Boa tarde,
Ladrões de droga (Apple TV)
Nas produções originais das plataformas, quem escreve e cria trabalha com um tipo de liberdade diferente: a pressão por resultados imediatos é menor e, por isso mesmo, quase se instala a exigência de que as séries tenham de ser melhores do que seriam na televisão tradicional, onde se pede sempre um alcance mais generalista. É certo que existem muitas séries extraordinárias, mas também é frequente ver-se tempo, dinheiro, actores e equipas desperdiçados em cedências tantas vezes inúteis. Felizmente, Peter Craig - argumentista norte-americano e co-criador de filmes como “A Cidade”, “Batman” e “Arma Supremamente Perigosa: Maverick” - não caiu nessa armadilha com a excelente “Ladrões de droga” (oito episódios na Apple TV), uma minissérie que volta a provar que, algures na Apple, há quem saiba muito bem o que está a fazer.
Um arranque que cumpre a promessa
Começando pelo fim: “Ladrões de droga” mostra que é possível fazer com que, episódio após episódio, o investimento do espectador seja recompensado com um mundo narrativo mais rico. As personagens ganham espessura, as linhas narrativas avançam e, ao mesmo tempo, há surpresa e confirmação - tudo isto sem trair a promessa de um primeiro episódio enorme, ainda por cima realizado por Ridley Scott.
O golpe, a escalada e a viragem
A premissa não é inédita. Dois amigos de juventude, meio patifes mas com um fundo decente (o nosso conhecido Wagner Moura e o impressionante Brian Tyree Henry), mascaram-se de agentes federais da DEA, a agência de combate à droga, para assaltarem traficantes de segunda linha, ficando com o dinheiro e com o produto. Até aí, os golpes são “limpos”, sem grandes sobressaltos, filmados com uma eficácia notável e uma plausibilidade que nos coloca a ver algo com escala de cinema e orçamento a sério.
Até que, um dia, as coisas quase descarrilam e os dois decidem acrescentar uma terceira pessoa à operação. A partir daí, para azar deles, tudo corre imediatamente muito mal: há mortos, feridos e explosões; os caçadores tornam-se presas; e entra em cena um antagonista que se impõe - literalmente - do outro lado do telefone, a perseguir a dupla de anti-heróis que, de repente, deu passos maiores do que a perna.
Como seria de esperar, há também agentes federais envolvidos numa operação de grande dimensão, com escutas e todo esse aparato. E se a série já vinha rápida e bem montada, sobe ainda mais quando passamos a conhecer as personagens por dentro.
Personagens e elenco de Ladrões de droga
Brian Tyree Henry faz de um pintor da construção civil criado por uma mulher branca (Kate Mulgrew, a comandante Janeway de “Jornada nas Estrelas - Voyager”), com o pai preso (Ving Rhames, de “Ficção Pulp” e “Missão Impossível”, entre muitos outros). A personagem transporta um lastro pesado de trauma, que a série vai revelando através de confortáveis retrocessos a preto e branco, e mostra um instinto de sobrevivência considerável. Percebe-se, com o tempo, que aquele assaltante que podia parecer quase cómico é, na verdade, um fora-da-lei meticuloso, atento e inteligente.
Wagner Moura surge mais secundarizado: é um toxicodependente em recuperação, apaixonado pela noiva e profundamente leal ao amigo-irmão. Tem menos tempo de ecrã, mas não se sente diminuído por essa lógica de “escudeiro”; a presença mantém-se inteira.
E depois há Mina (Marin Ireland), talvez o melhor trunfo de “Ladrões de droga”: uma agente a trabalhar sem farda, que acaba ferida e, por isso, sem voz, sendo obrigada a comunicar com os outros - e connosco - através da palavra escrita. É nestes detalhes que se nota a superioridade de muitos intérpretes norte-americanos. Marin Ireland consegue ser uma actriz extraordinária sem abrir a boca; fala com os olhos e com as expressões melhor do que muitas divas.
Ritmo, atmosfera e construção do mistério
Com um travo a Dennis Lehane, “Ladrões de droga” lembra aqueles filmes passados em Boston onde Ben Affleck e Matt Damon andam sempre a desenrascar-se (e isto é dito como elogio). À medida que os episódios se encadeiam, a história estica-se para zonas inesperadas, incluindo os amish, os quakers e orientais decididos.
Em cada capítulo, a série consegue o mais difícil: há uma narrativa maior e um mistério sólido, com ramificações que permanecem sempre coerentes com o tema central - o espectador não se perde, coisa raríssima. Não há bandeiras ao vento por causas; não há lições fáceis sobre bondade, amizade e lealdade, porque isso é desnecessário: já se percebe que é esse laço forte que une as figuras de “Ladrões de droga”. E não há tempo narrativo desperdiçado em becos sem saída; até o cão de colo que circula entre as personagens tem uma função pertinente, muito para lá do alívio cómico que parece prometer.
Sendo uma adaptação do livro homónimo de Dennis Tafoya, “Ladrões de droga” não aposta em originalidades vistosas - nada de dragões nem de viagens no tempo -, mas mantém-nos numa insatisfação constante perante o segredo do destino das duas figuras centrais. A história contada por imagens é de luxo e o cuidado com a caracterização (tanto no que é palpável como no que é invisível) está todo lá. Desde o primeiro minuto ficamos presos, em modo de entretenimento, a torcer com força para que, de alguma maneira, aquilo lhes corra bem.
Raridade: os dois últimos episódios são excelentes - vale mesmo a pena lá chegar.
Sugestão
“Um homem decente” (HBO Max)
Quando eu era miúdo, a Polónia era, para mim, a terra do jogador Boniek, do Papa e do bigodudo Lech Walesa, o sindicalista que ajudou a derrubar o império soviético.
Décadas depois, a Polónia aparece como um país afluente, com uma economia em crescimento e completamente ocidentalizado - algo que se confirma em “Um homem decente” (seis episódios disponíveis na HBO Max).
As casas, os automóveis, as estradas e as infra-estruturas que surgem em algumas cenas; a roupa do elenco; os penteados das mulheres; a forma como se movem - pode já não haver socialismo, mas há ficção de alto nível. Isto ganha ainda mais relevo se lembrarmos que, durante muito tempo, a televisão polaca era dobrada num registo monocórdico (basta escolherem nas opções uma série dobrada em polaco para perceberem como soa estranho).
No caso específico de “Um homem decente”, os temas são mais universais e menos presos à construção de uma ideologia ou à reconstituição da história do país - um rumo que a televisão pública polaca tem seguido desde o início deste século, sinal de que há governos que sabem o que pretendem das suas televisões.
A história centra-se num médico relativamente comum que não aguenta ver o filho sujeito a intimidação violenta e, num acto imprudente, acaba por raptar um dos culpados. A partir daí, os problemas começam a cair em cima dele. Pawel revela-se um criminoso amador, mas no fundo é uma boa pessoa - podia ser um de nós. O que faz ele agora, quando toda a gente procura o rapaz que ele sequestrou? E a mulher de Pawel - em que confusões se foi meter?
Os caminhos por onde a série segue são, em boa medida, previsíveis: lembram produções alemãs e, sobretudo, lembram os modelos norte-americanos, absolutamente dominantes, porque “Um homem decente” foi pensada para exportação.
Toda a gente tem computadores Mac e iPhones, como as classes afluentes portuguesas e europeias. E há um detalhe inesperado: o casal protagonista tem empregada doméstica, como tantas famílias portuguesas - serão tão burgueses como nós e outros. (Um dos motivos por que vi a série até ao fim foi para perceber o que os argumentistas fariam com a dita empregada.)
Quase não há nada “polaco” no ambiente: é tudo “Ikea encontra a Uniqlo”. O primeiro episódio inclui até uma cena de sexo - a série está a posicionar-se; pretende mostrar ao mundo que a Polónia caminha para uma indústria audiovisual séria e convincente. Não há recados aos russos, nem elogios aos americanos: há problemas de classe média e de classe média alta, com o ilícito central a pairar sobre relações e atritos humanos.
Quem diria que, numa geração e depois de décadas obrigados a viver sob um regime de foice e martelo, a Polónia faria televisão com esta qualidade? Até porque “Um homem decente” não é caso único. Aliás, os países da antiga Cortina de Ferro não se têm saído nada mal: checos e húngaros também produzem óptima televisão. Ainda na HBO, que tem uma aposta séria na Polónia, está a ser preparada “Porta do Oriente”, mais cinematográfica, uma série de espionagem que já toca conflitos do passado e do presente daquela zona do mundo, e a muito bem feita série de crime verídico “À Medida de um Assassino”.
Sendo um sector estratégico de enorme relevância, a indústria do lazer, do entretenimento e da atenção parece estar a avançar a bom ritmo na Polónia.
Até daqui a duas semanas.
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