A Smart de hoje está longe da marca que muitos recordam. Criada para agitar a mobilidade urbana com um citadino de dois lugares, a empresa reinventou-se nos últimos anos como produtora de SUV elétricos - progressivamente maiores e cada vez mais distantes do conceito que a transformou num ícone. E essa mudança não está a dar os resultados esperados.
Os números de 2025 na Europa confirmam a dificuldade: a Smart matriculou apenas 13 100 unidades, o que representa uma descida de quase 50% face ao ano anterior. Num cenário de concorrência intensa, pressionado por tarifas sobre veículos elétricos produzidos na China e por uma adoção elétrica menos linear do que se previa, tornou-se claro que a estratégia teria de ser ajustada.
É neste enquadramento que 2026 se perfila como um ano-chave. Na Europa, a marca continua, para já, 100% elétrica - embora na China já tenha apresentado um híbrido plug-in -, mas prepara um regresso assumido às origens. O plano chama-se Smart #2 e recupera a fórmula do fortwo: um citadino de dois lugares pensado para voltar a dar identidade, presença e, sobretudo, relevância à marca num dos mercados mais difíceis do mundo.
Smart #2 e o regresso ao formato que definiu a Smart
Após vários anos a apostar sobretudo em SUV - #1, #3 e, mais recentemente, #5 -, a Smart volta a concentrar-se num automóvel desenhado de raiz para a cidade, compacto tanto nas medidas como na filosofia. O Smart #2 acaba por ser mais do que uma simples novidade de gama: é uma tentativa direta de recuperar o ADN que se foi esbatendo desde a saída de cena do fortwo, em 2024.
A estreia do #2 já está próxima. A apresentação está marcada para abril, no Salão de Pequim (de 24 de abril a 3 de maio). Apesar de a revelação estar ao virar da esquina, a verdade é que ainda existe pouca informação pública sobre o novo modelo.
Aquilo que já foi confirmado passa pela chegada de uma plataforma inédita, a Electric Compact Architecture (ECA). Esta base foi desenvolvida especificamente para manter as proporções e as dimensões ultracompactas que caracterizavam o fortwo original.
Quanto ao desenho, a Smart garante que a silhueta será imediatamente identificável, ao mesmo tempo que promete “um interior e exterior totalmente redesenhados” e uma “identidade totalmente renovada”. Para já, não foram divulgadas outras especificações - e, por isso mesmo, o #2 será o verdadeiro teste à nova direção estratégica da Smart.
Num segmento urbano europeu cada vez mais exigente, um citadino de dois lugares pode voltar a fazer sentido por razões muito concretas: menor dificuldade em estacionar, maior agilidade em centros históricos e melhor adequação a zonas de emissões reduzidas. Se a Smart conseguir aliar estas vantagens a um preço competitivo e a uma proposta elétrica convincente, o #2 poderá voltar a ser um produto distintivo num mercado onde muitos elétricos se aproximaram, em tamanho e posicionamento, de veículos familiares.
Outra variável relevante será a forma como o Smart #2 se encaixa em soluções de mobilidade urbana - como car-sharing e frotas empresariais -, onde a eficiência de utilização e os custos totais pesam tanto como a autonomia. Um modelo ultracompacto, elétrico e pensado para cidade tem potencial para ser valorizado por operadores que procuram veículos fáceis de gerir, robustos e adequados a percursos curtos e repetitivos.
Uma mudança de rumo num contexto exigente
A viragem coincide também com uma alteração na liderança. Wolfgang Ufe passou a liderar a Smart Europa a 1 de março, com um objetivo inequívoco: recuperar volume de vendas e relevância num dos mercados mais competitivos do mundo.
O desafio, no entanto, vai além da quebra comercial. A Smart enfrenta um entrave estrutural ligado às tarifas europeias aplicadas a veículos elétricos fabricados na China. Como todos os modelos da marca são produzidos naquele país, ficam sujeitos a uma taxa adicional de 18,8%, que se soma aos 10% de base - um custo com impacto significativo numa gama exclusivamente elétrica.
Ainda assim, a estratégia na Europa mantém-se: a Smart continua a ser 100% elétrica. A diferença estará na prioridade definida: em vez de procurar crescer com modelos cada vez maiores, o #2 volta a apostar na especialização urbana como elemento diferenciador. É, em certa medida, o regresso da Smart ao ponto de partida… para poder avançar com mais coerência.
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