Perante a escalada de tensão gerada pela intenção do presidente dos EUA, Donald Trump, de anexar a Groenlândia, a Dinamarca - em coordenação com aliados europeus - está a reforçar a presença militar no Atlântico Norte e no Ártico, avançando agora com o Exercício Arctic Endurance. Segundo o Ministério da Defesa dinamarquês, esta iniciativa traduz uma inflexão relevante na política de segurança para estas latitudes, tanto do ponto de vista de Copenhaga como da OTAN, e enquadra-se nos anúncios previstos para 2025 sobre o fortalecimento das capacidades de defesa na ilha.
Missões de reconhecimento e planeamento no terreno
De acordo com o Ministério, a semana anterior ficou marcada pela chegada inicial de vários aliados para conduzirem missões preparatórias na Groenlândia. As equipas de reconhecimento concentraram-se em analisar a orografia e as condições do terreno, as opções de transporte existentes e múltiplos requisitos logísticos indispensáveis para sustentar operações na região.
Após esta fase preliminar, parte dos destacamentos regressou aos respectivos países para dar seguimento ao planeamento das etapas seguintes do Exercício Arctic Endurance, enquanto outros elementos permaneceram na ilha para apoiar o desenvolvimento contínuo das actividades.
Exercício Arctic Endurance: força principal dinamarquesa, Nuuk e Kangerlussuaq
Foi igualmente indicado que novos contingentes deverão chegar em breve, com o objectivo de acelerar e consolidar as actividades previstas. Entre esses reforços destaca-se o envio de uma “força principal” dinamarquesa, que participará na próxima fase do Exercício Arctic Endurance em conjunto com parceiros da OTAN.
Os planos actualmente avançados por Copenhaga apontam para um posicionamento sobretudo na cidade de Nuuk e áreas envolventes, bem como na zona de Kangerlussuaq, locais com importância prática para apoio logístico, mobilidade e ligação a infra-estruturas essenciais.
Reforços paralelos no Atlântico Norte: Gripen na Islândia e coordenação com o JFC Norfolk
Estas movimentações na Groenlândia ocorrem poucos dias depois de ter sido anunciado o destacamento de caças Gripen da Suécia para a vizinha Islândia, no âmbito da missão de policiamento aéreo da OTAN, onde deverão permanecer durante Fevereiro e Março.
Tal como já foi noticiado, este destacamento irá operar a partir da Base Aérea de Keflavík, actuando em coordenação com o Comando Conjunto de Forças (JFC) de Norfolk, responsável pelo acompanhamento de áreas estratégicas na América do Norte e pela sua ligação transatlântica à Europa.
Presença naval e aérea dinamarquesa: Ejnar Mikkelsen, Vædderen, Bretagne e F-35
Em paralelo, e segundo fontes OSINT referidas em vários relatos recentes, a Marinha Dinamarquesa terá destacado para a região os navios-patrulha HDMS Ejnar Mikkelsen (classe Knud Rasmussen) e HDMS Vædderen (classe Thetis). Terão sido realizados exercícios navais com estas unidades, com participação adicional da fragata francesa Bretagne.
As mesmas fontes sugerem ainda que a Força Aérea Dinamarquesa poderá ter efectuado sobrevoos com os seus mais recentes caças F-35 sobre a região. Contudo, não foram detalhados nem o número de aeronaves envolvidas nem o momento exacto dessas missões, o que alimenta dúvidas, atendendo às grandes distâncias entre o território dinamarquês e a Groenlândia.
Declarações de Donald Trump no Fórum de Davos e a pressão sobre a Groenlândia
Apesar destas medidas iniciais tomadas pela Dinamarca para consolidar a sua presença na Groenlândia, com apoio de aliados europeus, importa sublinhar que o presidente Donald Trump voltou a insistir na intenção de controlar a ilha durante o Fórum de Davos. Na ocasião, descreveu o território como enorme, mas pouco defendido e pouco povoado, defendendo que é decisivo para contrariar a influência chinesa e russa; mais tarde, rejeitou que a motivação estivesse relacionada com os elementos de terras raras existentes na ilha.
Entre as declarações mais polémicas, o presidente afirmou: “O que recebemos da OTAN não foi nada… Ajudamos muito e não recebemos nada em troca. Pagamos 100% das contribuições para a OTAN e tudo o que pedimos é a Groenlândia para defendê-la. O que eu peço é um pedaço de gelo, frio, mal localizado, que possa desempenhar um papel importante na paz mundial.” Noutro momento, acrescentou: “Fiz mais para ajudar a OTAN do que qualquer outra pessoa. Eles não teriam a OTAN se eu não tivesse participado do primeiro mandato… Tudo o que pedimos é a Groenlândia, incluindo a escritura, porque é preciso a escritura para defendê-la.”
O que está em causa no Ártico: logística, vigilância e capacidade de resposta
A crescente actividade na Groenlândia evidencia, acima de tudo, a relevância operacional do Ártico para vigilância, dissuasão e protecção de rotas estratégicas. O ambiente impõe constrangimentos severos: janelas meteorológicas curtas, limitações de comunicações, necessidade de abastecimento regular e uma dependência elevada de infra-estruturas específicas (aeroportos, pontos de reabastecimento e apoio à manutenção). É precisamente por isso que exercícios como o Exercício Arctic Endurance tendem a colocar tanta ênfase em mobilidade, sustentação e prontidão.
Acresce que o reforço de meios nesta região não se resume à vertente militar convencional. Operações de busca e salvamento, monitorização do espaço marítimo e aéreo e coordenação multinacional tornam-se críticas à medida que aumentam a actividade e a competição estratégica no Atlântico Norte. Nesse contexto, a articulação entre forças nacionais, parceiros europeus e estruturas da OTAN ganha um peso acrescido na resposta a incidentes e no controlo situacional.
Imagens usadas para fins ilustrativos
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