O Muzeu entre a Praça do Município e a Praça Conde de Agrolongo, em Braga
No fim de abril, o Muzeu passou a receber visitantes em Braga. Instalado na Praça do Município - onde a Câmara Municipal de Braga continuará, naturalmente, a marcar o lugar -, o museu afirma-se, porém, pelo que se lê e se vê do outro lado: a inscrição “Muzeu”, no topo do edifício, sobressai na fachada posterior, voltada para a Praça Conde de Agrolongo. Esta escolha, combinada com a possibilidade de atravessar o edifício, assumida como parte do próprio funcionamento do espaço, faz do museu a ligação física mais bem conseguida entre as duas praças.
Uma inauguração que sugere ambição para lá de Braga
Ainda assim, é difícil não suspeitar que a ambição deste projeto não se esgota na escala local - ou então tudo não terá passado de coincidência, ou até de feliz acaso. O certo é que a inauguração foi conduzida pelo Presidente da República, e não pelo presidente da Câmara; e a bênção coube a um cardeal, e não ao arcebispo primaz de Braga.
O projeto privado, o antigo Tribunal de Braga e a recuperação do património
Essa ambição - ou, talvez, uma visão - ajuda a explicar o gesto de quem a protagoniza: um construtor civil de peso na cidade que, por interesse ou gosto, foi reunindo ao longo do tempo um espólio significativo de obras de artistas nacionais e internacionais e decidiu torná-lo partilhável.
Em vez de procurar, junto do Estado, a cedência de um espaço onde pudesse expor a coleção, assumiu ele próprio a criação do lugar para o seu museu. Com isso, tomou também para si o compromisso de recuperar o edifício onde funcionou o Tribunal de Braga, preservando património edificado da cidade e recorrendo a uma referência incontornável da arquitetura bracarense.
Talvez o rasgo de coragem e de generosidade que o Muzeu corporiza tenha, afinal, uma dose menor de egocentrismo
Cultura, recreio e impacto económico: PIB e indústrias criativas
A combinação entre preservação do edificado e a criação de um museu com programação própria constitui um contributo relevante para o sector cultural e recreativo nacional. Este sector abrange todas as atividades assentes em valores culturais, expressões artísticas individuais ou coletivas e criatividade - das artes e espetáculos ao património cultural (onde se incluem os museus) e às indústrias criativas.
Mesmo representando, nas contas nacionais, apenas entre 1% e 2% do PIB, e subindo para pouco mais de 3% quando o perímetro se alarga às indústrias criativas (valores de 2024), o seu papel é decisivo para a identidade social: alimenta o turismo, estimula o desenvolvimento económico e reforça dimensões coletivas que vão além do mensurável.
Após o forte abalo provocado pela covid-19 - com museus encerrados e espetáculos e eventos culturais cancelados -, o contributo para o PIB caiu de forma marcada em 2020. A partir daí, o sector entrou em recuperação e, mais recentemente, voltou a registar valores acima dos níveis pré-pandemia, estabilizados em torno dos 3% (em termos latos). Ainda assim, quando ligado ao turismo, o impacto económico é muito superior; e, no plano social, a influência na construção da identidade coletiva é indiscutível, embora dificilmente quantificável.
Um sector heterogéneo e o lugar (mais frágil) dos museus
Convém lembrar que o sector cultural e recreativo não é uniforme: varia na natureza das atividades e também no seu peso económico. As atividades desportivas, de diversão e recreativas tendem a dominar como motor económico do sector, beneficiando de maior escala comercial e de padrões de consumo mais frequentes.
Logo a seguir surgem as atividades artísticas, criativas e de espetáculos - incluindo teatro, música, dança, produção cultural e atividades literárias e artísticas -, menos massificadas, mas culturalmente muito relevantes. Já bibliotecas, arquivos, museus e património aparecem com um peso económico residual, apesar do seu elevado valor cultural e social.
Quebra de visitantes, PRR e o contexto em que surge o Muzeu
A esse peso económico reduzido soma-se uma descida recente de visitantes, entre 2024 e 2025, que a empresa pública Museus e Monumentos de Portugal associa ao encerramento total ou parcial de vários museus e monumentos para obras no âmbito do PRR. É neste cenário que o Muzeu aparece.
Trata-se de um projeto privado que abriu portas com entrada livre num dia de celebração da liberdade, oferecendo acesso generalizado a alguns dos principais artistas contemporâneos portugueses. E não se limita ao que expõe: a proposta inclui uma programação artística variada, concentrada num mesmo espaço.
Arte e cultura: necessidade, identidade e a Mezquita-Catedral de Córdoba
Ao tentar articular arte e cultura, uma forma possível de olhar para o tema é considerar a cultura como a nossa arte do passado - aquilo que ajudou a fazer de nós a sociedade que somos -, enquanto a arte se liga à inovação e ao futuro. Quando o poeta brasileiro escreve que “a arte existe porque a vida não basta”, coloca-a no domínio da necessidade, e não no do luxo. Porque a arte que se transforma em cultura integra a nossa identidade, tanto social como individual.
Um caso de arte edificada sobre cultura, com efeito social avassalador, é a Mezquita-Catedral de Córdoba: a forma como os seus elementos se conjugam ultrapassa o objeto físico e relembra que uma união religiosa e cultural é possível.
Talvez, então, a coragem e a generosidade que o Muzeu materializa contenham, afinal, menos egocentrismo - talvez haja aí menos Zé e mais Mezquita.
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