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Quase Famosos (BLITZ): Helena Caldeira estreia-se com ‘Vizinhas’ e prepara ‘Abalar’ na 77ª edição

Mulher jovem com auscultadores sentada a gravar num estúdio caseiro com microfone e guitarra acústica.

A rubrica Quase Famosos, da BLITZ, acompanha de perto a nova música portuguesa e tenta perceber o que está a mexer no panorama de artistas emergentes. Semana após semana, a atenção recai sobre um nome diferente. Na 77ª edição, a escolhida é Helena Caldeira, atriz que ganhou destaque em “Rabo de Peixe” (onde dá vida a “Sílvia”, sobrinha do temido “Arruda”, interpretado por Albano Jerónimo) e que, agora, começa também a afirmar-se na música.

O ponto de partida é ‘Vizinhas’, o seu tema de estreia: pop com apontamentos de eletrónica e referências à música tradicional portuguesa. Entretanto, “Abalar”, o primeiro álbum, segue em preparação.

Helena Caldeira - Montemor-o-Novo

Fora do universo da representação, Helena Caldeira diz não sentir uma rutura entre a pessoa e a figura pública: “Acho que sou exatamente a mesma pessoa, fora e dentro”, explica à BLITZ. “Nos ecrãs há apenas a camada da ficção, mas sou eu na mesma. O meu trabalho vem de mim”. E esse percurso não se resume a “Rabo de Peixe”: pode também ser visto em “Águas Passadas”, “Homens de Honra” e “Bem Me Quer”.

Com o tempo, garante, tem reforçado a proteção da sua esfera pessoal. “Gosto de proteger o meu espaço íntimo, porque é também nele que me nutro e desenvolvo ferramentas para enriquecer o meu trabalho”, sublinha. “Apesar de conseguir separar o espaço trabalho do espaço pessoal, ao mesmo tempo está tudo ligado, porque é difícil - diria quase impossível - interromper o fluxo criativo quando se é uma pessoa naturalmente criativa, que gosta de imaginar coisas, que olha o mundo como quem o quer entender. Acho que as pessoas artistas são assim”.

É por isso que, para ela, faz sentido manter “importância de preservar um espaço seguro”, capaz de a afastar da pressão de “que há algumas pessoas que conhecem a tua cara, que têm expetativas sobre ti e sobre o teu trabalho”. “A vida já é assim em todas as esferas, mas como há uma exposição grande neste trabalho, não quero transbordar esse julgamento para a esfera pessoal e, por isso, faço-me rodear de pessoas que me aceitam e amam como sou”, acrescenta. “Só aí dá para florescer”.

Helena Caldeira e a estreia musical com ‘Vizinhas’

A ideia de se aproximar da música não é recente - na verdade, nasceu cedo. “acho que quis fazê-lo antes de saber que queria ser atriz”, revela. Ainda assim, “o teatro apareceu primeiro, e essas portas foram-se abrindo mais para mim do que as portas da música”. A ponte entre os dois universos, que Helena não vê como opostos, surgiu através da iniciativa “Carta em Branco”, da RTP, criada para apoiar a criação de monólogos teatrais. “Senti que era o momento certo para pôr essa vontade cá fora e experimentar”.

Embora admita que nem sempre é simples etiquetar o que faz - “às vezes, a palavra pode reduzir o trabalho da pessoa a uma coisa só”, defende -, descreve “Abalar” como “uma viagem performática pelos campos alentejanos, com ecos do passado, uma voz do presente e uma lente do contemporâneo - qualquer coisa como um indie folk eletrónico português”.

Sobre ‘Vizinhas’, a artista explica que “é um grito que pede liberdade e união, uma prece de duas mulheres que se sentem sozinhas e querem encontrar conforto no colo de outras iguais a si”. E desenvolve a ideia: mulheres que “querem ser ouvidas e entendidas, que querem pertencer, que querem sair para a rua e serem elas próprias, exatamente como são”. A forma como fala da canção deixa ver a sua vertente poética: “É uma canção que bate ao ritmo do coração de uma mulher viva”.

"Não fiz este álbum para agradar a ninguém ou redirecionar a minha carreira" ~ Helena Caldeira

‘Abalar’: o álbum de estreia e o processo de criação

Ainda em construção, “Abalar” já tem alguns contornos revelados por Helena. “Quem viu o espetáculo ‘Cantadeiras’, na RTP, vai reconhecer algumas músicas e poder notar as diferenças na produção musical. É um álbum pequeno, mas intenso, e que tem alguma dor, mas muita força”, detalha.

Sendo um primeiro disco, teria trazido pressão acrescida? A resposta é clara: não. “Não fiz este álbum para agradar a ninguém ou redirecionar a minha carreira”, afirma. “Fi-lo porque tinha que sair cá de dentro”. As faixas, explica, “são inspiradas nas histórias das mulheres que rodeiam o meu imaginário, rede genética e ancestral, e foram feitas como eu as estava a sentir e não para cumprir regras, timings, expetativas, modas, e sim para me cumprir a mim mesma”.

Influências, escutas recentes e colaborações desejadas

No que ouve e a inspira, Helena Caldeira aponta um leque amplo: Björk ("desde sempre" a sua artista predileta), Aurora, Billie Eilish, Arooj Aftab e Bon Iver. Entre as coisas que mais lhe têm ocupado os ouvidos, destaca ainda “Lux”, de Rosalía, e a colaboração entre Salvador Sobral e os First Breath After Coma. Junta-se a esta lista Rita Vian e Malva, “que são como aquela melhor amiga a quem recorres sempre para desabafar ou só para um abraço em silêncio”.

Se pudesse escolher uma parceria, a primeira opção seria Aurora. “É uma utopia, eu sei”, diz, a brincar, “mas acho que deve ser alguém super cool e divertida para se ter uma colaboração. Na verdade, poder partilhar um momento criativo com qualquer uma das artistas que ouço e admiro seria sempre um prazer gigante e uma honra”. Björk volta inevitavelmente à conversa: “quando era adolescente, cantar ao lado dela era um sonho daqueles que te faz tremer as pernas. Mas percebi que prefiro mesmo só apreciá-la bem, sem sofrer de nervos de estar ao seu lado. De todas as pessoas que mencionei antes, ela é a única que prefiro apenas contemplar”.

O que vem aí na música (e a curta realizada por Helena)

Quanto ao que se segue na sua vertente musical, Helena sublinha uma diferença decisiva face à representação: “Ao contrário do que faço na minha carreira de atriz, na música eu posso escolher fazer exatamente o que eu quero”, afirma. “Não estou dependente das ideias que as outras pessoas têm, se os guiões têm personagens onde me possa encaixar, de castings e audições, das opiniões, expetativas e vontades de outros criativos. Posso expressar o meu Ser da forma que eu quiser”. Para ela, a música é um território pessoal, “onde Sou, só, sem preconceitos e sem regras”. Quando “Abalar” chegar às lojas e às plataformas de audição online, quer “continuar a tentar este exercício de só existir, o mais próxima possível da minha verdadeira essência no momento”. E, naturalmente, “divertir-[se] muito com isso”.

A artista assume que sentiu algum espanto à sua volta com este passo. “as pessoas não estavam à espera” de uma canção nova - “muito menos uma curta” que a acompanhasse -, diz, referindo-se ao videoclipe que realizou. “Mas essa surpresa tem vindo sempre com um feedback positivo e com mensagens muito bonitas de pessoas que se identificam com o tema, ou que acham ainda importante sublinhá-lo”.

No momento de escrever ‘Vizinhas’, garante que a intenção nunca foi doutrinária. “nunca quis ser panfletária ou moralista”: “era apenas uma história que queria contar”, explica. “Queria fazê-lo de uma forma delicada, mas sem vergonha. A forma como as pessoas me têm abordado sobre a música e a curta tem vindo, precisamente, com muita delicadeza e carinho, e isso leva-me a pensar que pus o coração cá fora de forma clara e justa, e de que está tudo certo”. A própria curta, acrescenta, “também ter sido feita assim, com uma equipa incrível e dedicada, feita de boas pessoas, muitas pessoas amigas e a minha família praticamente toda”. “Tenho muita sorte”, remata.

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