A indústria automóvel europeia continua a viver uma fase particularmente exigente e o mercado de trabalho está a espelhar, de forma cada vez mais nítida, essa pressão. Na Alemanha - o maior mercado automóvel da Europa e um dos principais pilares industriais do continente - o emprego no setor automóvel caiu para o valor mais baixo em mais de uma década.
Segundo dados do Destatis, o gabinete federal de estatísticas alemão, no final de setembro existiam 721 400 trabalhadores na indústria automóvel (incluindo fornecedores). Este total representa o patamar mais reduzido desde meados de 2011, quando tinham sido contabilizados 718 mil empregados.
Em termos homólogos, a quebra é expressiva: face a 2024, registou-se menos 48 700 pessoas empregadas, o que corresponde a uma descida de 6,3%. De acordo com o Destatis, trata-se de uma das maiores retrações entre os setores com mais de 200 mil trabalhadores.
Alemanha e indústria automóvel: o que está em causa?
Esta descida está ligada ao desaparecimento de dezenas de milhares de postos de trabalho em toda a cadeia da indústria automóvel, refletindo um contexto económico e industrial desfavorável.
Um exemplo relevante é o Grupo Volkswagen, o maior fabricante automóvel alemão. Desde 2023, a empresa reduziu o efetivo em mais de 11 mil colaboradores nas 10 fábricas que mantém na Alemanha. Além disso, prevê eliminar 35 mil postos de trabalho até 2030, sendo que 25 mil desses cortes já terão sido definidos em acordos contratuais, segundo a Automobilwoche.
A tendência foi resumida por Cyrus de la Rubia, economista-chefe do Hamburg Commercial Bank, em declarações à Reuters: “A recessão prolongada na indústria está claramente refletida nas tendências de emprego”.
Peso do setor na indústria fabril alemã
Apesar da quebra no emprego, a indústria automóvel continua a ser o segundo maior setor fabril da Alemanha em número de trabalhadores. Só fica atrás da engenharia mecânica, que emprega 934 200 pessoas.
No conjunto, a indústria fabril alemã contava com 5,43 milhões de trabalhadores no final de setembro. Ainda assim, este total representa uma redução de 2,2% face ao ano anterior - menos 120 300 pessoas.
Sinais de recuperação nas perspetivas
Mesmo com a contração do emprego na indústria automóvel alemã, começam a surgir indícios de melhoria no sentimento empresarial. Em outubro, um inquérito do Instituto ifo mostrou que o índice de clima empresarial do setor automóvel subiu de -21,3 pontos em setembro para -12,9 pontos, sugerindo uma ligeira melhoria das expectativas.
A par dos fatores conjunturais, o setor continua a lidar com mudanças estruturais, como a transição tecnológica e a reorganização de cadeias de fornecimento, que tendem a redistribuir necessidades de mão de obra entre áreas de produção, engenharia, software e eletrificação.
Ao mesmo tempo, a capacidade de recuperação dependerá não só do ritmo da procura e do investimento industrial, mas também de condições como acesso a energia competitiva, disponibilidade de competências técnicas e previsibilidade regulatória - elementos que influenciam diretamente decisões de produção e emprego na Alemanha e, por arrasto, na indústria automóvel europeia.
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