Saltar para o conteúdo

Menos mercúrio no atum enlatado: com este truque de rotulagem, os níveis de contaminação diminuem bastante.

Mulher a cheirar latas de conserva na secção de supermercado, segurando lista de compras.

Uma análise europeia a 148 latas de atum revelou um pormenor desconfortável: todas continham mercúrio, e em vários casos em níveis muito acima do que a maioria das pessoas imaginaria. Ainda assim, uma nutricionista não defende “proibir” o atum em lata - recomenda, isso sim, uma escolha mais criteriosa no supermercado, baseada numa informação simples (e decisiva) no rótulo.

A regra simples no supermercado para o atum em lata: ler o rótulo (mesmo)

A recomendação não é cortar totalmente o atum, mas comprar de forma intencional. O “truque” está na espécie indicada na lata (ou na designação comercial), não apenas em frases como “em óleo” ou “ao natural”.

No corredor das conservas, procure aplicar estas regras:

  • Preferir espécies mais pequenas, como skipjack/bonito (muitas vezes vendido apenas como “atum”, sem adjetivos).
  • Escolher com menos frequência latas que indiquem espécies maiores, como atum branco.
  • Rodar espécies de peixe ao longo da semana, em vez de comprar sempre a mesma conserva.

Ao fazer isto, quem recorre regularmente a atum em lata consegue reduzir a ingestão média de mercúrio sem abdicar de um alimento prático.

Porque é que o atum em lata acumula tanto mercúrio

O mercúrio chega a rios e oceanos através de atividades humanas como indústria, combustão e outras formas de poluição. No meio aquático, micro-organismos transformam-no em metilmercúrio, uma forma que se fixa e se acumula no tecido muscular e gordo dos peixes.

À medida que se sobe na cadeia alimentar, a carga aumenta:

  • peixes pequenos absorvem quantidades menores;
  • predadores maiores comem muitos desses peixes e concentram o metilmercúrio;
  • quanto maior e mais velho for o predador, maior tende a ser a contaminação.

O atum está num patamar alto da cadeia alimentar marinha - e por isso, em média, apresenta mais mercúrio do que muitos outros peixes consumidos no dia a dia.

Limites legais: o atum tem um “regime” diferente

Do ponto de vista regulamentar, o atum tem uma exceção relevante: para a maioria das espécies de peixe, o limite máximo na União Europeia é 0,3 mg/kg de mercúrio. Para atum, o valor permitido é 1 mg/kg - ou seja, mais de três vezes.

O que mostrou a investigação europeia às latas de atum

Os dados compilados por uma organização ambiental evidenciam uma variação grande entre produtos:

  • 100% das latas: mercúrio detetável
  • 57% das amostras: acima de 0,3 mg/kg
  • cerca de 10%: acima do limite de 1 mg/kg
  • valor máximo observado: 3,9 mg/kg, muito acima do que a maioria esperaria numa conserva comum

Além do mercúrio, há outro ponto a ter em conta: o sal. É frequente encontrar cerca de 1,5 g de sal por 100 g de atum. Quem consome com muita regularidade pode aumentar, ao mesmo tempo, a ingestão de metais pesados e de sal.

Espécie de atum em lata: porque esta escolha pesa (muito) no mercúrio

“Atum” não é um produto homogéneo. Diferentes espécies entram nas conservas, e variáveis como tamanho, tempo de vida e comportamento de caça influenciam fortemente o nível de metilmercúrio acumulado.

Espécie mais pequena (atum em lata): skipjack/bonito (muitas vezes o “atum padrão”)

Algumas latas usam uma espécie relativamente pequena conhecida internacionalmente como skipjack (frequentemente associada ao termo bonito no retalho). Por crescer mais depressa, viver menos tempo e estar um pouco abaixo na cadeia alimentar, tende a acumular menos mercúrio.

Medições referidas nas análises apontam para uma média aproximada de 0,2 mg/kg de mercúrio no skipjack - um valor claramente inferior ao de várias espécies maiores. Em alguns mercados, esta espécie pode surgir no rótulo apenas como “atum”, enquanto expressões como “atum claro” ou designações premium podem estar associadas a espécies maiores (dependendo do país e da marca).

“Pesos pesados”: atum de barbatana amarela e atum branco

A realidade muda quando a conserva é feita com espécies maiores, como atum de barbatana amarela e atum branco (germon). São peixes que, em regra, vivem mais tempo, ingerem mais presas ao longo da vida e ocupam um nível mais elevado na cadeia alimentar - o que se traduz em valores superiores de mercúrio.

Em avaliações comparativas, estas variedades aparecem muitas vezes com níveis duas a três vezes acima dos do skipjack. Para quem come atum apenas de forma ocasional, isto raramente será determinante; já quem abre duas ou três latas por semana pode ir acumulando quantidades relevantes ao longo do tempo.

A espécie indicada no rótulo influencia diretamente o quanto de mercúrio pode acumular no organismo a longo prazo.

Com que frequência deve haver peixe na alimentação?

A autoridade francesa de segurança alimentar recomenda consumir peixe cerca de duas vezes por semana. Uma dessas refeições pode ser com peixe mais gordo, rico em ómega-3, como:

  • salmão
  • sardinhas
  • cavala
  • arenque

A segunda refeição deve privilegiar opções mais magras, por exemplo:

  • bacalhau
  • escamudo ou pescada (consoante disponibilidade e rotulagem)
  • arinca
  • linguado ou outros peixes brancos

Outro princípio essencial é variar espécies e origens. Alternar entre pesca selvagem e aquacultura (quando adequado) e evitar repetir continuamente o mesmo peixe predador ajuda a distribuir o risco por diferentes fontes.

Alerta reforçado para grávidas e crianças pequenas

O metilmercúrio afeta sobretudo o sistema nervoso. O cérebro em desenvolvimento é particularmente vulnerável - isto inclui o feto durante a gravidez e as crianças nos primeiros anos de vida.

Para grávidas, mulheres a amamentar e crianças com menos de 3 anos, a regra prática é simples: quanto menos grandes peixes predadores, melhor.

Por isso, as autoridades de saúde recomendam limitar de forma significativa - ou evitar - certas espécies:

  • consumir menos vezes: atum, grandes bonitos, dourada, peixe-lobo, raia, alabote, lúcio
  • evitar: tubarões, peixe-espada, marlim e outros predadores de águas profundas com níveis muito elevados

Como alternativas habitualmente mais seguras, peixes pequenos e gordos tendem a ser uma boa opção: sardinhas, arenque e cavalas mais pequenas fornecem ómega-3 e, em geral, mantêm níveis de metais pesados mais baixos.

O que o mercúrio pode fazer no organismo

O metilmercúrio liga-se a proteínas no corpo e atravessa com relativa facilidade barreiras biológicas, incluindo a do cérebro. Em adultos saudáveis que consomem atum em lata apenas ocasionalmente, os benefícios associados ao consumo de peixe - melhoria de perfil lipídico, aporte de ácidos gordos, vitaminas e minerais - tendem a superar o risco.

A situação torna-se mais preocupante quando:

  • há consumo muito frequente de grandes peixes predadores
  • existem outras fontes de exposição em simultâneo
  • estão envolvidos grupos mais sensíveis, como fetos e crianças pequenas

As consequências de uma exposição crónica elevada podem ir de dificuldades de concentração e alterações finas da sensibilidade até problemas no desenvolvimento infantil. Não se trata do efeito de uma única lata, mas de um padrão repetido durante anos.

Estratégias práticas para quem gosta de peixe (sem dramatizar)

Não é necessário deitar fora as conservas. Pequenas mudanças no dia a dia já reduzem bastante o risco:

  • limitar o atum a 1–2 vezes por semana, optando por porções mais pequenas
  • confirmar rapidamente a espécie no rótulo e privilegiar a opção mais pequena (skipjack/bonito)
  • escolher mais vezes sardinha, arenque e cavala quando o objetivo é aumentar o ómega-3
  • evitar usar atum como “recheio fixo” diário; tratá-lo como uma refeição ocasional
  • para crianças e grávidas, dar prioridade a espécies menores e, em geral, menos contaminadas

Se a alimentação já inclui mais leguminosas e outras fontes vegetais de proteína, o peixe não precisa de ser uma presença diária: basta planear 1–2 porções semanais, escolhidas com atenção à espécie, origem e método de captura.

Dois pontos extra que também ajudam (e quase nunca são considerados)

Do lado prático, vale ainda olhar para o produto em si: versões “ao natural” e com menor teor de sal podem facilitar o controlo do sódio, sobretudo para quem já tem tensão arterial elevada ou faz várias refeições com alimentos processados.

Além disso, ao escolher peixe e conservas, procure informação adicional de rastreabilidade e sustentabilidade (por exemplo, zona de captura e métodos de pesca indicados). Embora isto não substitua a atenção ao mercúrio, tende a melhorar a qualidade global da escolha e a promover práticas de pesca mais responsáveis.

O tema do mercúrio parece abstrato até se perceber um detalhe crucial: o organismo elimina o metilmercúrio lentamente. Cada porção pode somar um pouco. É por isso que a simples rotina de verificar a espécie no rótulo - sobretudo em alimentos consumidos com frequência - compensa.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário