Num encontro mundial sobre educação realizado na Casa Branca, a primeira-dama dos Estados Unidos protagonizou uma chegada no mínimo fora do comum: entrou acompanhada por um robô humanoide. Por detrás do efeito cénico, ficou exposta uma ideia assumida - a inteligência artificial e os robôs como ferramentas pedagógicas, mesmo que isso possa empurrar as pessoas para segundo plano.
A cena, rara e altamente simbólica, aconteceu a 25 de março. Nos corredores da Casa Branca, Melania Trump surgiu na Cimeira da Coligação Global “Promover o Futuro Juntos”, lado a lado com um humanoide, avançando devagar sobre a passadeira vermelha ao som de uma banda militar.
A iniciativa, centrada em educação e novas tecnologias, juntou as primeiras-damas de 45 países, incluindo Brigitte Macron. Foi um momento pouco habitual na história da Casa Branca e voltou a evidenciar a ligação estreita entre a administração Trump e o Vale do Silício.
Figure 03: 39 mil milhões de dólares em dois pés
O robô em questão não era um modelo qualquer. Tratava-se do Figure 03, desenvolvido pela Figure AI, uma das empresas mais visíveis na corrida aos humanoides, avaliada em cerca de 39 mil milhões de dólares.
Com 1,83 m de altura e aproximadamente 60 kg, o Figure 03 integra um motor de inteligência artificial proprietário chamado Helix. Segundo a empresa, foi pensado para uso doméstico e consegue, entre outras tarefas, dobrar roupa, operar uma máquina de lavar, colocar loiça na máquina e servir bebidas, tudo isto a responder a comandos de voz em tempo real.
Na Casa Branca, o humanoide chegou mesmo a discursar. “Estou grato por fazer parte deste movimento histórico para dar às crianças acesso à tecnologia e à educação”, afirmou, antes de cumprimentar a plateia em várias línguas.
Casa Branca, inteligência artificial e robôs humanoides na educação das crianças
A aparição do Figure 03 encaixa numa visão invulgar defendida por Melania Trump. Na sua perspetiva, “muito em breve, a inteligência artificial vai sair dos telemóveis e passar para humanoides capazes de prestar ajuda concreta”. A primeira-dama pediu às participantes que imaginassem um robô educador chamado “Platão”, capaz de dar às crianças, a partir do próprio salão, acesso imediato “à literatura, às ciências, à filosofia ou à matemática”.
Melania Trump sustentou ainda que estes assistentes poderiam ajustar-se ao ritmo de cada aluno, ao que já sabe previamente e até ao seu estado emocional, oferecendo apoio mais personalizado.
Reações e críticas: risco de substituir professores e cortes no Departamento da Educação
A proposta gerou contestação nas redes sociais. Muitos utilizadores criticaram a ideia, alertando para o perigo de se caminhar para a substituição de professores humanos por humanoides.
Também foi lembrado que a administração Trump reduziu de forma significativa os quadros e o orçamento do Departamento da Educação, com o objetivo declarado de, a prazo, o desmantelar.
Um contraste com as prioridades das primeiras-damas anteriores
A abordagem de Melania Trump contrasta com as causas associadas a quem a antecedeu. Laura Bush colocou a luta contra o analfabetismo no centro da sua ação; Michelle Obama focou-se na reformulação da alimentação das crianças; e Jill Biden defendeu o acesso a formação profissional gratuita.
O que fica por esclarecer: dados, privacidade e limites pedagógicos
A entrada dos robôs humanoides na sala de aula (ou no apoio ao estudo em casa) levanta questões práticas que raramente aparecem nas apresentações públicas: que dados seriam recolhidos sobre crianças - voz, rosto, hábitos de estudo, respostas emocionais - e quem teria acesso a essa informação. Sem regras claras de privacidade, segurança e auditoria, a personalização prometida pela inteligência artificial pode transformar-se num risco sério.
Há ainda o problema da dependência tecnológica: para funcionar como tutor “sempre disponível”, um sistema destes teria de ser fiável, transparente nas respostas e capaz de explicar o raciocínio, evitando erros, enviesamentos e conteúdos inadequados. Mesmo como complemento, a integração de robôs na educação exigiria formação específica para docentes e encarregados de educação, bem como critérios de avaliação para medir se, de facto, melhora a aprendizagem - em vez de apenas impressionar pela novidade.
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