Cientistas tentaram quantificar quantos casos de demência poderão ser provocados por insónia todos os anos - e o valor estimado é comparável ao número de habitantes de uma cidade norte-americana de dimensão média.
Como foi feita a análise: dados de adultos mais velhos nos EUA
Uma equipa de investigadores de várias instituições dos Estados Unidos voltou a analisar dados já existentes de 5.899 pessoas com 65 ou mais anos. Esse conjunto de informação incluía, por um lado, sintomas de insónia auto-reportados e, por outro, “demência provável”, definida a partir de testes de declínio cognitivo e de diagnósticos médicos.
Antes de avançarem para as estimativas, os autores apuraram a frequência de cada condição na amostra: 28,7% das pessoas reportavam insónia e 6,6% preenchiam critérios de demência provável.
Fração atribuível à população (PAF): o que significa e para que serve
O impacto ao nível da população é descrito através da fração atribuível à população (PAF) - isto é, a proporção de doença (ou mortes) numa população que pode ser atribuída a um fator de risco específico. Em termos práticos, a PAF estima a carga de doença que poderia ser evitada se esse fator deixasse de contribuir para o problema.
Como a base de dados usada oferece apenas um retrato num determinado momento (as pessoas não foram acompanhadas ao longo do tempo para observar quem viria a desenvolver demência), os investigadores combinaram esses valores com um indicador de risco relativo proveniente de estudos anteriores. Em média, ter insónia está associado a ser 1,51 vezes mais provável desenvolver demência da doença de Alzheimer.
Insónia e demência: estimativa de impacto em números (PAF = 12,5%)
Com base numa fórmula estabelecida, a equipa calculou a PAF extrapolando os dados do retrato da amostra para representar a população dos EUA e aplicando o multiplicador de risco relativo. O objetivo foi estimar quantos casos de demência, teoricamente, não aconteceriam se a insónia não fosse um fator contributivo.
O resultado apontou para uma PAF de 12,5%, o que corresponde, aproximadamente, a 1 em cada 8 casos de demência em pessoas mais velhas. Aplicando esta proporção aos indivíduos com 65 ou mais anos com demência nos EUA, os autores estimam que 449.069 casos de demência em 2022 poderiam ter sido evitados se a insónia fosse eliminada.
Os investigadores sublinham que, apesar de existirem cada vez mais indícios de ligação entre insónia e demência, até aqui não havia trabalhos a quantificar o impacto da insónia na demência à escala populacional nos Estados Unidos.
O que a PAF assume (e o que não prova)
Para calcular a PAF, é necessário assumir uma relação de causa-efeito - neste caso, que a insónia contribui para a demência. Ao mesmo tempo, os próprios autores reconhecem que a PAF não demonstra causalidade, porque resulta de um modelo matemático assente em várias suposições.
Ainda assim, a métrica é considerada muito útil por traduzir o problema em valores concretos e comparáveis, ajudando a perceber o potencial impacto real da insónia na demência. Além disso, os problemas de sono são encarados como um fator de risco modificável, ou seja, algo que pode ser abordado por pessoas e profissionais de saúde.
Comparação com outros fatores de risco estabelecidos
Os autores consideram as estimativas particularmente relevantes quando comparadas com outros fatores de risco para demência já bem descritos. Por exemplo, Smith e colaboradores reportaram, usando a mesma fonte de dados, uma PAF de 16,9% para perda auditiva moderada ou grave e de 3,9% para perda auditiva ligeira em idades avançadas.
A estimativa de PAF para a insónia (12,5%) situa-se entre estes valores, sugerindo um impacto populacional expressivo e um espaço considerável para intervenções dirigidas à redução da insónia em adultos mais velhos.
Relação bidirecional: insónia pode ser causa e consequência
Há ainda um ponto importante: a ligação entre insónia e demência pode, em parte, ser bidirecional. É plausível que alterações cerebrais associadas ao desenvolvimento de demência também desencadeiem dificuldades de sono, e não apenas o inverso.
Isto torna mais complexo separar o que está a impulsionar a progressão da demência do que pode surgir como consequência. Ainda assim, novos estudos têm vindo a identificar múltiplos fatores de risco, aproximando a ciência de uma compreensão mais clara sobre como a demência se instala e de que forma poderá ser travada.
Diferenças por sexo e idade: maior carga em mulheres e em idades muito avançadas
O estudo encontrou ainda resultados que podem orientar investigações futuras: a carga de demência atribuível à insónia foi ligeiramente superior nas mulheres do que nos homens, e o maior número de casos atribuíveis ocorreu em pessoas com 85 ou mais anos.
Segundo os autores, estes dados apontam para a necessidade de integrar a saúde do sono nos cuidados geriátricos de rotina e nas estratégias de prevenção da demência. Acrescentam que enfrentar a insónia com intervenções direcionadas e específicas por sexo pode ter um papel decisivo na redução do risco de demência à escala populacional.
O que pode ser feito na prática para reduzir a insónia (fator de risco modificável)
Sendo a insónia um fator de risco modificável, faz sentido reforçar abordagens com evidência, como a terapia cognitivo-comportamental para a insónia, a avaliação de medicamentos que possam estar a interferir com o sono e a identificação de condições frequentemente associadas (por exemplo, ansiedade, depressão, dor crónica ou apneia do sono). Em idade avançada, a abordagem tende a beneficiar de acompanhamento clínico, sobretudo quando existe polimedicação.
Também é relevante que programas de prevenção incluam medidas de higiene do sono (regularidade de horários, redução de sestas longas, exposição à luz natural durante o dia, limitação de cafeína e álcool ao fim do dia), não como soluções isoladas, mas como parte de um plano estruturado que aumente a probabilidade de melhoria sustentada.
Limitações e próximos passos para a investigação
Como esta estimativa resulta de um retrato único combinado com valores de risco relativo de estudos anteriores, permanece a necessidade de mais trabalhos longitudinais que acompanhem pessoas ao longo do tempo e clarifiquem melhor o sentido da relação entre insónia e demência. Estudos que distingam tipos de insónia, duração e gravidade, bem como diferentes formas de demência, poderão refinar futuras estimativas de PAF.
A investigação foi publicada nas Revistas de Gerontologia: Série A.
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