O bluff é uma estratégia antiga, muitas vezes usada por quem parte em desvantagem num confronto. O regime do Irão domina esse jogo e sabe que, com as eleições para o Congresso dos Estados Unidos da América (EUA) cada vez mais próximas, o Presidente Donald Trump enfrenta uma pressão enorme - interna e externa - para proclamar uma vitória e encerrar rapidamente a guerra.
Ainda assim, não é só bluff. Teerão habituou-se a operar sob tensão máxima e vive há anos com sanções económicas severas. Neste momento, tem pouco a perder, e o conflito também favorece a Guarda Revolucionária Islâmica, que aproveitou a guerra para consolidar o poder supremo. Do lado americano, Trump terá dificuldade em vender qualquer entendimento como um triunfo, porque terá de responder às questões centrais que estiveram na origem da guerra - nomeadamente o enriquecimento nuclear do Irão e o corte do caminho para a produção de uma arma nuclear.
Trump, que no primeiro mandato retirou os EUA do acordo assinado por Barack Obama em 2015, quer agora apresentar qualquer novo compromisso como melhor do que o do seu antecessor. Nesse entendimento, Teerão comprometia-se a restringir o enriquecimento por 15 anos e a fixar um tecto para as reservas de urânio. O problema é que, em 2026, a liderança iraniana é mais rígida do que em 2015 e está consciente de quão simples pode ser bloquear o estreito de Ormuz e torná-lo impraticável.
O efémero Projeto Liberdade
As diferentes respostas do Irão ao Projeto Liberdade de Trump (anunciado como forma de repor a navegação de embarcações pelo estreito) puseram a nu o quão pouco realista era a missão. Teerão mostrou que bastam ameaças, ou alguns mísseis contra petroleiros, para convencer capitães e comandantes a não assumirem o risco.
“o ataque à instalação petrolífera dos Emirados Árabes Unidos fez subir os preços do petróleo e convenceu Trump a recuar e a reduzir a tensão, tendo suspendido o Projeto Liberdade menos de 48 horas depois de o ter anunciado com grande alarido”, lembra Jamie Shea, antigo vice-secretário-geral-adjunto para os Desafios Emergentes de Segurança da NATO. “É uma grande mudança de rumo”, afirma ao Expresso.
Na leitura deste especialista, a nova linha de ação “parece sugerir que os EUA retomaram firmemente o rumo diplomático, embora seja impossível saber se é verdadeira a declaração de Trump de que Washington e Teerão estão perto de um acordo (e que o Irão quer mesmo um acordo agora)”.
Apesar disso, tanto os EUA como o Irão procuram reduzir a capacidade de influência do outro, enquanto tentam projectar uma posição de força para eventuais negociações. Na quarta-feira, pouco depois de Trump ter lançado novo ultimato a Teerão, forças militares americanas dispararam contra um petroleiro com bandeira iraniana. Na mesma ocasião, Trump afirmou que o Irão teria de aceitar um acordo ou enfrentar outra vaga de bombardeamentos “de nível e intensidade muito maiores do que antes”.
Netanyahu quer guerra
No Líbano, o caminho para a paz também se torna mais difícil. O ataque de Israel ao bairro de Dahiye, em Beirute, e o assassínio de Ahmed Ali Balout - comandante da Força Radwan, a unidade de elite do Hezbollah (partido político e movimento islamita que o Governo israelita responsabiliza pela coordenação dos ataques no norte de Israel) - constituem mais um golpe para o grupo apoiado pelo Irão.
“Provavelmente procurará vingança”, prevê, a respeito do Hamas, Yaniv Voller, professor de Política do Médio Oriente na Universidade de Kent. Voller considera que Israel, e em particular o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, está “com interesse na reativação da guerra no Irão”. A confirmar-se, “atacar o Hezbollah pode fazer parte dessa estratégia”. Ainda assim, admite uma hipótese alternativa: os ataques também podem enquadrar-se numa tentativa israelita de pressionar o Presidente do Líbano, Joseph Aoun, a reforçar a ação do Estado libanês contra o grupo xiita.
A evolução no estreito depende, em grande medida, de um entendimento entre Trump e o regime iraniano. É por isso que Voller antecipa que ambos tentem travar os seus próprios aliados. “O Irão pressionou o Hezbollah para entrar em conflito com Israel, e deverá ter influência suficiente para conter a reação do grupo. Trump também já demonstrou vontade de impor limites às manobras israelitas na Faixa de Gaza, e pode exercer pressões semelhantes no Líbano.”
“A janela para uma ação militar está a fechar-se”
Osamah Khalil
Perito em assuntos do Médio Oriente
O cessar-fogo entre os EUA e o Irão continua de pé, mas é instável e marcado pela tensão. Ao mesmo tempo, vários analistas têm repetido que, em termos práticos, este conflito não tem solução militar. “Embora Washington e Teerão estejam a emitir declarações belicosas, nenhum dos dois parece ansioso por retomar os combates”, observa Osamah Khalil, historiador das relações externas dos EUA e do Médio Oriente moderno. Com o verão prestes a instalar-se no Golfo Pérsico, “a janela para uma ação militar está a fechar-se”, acrescenta Khalil. “Os EUA não possuem forças suficientes para lançar e sustentar uma invasão terrestre, e o seu bloqueio naval é permeável.” Em paralelo, sublinha, o Irão “pode manter o controlo sobre o estreito de Ormuz indefinidamente, o que terá consequências devastadoras para a economia global”.
A solução política
A suspensão dos combates está agora a ser testada para perceber se as duas partes conseguem transformar o cessar-fogo num arranjo mais duradouro. Investigadores alertam que, quanto mais tempo Trump insistir numa posição negocial maximalista sem admitir a dureza do terreno, mais sérios poderão ser os efeitos no fornecimento mundial de energia e alimentos. “A questão é que tipo de acordo pode ser feito que salve as aparências”, admite John Strawson, especialista em Estudos do Médio Oriente na University of East London.
Para os iranianos, o objectivo é dissociar as conversações sobre o fim da guerra do dossier nuclear. Washington, pelo contrário, pretende um acordo global. “A questão principal é a abertura do estreito de Ormuz, que os EUA perceberam que não pode ser feita até que haja um fim das hostilidades”, frisa Strawson. Estão cerca de 1550 navios à espera para atravessar, e o Projeto Liberdade - que durou pouco - conseguiu apenas a passagem de dois petroleiros em dois dias.
Xi Jinping à espera
A China compra aproximadamente 37% do seu petróleo através do estreito, o que, segundo Strawson, “coloca enorme pressão sobre Trump, que planeia o seu encontro com Xi Jinping ainda este mês” (ver pág. 34). O Presidente dos EUA, que chega a Pequim no dia 14, precisará de mostrar algum avanço, e os iranianos terão isso em conta.
Nas negociações intermitentes com mediação via Paquistão, o Irão poderá propor um entendimento simbólico no tema nuclear e prometer novas rondas de diálogo. “O que os EUA podem fazer é exatamente o que a Administração Obama fez: negociar com os iranianos um adiamento das suas ambições nucleares, em vez de as impedir por completo”, argumenta o investigador de Estudos do Médio Oriente. Para Washington, isso poderá bastar para reivindicar vitória.
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