Viver com um(a) parceiro(a) raramente significa partilhar apenas a casa, as rotinas e alguns gostos. Na prática, é provável que também estejam a “trocar” uma parte dos microrganismos microscópicos que vivem na e dentro do corpo.
Esse conjunto de microrganismos - sobretudo bactérias, mas também vírus e fungos - é conhecido como microbioma humano. Existem vários microbiomas distribuídos pelo organismo, e todos eles contribuem de forma importante para a saúde.
Desde o nascimento, o microbioma humano vai sendo moldado pelas interacções com a mãe, que nos transmite uma diversidade de microrganismos essenciais para a construção do sistema imunitário e para o desenvolvimento do aparelho digestivo. Com o passar dos anos, o contacto social com as pessoas próximas continua a influenciar este ecossistema delicado.
Quem vive connosco tem um peso considerável na composição do nosso microbioma. Aliás, estima-se que, só no intestino, os parceiros possam partilhar cerca de 30% dos micróbios residentes.
E não é apenas o microbioma intestinal que tende a convergir. Microrganismos de outras zonas do corpo também podem tornar-se mais parecidos entre duas pessoas que partilham a vida - algo que, em teoria, pode repercutir-se na saúde.
Um ponto adicional a ter em conta é que a partilha não acontece apenas por contacto directo: o ambiente doméstico (superfícies, têxteis, casas de banho, cozinhas) funciona como um “reservatório” de micróbios que circulam entre pessoas. Rotinas comuns - como horários de sono, produtos de higiene, e até a ventilação do quarto - podem influenciar o que prospera em cada microbioma.
Também importa lembrar que os estudos nesta área observam associações e padrões populacionais: nem sempre conseguem separar por completo o impacto da coabitação de factores como idade, medicação, alimentação, stress ou condições de saúde pré-existentes. Ainda assim, o conjunto de resultados aponta para uma mensagem consistente: viver junto deixa uma assinatura microbiana mensurável.
Microbioma intestinal
A alimentação e o estilo de vida são, em geral, considerados os factores mais determinantes na composição do microbioma intestinal. Mesmo assim, estudos com casais mostram que a coabitação, por si só, também pode influenciar o microbioma.
Em pessoas que vivem juntas, verificou-se uma sobreposição de 13% a 30% das bactérias intestinais. Este efeito manteve-se mesmo quando os investigadores controlaram a alimentação (que, em muitos casais, é semelhante). Outros dados indicam ainda que quem coabita tende a apresentar maior diversidade microbiana do que quem vive sozinho.
Para casais que partilham casa, isto pode ser uma boa notícia: uma maior diversidade no microbioma intestinal está associada a menor risco de síndrome do intestino irritável, doenças cardiovasculares e, possivelmente, níveis elevados de açúcar no sangue.
No entanto, a história não é sempre linear. Há bactérias que aparecem com frequência em ambos os membros do casal, mas cujo impacto pode variar.
Um exemplo vem da família Ruminococcus. Algumas espécies de Ruminococcus são consideradas benéficas, ao passo que outras foram associadas a resultados menos favoráveis, incluindo diabetes e síndrome do intestino irritável.
Isto sugere que o mesmo grupo bacteriano nem sempre traz vantagens idênticas em diferentes populações, o que sublinha a complexidade das bactérias residentes no intestino e dos seus efeitos na saúde.
Microbioma oral
Partilhar o microbioma oral com o(a) parceiro(a) pode parecer óbvio, tendo em conta que o beijo envolve troca de saliva. Um beijo de apenas 10 segundos pode transferir até 80 milhões de bactérias. E, regra geral, quanto mais vezes um casal se beija, maior tende a ser a proporção de bactérias salivares em comum.
Embora muitas dessas bactérias sigam rapidamente da boca para o intestino quando engolimos saliva, a investigação mostra que os casais acabam por partilhar também micróbios mais persistentes - por exemplo, microrganismos da língua que ajudam a formar a base do microbioma oral. Alguns trabalhos sugerem mesmo que, em casais que vivem juntos, 38% do microbioma oral pode ser partilhado, em comparação com apenas 3% em casais que não coabitam.
Ter uma parte tão significativa do microbioma oral em comum pode traduzir-se em vários efeitos possíveis na saúde.
Um microbioma oral equilibrado é relevante para a protecção contra as cáries e está associado a propriedades anti-inflamatórias. Há também investigadores que defendem que os efeitos do microbioma oral podem ir além da cavidade oral, com impacto potencial no intestino e no sistema nervoso.
Por outro lado, nem todos os microrganismos partilhados são necessariamente inofensivos. Observou-se que casais apresentam mais frequentemente contagens semelhantes de bactérias do género Neisseria no intestino, quando comparados com pessoas solteiras. A Neisseria pode permanecer na boca durante longos períodos sem provocar doença.
Ainda assim, algumas bactérias Neisseria podem ser prejudiciais e causar meningite. Curiosamente, outras Neisseria podem ajudar a travar as estirpes associadas à meningite, impedindo que se multipliquem em excesso e causem dano.
Por razões evidentes, é sensato evitar beijar alguém que esteja doente. Mas estes dados lembram que mesmo um beijo entre duas pessoas saudáveis pode servir de via para a transferência de muitos tipos de bactérias em ambas as direcções.
No fim, são necessários mais estudos para compreender o efeito global que a partilha destas bactérias com o(a) parceiro(a) tem, de facto, na saúde.
Microbioma da pele
O microbioma da pele é, de todos, um dos mais singulares e personalizados - por vezes até descrito como uma espécie de “impressão digital microbiana”.
Por ser o microbioma mais exposto, o microbioma da pele evoluiu no sentido de se adaptar a factores externos, como o clima e os produtos cosméticos. Ainda assim, estas comunidades microbianas tendem a esforçar-se por manter um equilíbrio estável.
O contacto próximo com o(a) parceiro(a) - e até com animais de companhia - altera de forma marcada quais as bactérias que vivem na nossa pele. Quando compararam o microbioma intestinal e o microbioma oral, investigadores concluíram que o microbioma da pele era, afinal, o mais semelhante entre casais.
E não se trata apenas da pele das mãos ou dos braços. Há estudos a indicar que os casais partilham 35% das bactérias presentes nos pés e cerca de 17,5% das bactérias encontradas nas pálpebras.
Além disso, nem sempre é preciso tocar no(a) parceiro(a) para passar a ter bactérias de pele parecidas. Dormir na mesma cama e caminhar em superfícies semelhantes são factores apontados como explicação para a grande semelhança observada.
Isto acontece porque os seres humanos libertam bactérias para o ambiente de forma natural, de modo comparável à forma como os cães largam pêlo. Deixamos vestígios microbianos em tudo o que tocamos - e, ao mesmo tempo, apanhamos com facilidade micróbios do espaço onde vivemos.
O impacto da coabitação no microbioma da pele é tão expressivo que investigadores conseguiram usar modelos computacionais para prever com precisão 86% dos casais que viviam juntos, apenas com base nas amostras bacterianas individuais.
Apesar de ser evidente que os casais partilham grande parte do microbioma da pele, ainda não se sabe ao certo qual é o efeito clínico desta semelhança.
Partilhar bactérias: motivo de alarme?
À primeira vista, a ideia de trocar bactérias com o(a) parceiro(a) pode parecer preocupante, mas muitas vezes não há razão para ansiedade. As bactérias ajudam o organismo a aprender a combater infecções, apoiam a digestão e até participam na produção de nutrientes essenciais. Os microrganismos que partilhamos com quem vive connosco são frequentemente inofensivos e, em alguns casos, podem contribuir para a saúde em vez de a prejudicar.
Conor Meehan, Professor Associado de Bioinformática Microbiana, Universidade Nottingham Trent, e Janelle Mwerinde, Doutoranda, Microbiologia da Pele, Universidade Nottingham Trent
Este artigo foi republicado de A Conversa ao abrigo de uma licença Commons Criativa. Leia o artigo original.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário