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Quando sente que é “demasiado”: de onde vem a ideia e como deixar de se encolher

Grupo de amigos num terraço ao pôr do sol, com uma pessoa a falar em pé e os outros sentados a ouvir.

Está a meio de uma história - mãos no ar, voz mais viva, entusiasmo a crescer - e repara logo.
Aquele microbrilho nos olhos que desaparece. O olhar rápido para o telemóvel. O sorriso educado que parece dizer: “Uau… tu és… muita coisa.”

O peito afunda um pouco. A meio da frase, começa a censurar-se. Corta as piadas. Baixa o tom. Esconde a alegria como se fosse embaraçosa.

Mais tarde, no caminho para casa, a mesma frase repete-se em loop: “Eu sou mesmo demasiado.”
Demasiado barulhento, demasiado emotivo, demasiado sensível, demasiado intenso.

Abre o Instagram e vê pessoas a repetir “sê tu próprio”, e fica a pensar, em silêncio: “E se eu, sendo eu, for exactamente aquilo que afasta os outros?”

A ideia dói, porque há uma parte secreta de si que tem medo de que isto seja verdade.

Onde nasce, em segredo, a sensação de ser “demasiado”

Esta crença quase nunca aparece do nada.
A maior parte das pessoas que se sente “demasiado” consegue seguir o rasto até sinais pequenos, mas repetidos, durante a infância: um revirar de olhos quando estavam entusiasmadas, um “shiu” quando choravam, um “estás a exagerar” quando apenas estavam a sentir algo grande.

Isoladas, estas frases parecem inofensivas.
Empilhadas ao longo de anos, começam a soar como uma sentença: a sua intensidade natural é um problema que tem de ser controlado.

Não é que acorde um dia a odiar o volume das suas emoções.
Vai aprendendo, devagar, que as suas “pontas” são terreno perigoso para os outros.

Imagine uma criança que chega da escola a transbordar para contar uma história.
Fala depressa, gesticula, revive cada pormenor como um pequeno fogo-de-artifício.

Um pai ou uma mãe exausto, já sem margem, interrompe: “Não fales tão alto. Acalma-te. Estás a ser dramático.”
Não houve intenção de magoar. Naquele momento, a casa precisava de silêncio.

A criança não ouve “estou cansado”.
O que ela ouve é: “Tu, como és, és demasiado para eu lidar.”

Some a isto professores que elogiam “os bons alunos, quietinhos”, amigos que dizem “és intenso” como se fosse um aviso, e os primeiros parceiros que atiram: “tu importas-te demasiado.”
Quando chega à idade adulta, a narrativa já está escrita: “Se eu mostrar tudo o que sou, vou esmagar as pessoas.”

A psicologia dá nome a isto: um guião de vergonha.
É uma história silenciosa e automática que transforma traços naturais em supostos defeitos.

Muitas pessoas que se sentem “demasiado” cresceram em ambientes onde os outros tinham pouca capacidade emocional. Não eram más pessoas. Apenas tinham baixa tolerância para barulho, lágrimas, conflito, ou alegria que transbordasse.

E assim, a criança assume uma função sem se aperceber: encolher, suavizar, pré-editar.
O seu sistema nervoso começa a “varrer” cada sala à procura de sinais de que passou uma linha.

Com o tempo, isto deixa de parecer uma escolha.
Passa a parecer bom senso: proteger os outros do impacto total de quem é - ou perdê-los.

Há ainda um detalhe importante: “ser intenso” não é o mesmo que “não ter limites”. Intensidade é energia, presença e emoção; falta de limites é não respeitar o espaço do outro. Confundir as duas coisas faz com que tente apagar-se, quando na verdade só precisa de ajustar a forma e o momento.

Como deixar de se diminuir sem perder ligação (e sem se tornar “demasiado” para si)

Um gesto simples, mas radical, é este: parar a auto-desculpa automática.
Repare quantas vezes diz “Desculpa, estou a divagar”, “Desculpa, falo demais”, “Desculpa, estou a ser dramático”.

Durante uma semana, mantenha as histórias e os sentimentos - mas retire o “desculpa”.
Pode continuar a ler o ambiente, continuar a ser educado, continuar a dar espaço ao outro para falar.
Só não vai insultar-se à frente de ninguém.

Essa alteração pequena dá ao cérebro uma mensagem nova: a minha intensidade pode ser muita, mas não está errada.
Não está a obrigar ninguém a adorar isso. Está apenas a recusar carimbar-se como “defeito” antes de a outra pessoa ter oportunidade de o conhecer.

Um grande “engancho” para quem se sente “demasiado” é a sobrecorrecção.
Passa de partilhar com abertura para fechar por completo, convencido de que ser mais silencioso vai protegê-lo.

O que costuma acontecer é o contrário: instala-se uma desconexão estranha.
Você sente-se invisível; o outro sente que nunca o conhece de verdade; e vai crescendo, baixinho, ressentimento dos dois lados.

Uma abordagem mais gentil é ajustar a expressão, não apagá-la.
Pode dizer: “Tenho muitas emoções sobre isto, tens espaço para me ouvir?” ou “Vou começar um desabafo, alinhas?”

Continua a ser você.
A diferença é que acrescenta consentimento e colaboração - em vez de auto-anulação.

Muitas vezes diagnosticamos a nossa personalidade como “demasiado”, quando o problema real é termos passado anos em relações “a menos” para nós.

Também ajuda lembrar que o corpo influencia a forma como somos recebidos. Se notar que está a acelerar (voz mais alta, respiração curta, urgência), experimente uma pausa de 10 segundos: pés bem assentes no chão, uma expiração lenta, e só depois continue. Não é para “se calar”; é para ganhar controlo e clareza sem perder autenticidade.

  • Repare no seu padrão
    Anote três momentos deste mês em que se sentiu “demasiado”. O que aconteceu exactamente? Quem disse o quê?

  • Questione a sentença
    Pergunte: “Eu fiz realmente mal a alguém, ou alguém atingiu o limite pessoal dele?” Não é a mesma coisa.

  • Experimente com pessoas mais seguras
    Mostre um pouco mais do seu “eu inteiro” a alguém que já demonstrou calor e curiosidade. Observe a reacção, em tempo real.

  • Defina um limite discreto
    Se alguém continua a gozar com a sua intensidade, diga: “Quando me chamas ‘demasiado’, eu sinto-me pequeno. Preciso de mais respeito em relação a isto.”

  • Deixe o desconforto ser dados, não uma pena perpétua
    Sentir-se estranho ao ocupar espaço não significa que está errado. Muitas vezes significa que está a crescer.

Aprender que o seu “demasiado” é o certo para as pessoas certas (intensidade emocional incluída)

Há um momento - muitas vezes no final dos vinte ou ao longo dos trinta - em que conhece alguém que não encolhe perante a sua grandeza.
Você despeja histórias, preocupações, pensamentos estranhos de madrugada e, em vez do sorriso tenso de sempre, vê os olhos dessa pessoa a acenderem.

Ela inclina-se para perto.
Faz perguntas.

Depois, é possível que fique quase desconfiado.
“Foi fácil demais. Eu partilhei coisas a mais? Vai arrepender-se de se aproximar de mim?”

Isto acontece quando passou anos a ver o seu volume natural como um risco.
A compatibilidade verdadeira, ao início, parece falsa - porque está habituado a esforçar-se para caber.

Um sinal prático: quando está com as pessoas certas, não precisa de fazer “gestão” constante de si. Pode ajustar, sim, mas não se sente obrigado a amputar partes inteiras da sua personalidade para manter a ligação.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
As crenças nascem de sinais repetidos O “demasiado” costuma começar com comentários na infância e limites emocionais em casa Ajuda a parar de culpar a sua personalidade e a ver o contexto mais amplo
A auto-edição torna-se automática As pessoas começam a encolher histórias, necessidades e emoções em qualquer sala Faz as reacções actuais parecerem menos “malucas” e mais compreensíveis
É possível criar guiões novos Cortar auto-desculpas, pedir consentimento e escolher ambientes melhores Dá formas concretas de aparecer por inteiro sem se sentir um peso

Perguntas frequentes

  • Sentir-me “demasiado” significa que sou tóxico?
    Não, não automaticamente. Ser intenso ou expressivo não é o mesmo que fazer mal. Comportamento tóxico tem mais a ver com padrões de desrespeito, manipulação ou crueldade - não com sentir fundo ou falar com paixão.

  • Porque é que só me sinto “demasiado” com certas pessoas?
    Porque algumas pessoas têm menor tolerância para emoção ou intensidade. Com elas, você sente-se “muito”. Com outras, sente-se perfeitamente normal. Esse contraste é uma pista de que o problema não é só você.

  • A terapia pode mesmo mudar esta crença?
    Sim. Muitas abordagens terapêuticas trabalham directamente a vergonha e os guiões antigos. Um bom terapeuta pode ajudá-lo a localizar onde a história começou e, aos poucos, trocar “sou demasiado” por “tenho direito a ocupar espaço”.

  • Como sei se estou a esmagar alguém no momento?
    Procure sinais: olhar repetido para o relógio, respostas de uma palavra, corpo virado para longe. Pode perguntar com cuidado: “Estou a dar-te demasiado agora?” Isso abre espaço para honestidade sem se atacar a si próprio.

  • E se as pessoas me disserem que sou “demasiado emotivo”?
    Use isso como informação, não como veredicto. Talvez a sua forma de expressar precise de pequenos ajustes em certos contextos - e talvez essas pessoas não consigam encontrar-se consigo onde você está. Sejamos realistas: ninguém acerta nisto todos os dias.

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