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Entrámos no armazém secreto da Renault

Carro desportivo elétrico concept Renault 2027 branco exposto em sala moderna com automóvel clássico ao fundo.

Paris continuará a ser sinónimo de moda e de arte, mas a partir de 2027 passará também a ser um destino obrigatório para quem quer conhecer, de perto, mais de um século de história da Renault. Fundada em 1899 pelos três irmãos Louis, Marcel e Fernand, a marca francesa prepara-se para abrir ao público, pela primeira vez, a sua coleção privada.

Ao longo de mais de 125 anos, a Renault foi acumulando um património notável: centenas de veículos históricos que atravessam diferentes épocas e disciplinas - do Type A (o primeiro Renault de sempre) aos monolugares de Fórmula 1, passando pelos protótipos de Le Mans e pelos inesquecíveis R5 que deixaram marca nos ralis.

A marca descreve este futuro espaço como “uma ponte entre o passado e o futuro”. Até à inauguração, a coleção continua guardada num armazém onde, durante décadas, a Renault preservou a sua memória - e foi aí que, depois de alguma insistência (com a Renault Portugal também a ajudar), se tornou possível registar em vídeo parte deste acervo.

Renault em Flins: escolha natural para contar a história

Um legado tão vasto pedia um palco à altura - e esse palco já está a ganhar forma. As obras para o novo espaço já arrancaram e a abertura está prevista para daqui a dois anos.

A escolha recaiu sobre Flins, nos arredores de Paris, um local com um peso histórico especial para a Renault: desde 1952, ali foram produzidos mais de 18 milhões de veículos. Hoje, Flins é também reconhecida como um polo de economia circular, a Refactory, o que reforça a ligação entre preservação, transformação e futuro.

É neste contexto que a história da Renault terá um espaço permanente, instalado num edifício desenhado pelo arquiteto francês Jacob Celnikier. A ideia é que a visita funcione como uma verdadeira viagem no tempo - feita sobre quatro rodas, mas também através da arte e dos objetos que moldaram a identidade da marca.

Um “muro automóvel” para revelar a coleção

O complexo será organizado em seis volumes interligados e contará com uma fachada translúcida, concebida para permitir ver, do exterior, parte do que está guardado no interior.

Um dos elementos mais marcantes será um “muro automóvel”: centenas de veículos arrumados em paletes, visíveis de fora, que prometem tornar-se a imagem e a alma do espaço. A infraestrutura incluirá ainda um ateliê de restauro e várias áreas dedicadas a arquivo.

A Renault, porém, não quer limitar-se ao modelo clássico de museu. A ambição passa por criar uma experiência de imersão total, com realidade virtual, exposições temáticas e um acervo documental impressionante: mais de 2400 metros lineares de documentos, além de troféus, miniaturas, brinquedos, livros e peças de design.

Arte e cultura popular no ADN da Renault

A ligação da Renault à criação artística não é um detalhe - é parte da sua narrativa. Por isso, este espaço vai integrar fotografia, obras de arte, esculturas e até criações de artistas urbanos, sublinhando como a marca dialogou (e continua a dialogar) com o imaginário coletivo.

Esta dimensão cultural ajuda a enquadrar a influência da Renault para lá da engenharia: não apenas nos automóveis que colocou na estrada, mas também na forma como esses modelos entraram na cultura popular e no quotidiano de várias gerações.

Automóveis no centro de tudo (e a maioria operacional)

Apesar do carácter eclético, há um elemento que estará inevitavelmente no centro: os automóveis. A coleção da Renault reúne centenas de veículos históricos e, de forma notável, a maioria mantém-se totalmente operacional.

Isto é possível graças a uma equipa dedicada de seis técnicos que trabalham de forma permanente na conservação e no restauro, garantindo que os automóveis chegam a 2027 em condições de serem apresentados ao público - não como peças estáticas, mas como máquinas vivas.

Entre os modelos mais emblemáticos, destaca-se o Type A de 1898, reconhecido como o primeiro Renault de sempre. Do lado da competição, há referências incontornáveis: o primeiro monolugar da marca a vencer um Grande Prémio de Fórmula 1, o vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1978 e o mítico Renault 5 Maxi Turbo que brilhou com Jean Ragnotti ao volante.

Um dos exemplares mais raros é o protótipo Renault Espace F1 (existem apenas duas unidades em todo o mundo). Foi criado em 1995 para assinalar o décimo aniversário do monolugar e recebeu o motor V10 do Williams-Renault FW15C. Em algumas corridas do Mundial de Fórmula 1, chegou mesmo a desempenhar funções de Safety Car.

O que este projeto pode significar para visitantes e para a preservação

Ao tornar este património acessível, a Renault abre também uma oportunidade rara para observar como se conserva e se mantém operacional uma coleção histórica desta dimensão. Para muitos visitantes, o interesse não estará apenas nos modelos expostos, mas também no “trabalho de bastidores”: métodos de restauro, preservação de materiais e organização de arquivo.

Além disso, o facto de o projeto nascer em Flins, num ecossistema ligado à Refactory e à economia circular, acrescenta uma camada contemporânea à narrativa: preservar história não é só celebrar o passado - é também pensar na forma como se gere, reutiliza e prolonga o ciclo de vida de objetos com valor técnico e cultural.

Faltam dois anos para 2027

Ao abrir a sua coleção privada ao público, a Renault não se limita a assinalar marcos antigos: reforça uma identidade que quer projetar no futuro.

Ao transformar o acervo num espaço acessível e interativo, a marca convida a revisitar momentos decisivos da sua trajetória e a perceber como, ao longo de mais de um século, ajudou a moldar a indústria automóvel e a cultura popular.

Em 2027, Flins tem tudo para se afirmar como uma nova paragem obrigatória para quem gosta de carros, arte e boas histórias. E, pelo ritmo do que a Renault tem vindo a fazer nos últimos anos, fica a sensação de que este capítulo é apenas mais um - e não o final.

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