Há um número crescente de projetos artísticos atravessados por perdas e por violências que alteram, de forma irreversível, o caminho que parecia já definido. É nesse lugar que se inscreve “Três Poços” (16 e 17, Teatro Rivoli), uma criação de teatro documental assinada por Marco Canale (Buenos Aires) e Miguel Oyarzun (Madrid). O trabalho resultou de um longo processo de residência e de partilha com os wichi, comunidade indígena do sul da Argentina, e procura levar para cena o impacto do extrativismo mineiro naquela região.
Gonçalo Amorim, diretor do FITEI, recorda que o espetáculo tinha estreia marcada num festival argentino, mas acabou por não avançar na sequência da morte de pessoas indígenas - num contexto associado ao isolamento, à falta de assistência e à pobreza em que a comunidade vive. Perante uma realidade assim, que resposta pode o teatro encontrar?
FITEI 2026 e o tema “Colapso e Esperança”
“Colapso e Esperança” é o mote maior do FITEI em 2026, na sua 49ª edição (de 13 a 24 de maio), já em contagem decrescente para o meio século de existência. A escolha não surgiu “à partida”; como explica Gonçalo ao Expresso, o tema apareceu quando reviu a programação e reconheceu os fios comuns que a atravessam.
“O tema dá conta dos diversos colapsos em que estamos”, diz ao Expresso, “tanto humanos como não humanos, crise ambiental, também sistémica, das democracias e da própria saúde mental. E a esperança surge para tensionar estes colapsos”.
Programação: liberdade, memória e crises contemporâneas
Desde o início, o FITEI afirma-se como um festival com forte dimensão política. Este ano, as propostas artísticas - acompanhadas por um programa paralelo amplo, para lá dos espetáculos - cruzam-se com temas como a liberdade, o fascismo, a manipulação da memória e leituras divergentes do passado. Pelo caminho, passam ainda por várias crises: a migratória, a da habitação e a necessidade de proteger os direitos dos trabalhadores.
A abertura faz-se com “Suplicantes”, de Sara Barros Leitão (13 e 14, Teatro do Campo Alegre): uma travessia de fuga por mar, numa reescrita da tragédia de Ésquilo, atualizada a partir do cruzamento do Mediterrâneo e dos pedidos de asilo dirigidos a países do sul da Europa.
Surge também “Manifesto Zombi”, de Santiago Sanguinetti e da Companhia Avó Katiusha (20, Teatro Sá de Miranda, Viana do Castelo; 23 e 24, Teatro Carlos Alberto, Porto), descrito por Gonçalo como “um espetáculo de zombies a piscar o olho à série Z”. O ponto de partida são os 50 anos do golpe de Estado no Uruguai que deu origem à ditadura militar.
No registo do teatro documental, o Hotel Europa apresenta “Habitar” (15 e 16, Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery), centrado na crise da habitação. Já “Desver”, de Joana Craveiro e do Teatro do Vestido (16 e 17, Teatro do Campo Alegre), aborda a ocupação da Palestina a partir de uma viagem realizada pela dramaturga em 2024. E porque o corpo - e a liberdade da sua expressão - atravessa disputas históricas e quotidianas, habitando tanto a crise como a celebração, o festival inclui “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer”, do coreógrafo Victor Hugo Pontes (21 a 24, Teatro Nacional de São João).
Rumo aos 50 anos: um espaço próprio e “Três Poços”
Com a aproximação aos 50 anos, o FITEI avança para a reabilitação de um espaço próprio, na Rua do Campo Alegre, pensado como centro de residências artísticas e de investigação. “Temos esse grande objetivo de chegar aos 50 anos com casa própria para acolher um dos mais importantes arquivos deste triângulo real e imaginário que une a Península Ibérica, a América Latina e a África Lusófona.”
Entre o gesto de guardar e a necessidade de manter vivas as memórias - território que muito do teatro documental tem explorado - está também a história dos wichi, que a dupla Marco Canale e Miguel Oyarzun convoca em “Três Poços”. Quando, durante o processo, morreram três membros da comunidade indígena, surgiu uma pergunta incontornável: o que fazer a seguir? O teatro documental, por natureza, carrega dilemas éticos intensos e exige atenção redobrada.
“Os dois criadores decidiram construir um espetáculo sobre o espetáculo que poderia ter sido”, diz Gonçalo. “Tem qualquer coisa de memorial. É um espetáculo belíssimo. E também sinalizam o que se passa em muitas periferias onde há indústria mineira.” Por isso, em cada nova apresentação, os nomes dessas pessoas são escritos, num gesto de celebração e de afirmação de continuidade: querem continuar a contar as histórias de Amanda, Pedro e Andrés.
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