No próximo ano, a Peugeot quer ter 24 propostas eletrificadas à venda, numa ofensiva que vai ser puxada por modelos como o novo Peugeot 408 e o e-208 renovado - mas que também chega aos veículos de duas rodas e aos comerciais.
Ainda assim, é o inédito 408 que acaba por concentrar grande parte das atenções nesta nova fase da marca francesa, que assume como meta passar a vender apenas automóveis 100% elétricos na Europa a partir de 2030.
Desde o lançamento, o Peugeot 408 entra logo no jogo da eletrificação, com duas motorizações híbridas de carregamento externo. Ao mesmo tempo, já está confirmada uma variante totalmente elétrica, que vai chamar-se e-408.
A isto junta-se uma carroçaria pensada para baralhar as convenções: cruza traços típicos de berlinas e de SUV, sem esquecer uma silhueta de inspiração coupé. O resultado é aquilo a que a marca de Sochaux chama fastback, com linhas desportivas e uma presença visualmente robusta.
Não surpreende, por isso, que o 408 seja hoje o “ponta de lança” da Peugeot na Europa - algo que fica bem visível no Salão Automóvel de Paris deste ano. Quem entra no pavilhão 4 do Mondial de L’Auto depara-se de imediato com uma esfera gigante, com um Peugeot 408 no interior, como se fosse uma instalação artística.
Foi neste contexto que nos sentámos à conversa com Jerôme Micheron, diretor de produto da Peugeot, para falar das expetativas em torno do novo 408, do perfil de cliente que a marca acredita que este modelo vai conquistar, da estratégia de eletrificação e até da saída do segmento dos citadinos.
“Peugeot 408 expressa os valores da marca”
Razão Automóvel (RA) - Vamos começar pelo 408, que é a estrela do evento para a Peugeot. Basicamente ele dá início a uma tendência de misturar os segmentos e os tipos de carroçaria. O quão importante é este carro?
Jerôme Micheron (JM) - Em primeiro lugar este carro é muito importante face ao posicionamento da marca, porque ele realmente consegue expressar o que a marca representa. Nós dizemos que queremos ser uma marca inventiva e quando vês o 408 percebes que conseguimos ser arrojados, audazes e inovadores. E este carro mostra exatamente o que queremos fazer. Por isso ele é muito importante.
Vamos ver qual será o volume de vendas, temos expectativas altas relativas ao 408. Mas ele expressa mesmo os valores da marca. Nós falamos muito acerca do termo Allure (elegante, atrativo) e do facto de queremos ter um desenho arrojado, e isso é chave para nós. Quanto às tendências, este carro atualmente não tem concorrentes.
Somos constantemente questionados acerca da concorrência e de quem queremos alcançar, e a melhor resposta para nós é falar dos clientes. Porque quando pensámos neste veículo e no seu posicionamento tínhamos vários tipos de clientes em mente e o primeiro é um cliente que tem vindo a conduzir vários SUV.
RA: Quem vai comprar o 408?
JM - Um dos trunfos dos SUV é o facto de serem os carros mais modernos que podes comprar. Por isso o desenho do 408 vai atrair compradores de SUV, porque eles sabem que o carro também está a expressar a personalidade deles. Isto é fundamental.
O carro também vem com a sensação de proteção que temos nos SUV, por culpa das rodas grandes e por estarmos sentados numa posição elevada. O carro recupera isso e mistura as tendências de mais refinamento, mais aerodinâmica e mais eficiência. Para nós é uma nova tendência.
RA: Isto é algo que vamos ver noutros segmentos? Podemos esperar, por exemplo, uma solução semelhante baseada no 2008?
JM - Não posso dizer-te o que vamos fazer no futuro. O que posso sim dizer é que olhando para o posicionamento da marca e para o que queremos fazer, vamos ser inovadores. Isso significa que vamos combinar e reinventar alguns segmentos.
Por isso no futuro vais ter alguns surpresas no que toca a novos estilos de carroçaria fortes em desenho e que não serão exatamente a norma. Isso é o que nós estamos a fazer.
RA - Podemos dizer que o 408 é o modelo mais “Peugeot” da atualidade?
JM - Este é o mais recente e por definição o mais recente tem o melhor do que nós estamos a desenvolver. Por isso, a resposta é “sim” para o desenho.
Mas outra coisa que também é consistente é o interior. Quando olhas para o i-cockpit da Peugeot, que é algo que é único, nós estamos a mostrar evoluções a cada novo produto que lançamos. Isso também é algo que é “o mais recente”. Mas consegues perceber de forma clara que está em linha com aquilo que temos vindo a fazer nos últimos anos.
RA - O Peugeot 408 tem potencial para vender mais do que o 308?
JM - É muito difícil de dizer. Hoje em dia o 308 está muito bem instalado no mercado, temos mais de 100 mil encomendas e o carro é ‘top 3’ na Europa. A questão é: qual será a tendência?
Hoje quando pensamos no cliente do 408, como disse no início, temos pessoas a vir dos SUV, pessoas a vir dos compactos ou carrinhas de segmento C e também algumas pessoas a vir do segmento D.
Por isso é realmente difícil fazer uma previsão. Mas fizemos testes com alguns clientes e estamos muito confiantes no potencial do veículo. Podemos ter uma boa surpresa em termos de volume de vendas.
Depois do 508 PSE, um 408 PSE?
RA - Continuando ainda a falar no 408, podemos esperar uma versão PSE (Peugeot Sport Engineered)?
JM - É uma excelente pergunta. Nós temos estudado várias opções para os PSE, mas acabámos de anunciar que vamos muito rápido em direção à eletrificação da gama, com o e-308 e o e-308 carrinha e já anunciámos que vai haver um e-408. Por isso decidimos alocar o investimento para estar o mais rápido possível no mercado com todos os modelos eletrificados.
As versões desportivas são complicadas hoje em dia, porque o volume é muito baixo e há metas de emissões de CO₂ em todo o lado, e por isso justificar versões desportivas é complicado. E como isto é uma corrida para colocar no mercado oferta elétrica, decidimos tê-la em todo o alinhamento e estamos agora a anunciar que em 2023 teremos pelo menos uma versão elétrica em todos os modelos. Esta foi a escolha que fizemos.
Gama 100% eletrificada
RA - Esse é o foco da marca neste momento e a Peugeot tem nesta altura uma das maiores ofertas eletrificadas do mercado com um catálogo de modelos realmente completo. Por isso mesmo podemos dizer que a Peugeot está na melhor forma de sempre?
JM - A oferta está em grande forma porque é muito moderna. Temos elétricos, temos híbridos de carregamento externo. Estamos muito felizes com o nosso catálogo.
RA - Vê algum futuro para os modelos de passageiros com tecnologia de pilha de combustível de hidrogénio?
JM - Estamos a começar com os furgões de mercadorias porque é preciso espaço para instalar todo o sistema da pilha de combustível. O plano agora está mais focado nos furgões de mercadoria. Mas vamos ver. Neste momento a aposta é nos elétricos de passageiros a bateria.
Os citadinos
RA - E o segmento A, o dos citadinos. Existem planos para um novo 108?
JM - Não. Fizemos a nossa escolha porque o volume desceu. Se recuares seis ou sete anos, quando as emissões de CO₂ eram bem mais altas do que agora, podias ter um carro bastante barato sem qualquer tecnologia de eletrificação. Agora, se quiseres ter um modelo de segmento A, precisas de ser híbrido ou elétrico. E feitas as contas, o volume é cada vez mais baixo.
RA - Não faz sentido ter um modelo de segmento A a custar quase o mesmo do que um de segmento B… é isso?
JM - Sim, isso não é racional. É por isso que estamos focados na nossa gama. Queremos trazer toda a tecnologia para o nosso alinhamento, para a eletrificação e também para os sistemas de infoentretenimento. É nisso que estamos a investir.
RA - Mas se me permite, é uma pena, porque a Peugeot tem uma tradição enorme nesse segmento dos pequenos citadinos…
JM - Sim, mas como disseste a diferença entre o segmento A e o segmento B, se tiveres que cumprir com as emissões de CO₂, é mesmo muito pequena.
Peugeot 9X8, um laboratório para o desenho
RA - Mudando o foco para o Peugeot 9X8 hipercarro (que também marcou presença em Paris), o quão importante é ter um carro como este na competição e ter modelos com tecnologia híbrida nas estradas? Isso é algo que ajuda a construir uma imagem, não?
JM - Sim, é claramente a imagem, mas também o impacto. É importante para todo o desenvolvimento porque saber como desenvolver um híbrido com este nível de desempenho é fundamental. Mas é também um laboratório para o desenho.
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