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Ataques russos deixam regiões da Ucrânia sem água nem aquecimento – Europa em direto

Mulher a servir água em copo para duas crianças enroladas em mantas na cozinha iluminada pelo dia.

A luz não vem de janelas iluminadas, mas do branco agressivo dos faróis dos carros, enquanto voluntários descarregam bidões de plástico e fogareiros de campismo já gastos. Ao longe, o roncar grave de um gerador mistura-se com o estalido seco da artilharia. As pessoas deslocam-se depressa, encolhidas, com os rostos escondidos em cachecóis, como se pudessem tornar-se menores para fugir ao frio - e ao som.

Uma mãe aperta a mão do filho enquanto equilibra dois baldes vazios; um homem idoso aguarda com um tacho metálico que parece mais antigo do que a própria guerra. Não estão a fugir da linha da frente. Estão numa fila para conseguir água. Não é um cenário de cinema. É uma tarde de terça-feira.

Debaixo dos pés, as tubagens do aquecimento estão mudas. E esse silêncio começa a soar mais perigoso do que o barulho.

Ataques russos às infraestruturas críticas na Ucrânia: onde a vulnerabilidade é maior

A mais recente vaga de ataques russos não se limitou a partir janelas ou a esventrar fachadas. Foi directamente ao essencial: água, aquecimento e electricidade. Em várias regiões da Ucrânia, as torneiras secaram em poucas horas e os radiadores ficaram gelados, à medida que mísseis e drones atingiam centrais eléctricas, estações de bombagem e nós de transformadores.

Nos mapas e nos briefings militares, são “alvos de infraestruturas críticas”. No terreno, são a diferença entre uma mãe conseguir dar banho ao filho ou um casal idoso conseguir dormir sem três camadas de casacos.

Os engenheiros sabem exactamente que válvula foi destruída e que linha ficou fora de serviço. Quem vive ali só sabe que a água parou a meio de lavar o cabelo.

Numa cidade do centro do país, responsáveis locais afirmaram que perto de 500 000 pessoas ficaram sem água depois de uma subestação que alimentava a principal estação de bombagem ter sido atingida em cheio. A falha começou pouco antes do amanhecer. A meio da manhã, as prateleiras dos supermercados enchiam-se de compradores ansiosos, a agarrar água engarrafada, sal, velas - qualquer coisa que devolvesse uma sensação mínima de controlo.

Uma directora de escola descreveu crianças a chegar com garrafas de plástico vazias, na esperança de as encherem na última torneira ainda a funcionar no bairro. “Tínhamos mais garrafas do que alunos”, disse, a meio caminho entre o riso e o esgotamento. O aquecimento do edifício engasgou-se uma vez e morreu.

Todos conhecemos aquele instante em que a electricidade falha e, quase sem pensar, pegamos no telemóvel. Agora imagine esse instante a prolongar-se por dias, com a temperatura a descer e a torneira da casa de banho a expelir apenas ar.

Há uma lógica fria por trás destes ataques. Destruir água e aquecimento não faz avançar a linha da frente um único metro, mas altera de um dia para o outro o campo de batalha psicológico. Quando a vida se reduz a encontrar uma sala quente e um balde cheio, tudo o resto - eleições, reformas, até as notícias do фронт - fica para segundo plano.

Analistas militares dizem que o objectivo é desgastar a população civil, quebrar o ritmo da vida quotidiana até a adesão ao esforço de guerra começar a desfazer-se. As autoridades ucranianas chamam-lhe terrorismo energético. Juristas de direitos humanos falam em possíveis crimes de guerra.

Para famílias em Kharkiv, Odesa ou Dnipro, a expressão jurídica pesa menos do que uma certeza simples: não se discute com um cano congelado.

Como as famílias estão a aprender a viver sem água e sem aquecimento

Nas zonas afectadas, a sobrevivência tem-se resumido a um princípio áspero: diversificar tudo. Uma fonte de água já não chega. Uma única opção de aquecimento é um risco. Quem pode, guarda grandes barris de plástico nas escadas do prédio, enchendo-os em bombas públicas nos raros dias em que o sistema volta a funcionar. Outros dependem de pátios de igrejas, onde voluntários montaram pontos de abastecimento improvisados.

O aquecimento transforma-se num remendo permanente: aquecedores eléctricos quando há energia, velhos fogões a lenha em cozinhas de verão, camadas de mantas quando ambos falham. Em aldeias pequenas, vizinhos partilham um único poço funcional e revezam-se num gerador pequeno para ferver água para toda a rua.

A regra é simples e brutal: tudo o que depende de um único cabo, de um único cano ou de uma única subestação é frágil. Soluções redundantes, desorganizadas e de baixa tecnologia passam, de repente, a parecer engenharia de luxo.

As autarquias e os voluntários repetem o mesmo conjunto de recomendações - e, mesmo assim, nunca soa rotineiro, nem para eles. Guardar pelo menos alguns dias de água potável. Ter um saco de emergência com roupa quente, uma lanterna, cópias de documentos essenciais. Identificar o abrigo mais próximo com calor e energia, mesmo que seja apenas um pavilhão escolar ou uma estação de metro.

Muita gente acena, promete que vai tratar disso, e depois perde-se entre o trabalho, as crianças, as noites cansadas. Sejamos honestos: ninguém consegue viver em “modo preparação” todos os dias. O cérebro humano resiste a acordar, todas as manhãs, a planear o pior.

O erro mais frequente é esperar que as luzes se apaguem para agir. Nessa altura, as caixas multibanco já não funcionam, as lojas estão a abarrotar e as estradas congestionam. O que parece “pânico” na televisão é muitas vezes apenas uma multidão de pessoas comuns a tentar recuperar o atraso de uma crise que chegou dez horas antes.

Um engenheiro de Kyiv, a coordenar reparações de emergência, resumiu o problema numa frase que se repete em caves e canais do Telegram:

“Os mísseis viajam mais depressa do que a papelada - por isso trabalhamos com confiança e fita adesiva.”

Essa mistura de improviso e coragem silenciosa aparece em gestos práticos. Em prédios altos, vizinhos organizam “salas quentes” nos corredores, isolam paredes, levam colchões e partilham chaleiras.

  • Algumas famílias juntam dinheiro para um único gerador e rodam o uso de hora a hora.
  • Outras combinam um “círculo de contacto” para enviar mensagens a moradores mais velhos quando há ataques.
  • Cafés locais disponibilizam água quente gratuita para encher termos antes de regressar a casa.

Não são grandes estratégias. São pequenas escolhas que determinam a diferença entre apenas aguentar a noite - e atravessá-la com um pouco de dignidade.

Água segura quando a rede falha: o detalhe que se torna vital

Quando a água reaparece de forma intermitente, nem sempre volta com a qualidade habitual. Mudanças de pressão, danos em condutas e paragens prolongadas aumentam o risco de contaminação. Por isso, muitas famílias adoptaram rotinas novas: ferver a água quando possível, usar pastilhas de purificação quando as têm, e separar água para beber da água para lavar.

Esta gestão doméstica também tem custos invisíveis: tempo perdido em filas, esforço físico a transportar bidões por escadas, e maior vulnerabilidade de idosos e pessoas com mobilidade reduzida. Em vários bairros, redes informais de ajuda passaram a incluir não só “quem tem gerador”, mas também “quem consegue carregar baldes”.

A Europa observa, ajuda… e hesita

Vistos de Berlim, Paris ou Roma, os mapas de cortes na Ucrânia parecem gráficos meteorológicos estranhos: regiões inteiras a mudar de cor de um momento para o outro - azul escuro para “sem electricidade”, vermelho para “sem aquecimento”. Líderes europeus condenam os ataques e anunciam novos pacotes de apoio: defesa aérea, transformadores de substituição, combustível, assistência técnica.

Chegam comboios cheios de geradores, caravanas de carrinhas de reparação, entregas urgentes de isolamento e tubagens. Parcerias entre cidades surgiram quase de um dia para o outro, com presidentes de câmara a falar diariamente com homólogos ucranianos sobre peças, equipas e logística.

Ainda assim, sempre que cai uma nova barragem de mísseis, muito desse trabalho minucioso recua uma semana - ou um mês.

Para muitos europeus, esta guerra continua a existir sobretudo através de ecrãs. Vídeos curtos de prédios às escuras, crianças de casaco de Inverno dentro da cozinha, mulheres idosas apoiadas em bengalas à frente de paragens de autocarro destruídas. Nos cafés e nas deslocações matinais, olha-se, abana-se a cabeça, e segue-se com o dia.

A distância é real, mas a ligação também. Os preços da energia na Europa, as discussões sobre fornecimento de gás, os debates sobre orçamentos de defesa - tudo transporta a sombra dessas subestações ucranianas destruídas. O que em Bruxelas parece abstracto traduz-se, no terreno, em mais uma bateria de defesa aérea - ou em menos uma - a proteger uma estação de bombagem perto de Zaporizhzhia.

Alguns governos receiam a “fadiga”, essa palavra vaga a que os políticos recorrem quando suspeitam que os eleitores começam a desviar o olhar. Do lado ucraniano, a fadiga não tem nada de vago: é um apartamento gelado às 03:00, quando a bateria do telemóvel finalmente morre.

O que surpreende muitos visitantes na Ucrânia não é apenas o estrago, mas a recusa em definir a vida apenas pela perda. Os cafés reabrem no instante em que a luz volta a piscar. As crianças brincam na neve acumulada junto de pátios marcados por crateras. Casais casam-se em conservatórias que ainda cheiram a pó e a gasóleo dos geradores.

Não há um final limpo aqui, nem uma moral arrumada que caiba num título. A água que hoje não corre nesses canos partidos faz parte de uma corrente maior que atravessa a política europeia, os seus receios e as suas escolhas. Quem está longe da linha da frente carrega uma parcela desta guerra cada vez que abre a aplicação do aquecimento ou hesita antes de aumentar o termóstato.

Para quem lê num smartphone, numa cozinha quente, isso pode parecer distante - e íntimo - ao mesmo tempo. Da próxima vez que ouvir o sussurro normal de um radiador ou vir o vapor a subir de um duche quente, talvez a ideia fique: algures, não tão longe assim, as tubagens estão silenciosas. E alguém está na neve, com dois baldes vazios, à espera.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Infraestrutura visada Estações de bombagem, redes de aquecimento urbano, transformadores eléctricos atingidos por mísseis e drones Perceber porque aumentam os cortes de água e de aquecimento e porque se prolongam
Quotidiano virado do avesso Filas para água, “salas quentes” partilhadas, dependência de geradores e fogões antigos Medir de forma concreta o que significa um ataque distante para famílias comuns
Resposta europeia Apoio técnico e militar, mas a reconstrução é continuamente sabotada por novos ataques Enquadrar o próprio papel como cidadão, eleitor e consumidor de energia neste cenário

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Quantas pessoas na Ucrânia estão afectadas por cortes de água e de aquecimento neste momento? Os números mudam a cada nova vaga de ataques, mas as autoridades regionais reportam frequentemente centenas de milhares - por vezes mais de um milhão - de pessoas sem água ou sem aquecimento em simultâneo, sobretudo nas grandes cidades.
  • Estes ataques a infraestruturas podem ser considerados crimes de guerra? Atacar infraestruturas civis que não constituem um objectivo militar claro pode violar o direito internacional humanitário; várias organizações de direitos humanos estão a recolher provas para potenciais investigações por crimes de guerra.
  • Porque é que a Rússia se foca na energia e na água em vez de apenas em alvos militares? Danificar sistemas de energia e de água é uma forma de pressionar a população, esticar os recursos da Ucrânia e tentar enfraquecer o apoio ao esforço de guerra, tornando a vida diária extremamente difícil.
  • Que tipo de ajuda está a Europa a enviar para manter os ucranianos aquecidos? Países europeus têm enviado geradores, caldeiras móveis, peças para a rede eléctrica, materiais de isolamento, combustível e também sistemas de defesa aérea concebidos para interceptar mísseis e drones antes de atingirem infraestruturas.
  • O que podem, de forma realista, fazer pessoas comuns fora da Ucrânia? Donativos a ONG credíveis, pressão política junto de eleitos, projectos de geminação entre cidades e manter o tema vivo no espaço público contribuem para um apoio que ajuda a manter luz e radiadores a funcionar.

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