o analista, Trump poderá explorar uma eventual alteração de tom como “cenoura” para obter concessões chinesas, “mas é pouco provável que ofereça mudanças duradouras e vinculativas”. “Os EUA estão atolados no Médio Oriente e, mesmo que adotassem uma postura transacional e vendessem concessões sobre Taiwan, atualmente não estão em condições de ‘vender caro’, pelo que não venderão nada, embora vão fingir que o podem fazer”, argumenta. Para Wen-Ti Sung, o risco está no recurso da administração norte-americana a “linguagem ambígua”.

Taiwan é governada autonomamente desde 1949, ano em que os nacionalistas chineses perderam a guerra civil face ao Partido Comunista e se refugiaram na ilha. A ilha dispõe de Constituição própria e de um sistema democrático. Ainda assim, a República Popular da China considera Taiwan parte do seu território e realiza com frequência exercícios militares nas suas proximidades.

Os EUA entram diretamente nesta equação por serem o principal fornecedor de armas a Taiwan e por manterem uma postura de ambiguidade estratégica sobre uma eventual intervenção em caso de conflito. Em março, o Parlamento de Taiwan deu luz verde a acordos de armas num total de 9 mil milhões de dólares.

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