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Cientistas alertam que a grande aposta da China em reflorestação pode prejudicar ecossistemas frágeis.

Agricultor asiático examina muda de planta em campo seco com mapa agrícola num caderno no chão.

Nas colinas gretadas do norte da China, as árvores parecem perfeitas à distância. Fileiras direitas de choupos e pinheiros penteiam o horizonte, transformando encostas outrora amareladas num verde “pronto para fotografia”. O vento passa por entre os troncos com um sibilo suave - um som que, à primeira vista, soa a progresso. Há aldeões que fazem sessões fotográficas de casamento debaixo de árvores jovens que nem existiam há dez anos. Um responsável local aponta, orgulhoso, para a copa recém-formada e chama-lhe a Grande Muralha Verde.

Basta aproximar-se um pouco para a imagem mudar. Debaixo dos pés, a terra está seca como pó. As agulhas caídas acumulam-se como palha morta. Os arbustos nativos desapareceram. E, com eles, também se foram as aves que antes nidificavam naquela vegetação baixa e irregular. O ar cheira menos a floresta e mais a algo cuidadosamente encenado.

A paisagem está mais verde.
Mas há qualquer coisa que não bate certo.

Quando o verde se transforma numa miragem na reflorestação da China

Vistas do espaço, as cores contam uma história sedutora: hoje, a China aparece mais verde do que em qualquer outro momento da era moderna. Faixas enormes de árvores plantadas atravessam planícies poeirentas e desertos em avanço, sinal visível de um Estado que investe milhares de milhões em reflorestação. É uma narrativa que “vende” bem: um país que perdeu floresta a um ritmo vertiginoso passou a liderar o mundo na plantação.

No papel, parece uma redenção. Um regresso à natureza em escala industrial e com uma disciplina quase cirúrgica, depois de décadas a drenar zonas húmidas e a cortar encostas a eito. A política adora fotografias de “antes e depois”. As plataformas digitais adoram manchetes sobre “mil milhões de árvores”. Dá a sensação de que a culpa climática fica paga - e com juros.

No terreno, porém, em regiões como a Mongólia Interior e Gansu, muitos cientistas descrevem algo bem menos triunfal. Falam de “desertos verdes”: áreas que parecem luxuriantes vistas de cima, mas que suportam surpreendentemente pouca vida. Em parcelas experimentais, plantações de uma só espécie - escolhidas por crescerem depressa - sugaram as águas subterrâneas com tal intensidade que os prados nativos começaram a definhar nas margens.

Agricultores relatam a jornalistas que poços usados para rega já não enchem como dantes. Pastores descrevem zonas arenosas a desfazerem-se em pó à volta de árvores sedentas, com raízes profundas e largas. E um levantamento de biodiversidade numa área reflorestada encontrou menos diversidade de insectos e aves do que num matagal natural próximo - feio à vista, mas nunca “corrigido” por plantação.

O problema central está no tipo de floresta que está a ser criado. Uma parte significativa do impulso de reflorestação na China assenta em plantações de monocultura: uma ou duas espécies com valor comercial, plantadas muito juntas, muitas vezes não nativas. São fáceis de contabilizar e óptimas para fotografar. Em contrapartida, podem alterar o ciclo da água, acidificar os solos e deixar o ecossistema frágil perante pragas, secas ou tempestades.

Os investigadores alertam que, quando zonas secas e delicadas são “tapetadas” com árvores muito consumidoras de água onde antes dominavam gramíneas e arbustos, todo o sistema pode inclinar-se para o lado errado. As nascentes encolhem. A camada superficial do solo afina. Plantas nativas, adaptadas a pastoreio e pouca chuva, perdem espaço para linhas uniformes de árvores que nunca pertenceram ali.

Há ainda um efeito frequentemente subestimado: quanto mais homogénea é a plantação, maior tende a ser o risco de falhas em cascata. Uma praga que se especialize naquela espécie, ou uma sequência de anos de seca, encontra um “buffet” contínuo. O resultado pode ser mortalidade em massa, aumento de material combustível no solo e um salto no risco de incêndio - com custos elevados para comunidades que já vivem no limite.

Plantar com mais inteligência - não apenas mais depressa - na Grande Muralha Verde

Os cientistas no terreno não estão a pedir que a China deixe de plantar. Estão a pedir que plante de outra forma. Uma abordagem cada vez mais discutida na investigação é a “restauração por desistência” - isto é, criar condições para que a vegetação nativa recupere por si, em vez de cobrir tudo com plântulas vindas de viveiros centralizados.

Na prática, pode significar vedar encostas sobrepastoreadas para dar descanso às gramíneas locais. Ou semear misturas de sementes de arbustos nativos em vez de descarregar camiões de choupos jovens. Em alguns projectos-piloto, comunidades locais percorrem o território com ecólogos e apontam onde a água tende a ficar, onde antes crescia damasqueiro-bravo, onde as aves costumavam nidificar. Esses mapas, feitos com conhecimento local, moldam os planos de plantação de forma muito mais cuidadosa do que uma meta nacional do tipo “cem mil milhões de árvores até 2050”.

Para responsáveis locais pressionados por quotas, este caminho mais lento e irregular pode parecer arriscado. Uma encosta salpicada de arbustos nativos, tortos e espaçados, não fica tão bem numa fotografia como uma grelha perfeita de pinheiros. E é mais fácil escrever relatórios quando se pode afirmar “50 000 plântulas” do que “regeneração natural parcial com mistura de espécies e números incertos”.

Todos reconhecemos esse impulso: o remendo rápido tem melhor aspecto do que a reparação profunda. No caso da China, o “remendo” pode ser uma manta de árvores altas e uniformes que, de facto, cumpre um critério - carbono - enquanto vai desfazendo outros, como a segurança hídrica e o habitat para a fauna. E o custo real dessas imagens bonitas pode só ficar totalmente exposto quando chegar a próxima grande seca.

Um passo complementar, cada vez mais defendido, é mudar a forma de medir o sucesso. A monitorização não pode ficar só por imagens de satélite e percentagens de copa. Precisa de indicadores no terreno: níveis de água, qualidade e estrutura do solo, diversidade de plantas, insectos e aves, e a resiliência do sistema ao stress climático. Sem isso, é fácil confundir cobertura arbórea com saúde ecológica.

“Cobertura florestal não é o mesmo que uma floresta saudável”, diz um ecólogo baseado em Pequim que há duas décadas estuda as zonas secas chinesas. “É possível produzir madeira e, ainda assim, matar um ecossistema.”

Com base no que se repete nos projectos que correm melhor, regressam sempre alguns princípios simples:

  • Plantar menos árvores nas áreas mais áridas e privilegiar arbustos e gramíneas nativos, bem adaptados e com raízes adequadas ao clima local.
  • Misturar espécies, em vez de apostar numa única “árvore milagrosa” que fica bem em cartazes.
  • Definir metas para água, solo e vida selvagem - não apenas para cobertura de copa ou contagem de plântulas.
  • Incluir pastores e agricultores nas decisões, porque são eles que notam primeiro as mudanças subtis.
  • Permitir que algumas áreas recuperem naturalmente, mesmo que o processo pareça desorganizado e demorado.

A pergunta silenciosa por trás da história de sucesso do verde

O que torna a história da reflorestação na China tão desconfortável é que ela espelha uma tentação global. Governos gostam de números grandes e slogans simples. Os mercados de carbono recompensam contagens de árvores, não a profundidade das raízes ou o som das aves ao amanhecer. E muitos relatórios empresariais de sustentabilidade celebram hectares “plantados” sem perguntar o que, exactamente, cresceu - ou o que morreu em silêncio.

Sejamos francos: quase ninguém lê esses relatórios lustrosos de progresso florestal linha a linha. Passamos os olhos pelos números, sentimo-nos tranquilos e seguimos a nossa vida. É nesse intervalo entre a sensação e a realidade que ecossistemas frágeis se podem partir sem alarme. Quanto mais aplaudimos qualquer verde, mais fácil se torna ignorar a diferença entre uma floresta viva e uma fábrica biológica de troncos idênticos.

Ponto-chave Detalhe Valor para quem lê
Risco da monocultura Plantações de uma só espécie em zonas secas podem drenar águas subterrâneas e reduzir a biodiversidade Ajuda a ir além das manchetes de “plantação de árvores” e a detectar sinais de ecobranqueamento
Regeneração nativa Apoiar arbustos e gramíneas locais e bosques mistos tende a restaurar ecossistemas de forma mais profunda Oferece um modelo mental mais realista do que é a restauração verdadeira no terreno
Para lá da contagem de árvores Florestas saudáveis medem-se por água, solo e vida selvagem, não apenas por cobertura de copa Dá perguntas mais certeiras para avaliar qualquer promessa climática ou de reflorestação em grande escala

Perguntas frequentes

  • Pergunta 1: Porque é que os cientistas se preocupam com a reflorestação da China se o país está mais verde?
  • Pergunta 2: O que é um “deserto verde” e onde aparece na China?
  • Pergunta 3: Árvores não nativas são sempre más para os ecossistemas?
  • Pergunta 4: O que poderia a China fazer de forma diferente para proteger ecossistemas frágeis enquanto planta árvores?
  • Pergunta 5: O que é que as pessoas comuns devem observar quando ouvem falar de campanhas massivas de plantação de árvores?

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