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A Huawei vai mesmo desaparecer da Europa? A UE terá de decidir.

Mesa de reunião com documentos, telemóvel, óculos e uma bandeira da União Europeia ao fundo.

A advogada-geral do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) apresentou as suas conclusões: os Estados europeus podem banir a Huawei das suas redes de telecomunicações. Trata-se de uma posição jurídica que a própria União Europeia poderá vir a acompanhar, caso o tribunal confirme esta linha de entendimento.

Huawei na mira da União Europeia e da segurança nacional

A hipótese de a Huawei desaparecer por completo do panorama europeu volta a ganhar força. O grupo tecnológico, frequentemente acusado no Ocidente de manter ligações estreitas com o Governo chinês, tem sido alvo de escrutínio há vários anos - um olhar que se intensificou após as medidas impostas pelos Estados Unidos em 2019, durante a administração de Donald Trump. O novo desenvolvimento surgiu a 19 de março, quando a advogada-geral do TJUE divulgou um parecer que reconhece margem de actuação aos Estados-membros para restringirem ou excluírem equipamentos do fabricante.

O caso da Estónia que chegou ao TJUE

Para perceber a sequência dos acontecimentos, é preciso recuar a uma decisão tomada na Estónia. As autoridades estónias determinaram a remoção - ou a proibição de utilização - de certos componentes da Huawei nas redes de telecomunicações do país, invocando razões de segurança nacional.

A medida foi contestada pela operadora local Elisa Eesti, que tinha infra-estruturas a funcionar com antenas do fabricante. Apesar de ter sido concedido um regime transitório para a continuidade de utilização em determinadas condições - com prazos que podem ir até 2029 para algumas frequências - o litígio acabou por levar o tribunal de Tallinn a solicitar ao TJUE uma orientação sobre a compatibilidade destas restrições com o direito da União.

O que diz o parecer: exclusão possível, mas com critérios e controlo judicial

Ao analisar o processo, a advogada-geral Tamara Ćapeta concluiu que qualquer Estado-membro pode excluir hardware e software das suas infra-estruturas de telecomunicações quando entenda existir um risco para a segurança nacional associado ao fabricante desses equipamentos.

Contudo, esse poder não é ilimitado. O parecer sublinha que a decisão deve estar sujeita a controlo jurisdicional rigoroso e assente numa avaliação de risco que não utilize critérios diferentes daqueles que seriam aplicados a um fornecedor europeu. Em termos práticos: a Huawei deve ser tratada de forma equitativa, mas isso não impede a sua exclusão quando existam fundamentos objectivos.

O texto é claro noutro ponto essencial: não basta invocar uma “suspeita geral”. Os Estados terão de demonstrar, com base em elementos concretos, que existe efectivamente um risco de segurança antes de impor um banimento ou restrições equivalentes.

Por fim, o parecer indica também que os operadores que trabalharam com a Huawei e que deixem de poder fazê-lo não ganham, por esse motivo isolado, um direito automático a indemnização decorrente da exclusão.

Ainda não é uma decisão: o TJUE pode seguir (ou não) o parecer

Importa notar que estas conclusões não correspondem, por si só, a uma decisão final. O processo segue agora para apreciação do TJUE, que poderá adoptar a posição da sua advogada-geral ou afastar-se dela. A decisão do tribunal é esperada nas próximas semanas ou meses.

Um tema sensível nas redes 5G e nas políticas europeias

A presença da Huawei nos equipamentos de telecomunicações tem sido, há muito, um assunto delicado. Enquanto nos Estados Unidos foi aplicada uma abordagem mais dura com medidas restritivas, na União Europeia a resposta tem variado entre prudência e proibições directas.

Em França, a instalação de antenas 5G passou a estar sujeita a controlos apertados desde 2019, criando incentivos para que os operadores recorram a alternativas à Huawei. Já a Suécia optou por uma proibição total em 2020.

Impacto prático: custos, migrações tecnológicas e opções de fornecedores

Caso os Estados-membros avancem com exclusões mais abrangentes, os operadores poderão ter de realizar migrações técnicas complexas, substituindo componentes de rede e reconfigurando serviços - um processo que pode afectar prazos de implementação, sobretudo em projectos de 5G, e aumentar custos operacionais. Daí a relevância de períodos transitórios, como o referido no caso estónio, que procuram equilibrar segurança e continuidade do serviço.

Também se torna mais central a estratégia europeia de diversificação de fornecedores e de resiliência da cadeia de abastecimento. Na prática, decisões nacionais podem reforçar a dependência de um número mais reduzido de fornecedores alternativos e acelerar debates sobre autonomia tecnológica, certificação de segurança e requisitos comuns a nível europeu.

A posição da Huawei

A Huawei tem reiterado, ao longo dos anos, que rejeita acusações de espionagem e nega actuar sob instruções de Pequim.

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