Saltar para o conteúdo

Europa quer carros pequenos e baratos para travar a China

Carro elétrico compacto verde a carregar numa estação de carregamento num espaço moderno e iluminado.

Os carros baratos estão a tornar-se uma raridade e, um pouco por toda a Europa, começa a instalar-se a inquietação. Desde 2010, o preço médio de um automóvel novo no continente disparou 77% e, hoje, encontrar modelos novos abaixo dos 15 000 € é quase impossível. Ainda assim, há sinais de que este cenário pode estar perto de mudar.

A Comissão Europeia (CE) acaba de apresentar um novo programa destinado a acelerar o desenvolvimento de automóveis pequenos, acessíveis e produzidos na Europa - uma espécie de kei car à europeia - que deverá receber a designação E-Car.

No episódio mais recente do Auto Rádio, o podcast da Razão Automóvel com o apoio do piscapisca.pt, analisamos este plano da CE para travar a chamada “invasão chinesa” e o impacto que poderá ter na mobilidade de milhões de europeus.

E-Car e Comissão Europeia: o novo “carro do povo” europeu

A presidente da CE, Ursula von der Leyen, anunciou a criação da “Small Affordable Cars Initiative”, ou, em português, Iniciativa para Carros Pequenos e Acessíveis.

A meta é clara: criar um novo tipo de automóvel elétrico que seja eficiente, económico e feito na Europa, assente em cadeias de fornecimento locais. A ambição passa por recuperar o espírito de modelos históricos como o Volkswagen Carocha, o Renault 4 e o Citroën 2CV, que, no pós-guerra, ajudaram a colocar a Europa em movimento.

Durante a apresentação, Von der Leyen foi taxativa: “Não podemos deixar que a China e outros conquistem este mercado”, defendendo que esta pode ser a resposta para os milhões de consumidores europeus que procuram opções mais acessíveis.

Além do preço, este tipo de iniciativa tende a ter outro objetivo implícito: reforçar o tecido industrial europeu. Ao apostar em componentes e fornecedores locais, a CE procura reduzir dependências externas e dar escala a uma nova geração de veículos urbanos, mais simples e orientados para o essencial.

A inspiração dos kei car no Japão

No Auto Rádio, recordamos que a ideia de uma categoria específica para automóveis pequenos e acessíveis não é nova - e já provou funcionar. No Japão do pós-guerra, os kei car foram decisivos para reerguer a indústria automóvel e democratizar o acesso ao carro. Eram veículos compactos, descomplicados e, sobretudo, baratos.

Agora, a União Europeia quer seguir um caminho semelhante: criar uma nova classe, batizada E-Car, com o objetivo de voltar a colocar o preço dos automóveis novos num patamar mais próximo do poder de compra de uma fatia maior da população.

Um dos desafios, porém, será conciliar a acessibilidade com as exigências europeias - da segurança às normas ambientais. Se o E-Car pretende mesmo baixar preços, será determinante encontrar um equilíbrio entre regulamentação, custos de produção e equipamento, sem perder de vista a realidade de utilização em cidade (autonomia, carregamentos e manutenção).

Os números explicam a urgência

Os dados ilustram bem a dimensão do problema. Em 2019, venderam-se mais de 1 milhão de automóveis por menos de 15 000 € na União Europeia. Atualmente, esse volume desceu para menos de 100 mil.

A escalada de preços é generalizada e, com o crescimento do mercado dos elétricos, a diferença tornou-se ainda mais evidente - tanto pelo custo da tecnologia como pelo posicionamento de muitos modelos.

Não admira, por isso, que grupos como a Stellantis e a Renault já defendessem publicamente a criação de uma nova categoria que permitisse carros mais simples e, consequentemente, mais acessíveis. Ao que tudo indica, Bruxelas ouviu - e prepara-se, finalmente, para avançar.

Dacia dá o primeiro sinal com o Hipster

Não foi necessário esperar muito para surgir um exemplo do que pode estar a caminho. A Dacia revelou o Hipster, um concept que antecipa esta nova vaga de carros urbanos elétricos.

As especificações apontam para uma proposta direta ao assunto: 3 metros de comprimento, 4 lugares, até 500 litros de bagageira e apenas 800 kg de peso. Em suma, um modelo simples, leve e focado no essencial - precisamente o tipo de produto que a Comissão Europeia parece querer incentivar neste novo segmento.

Ainda não há confirmação sobre produção nem sobre o preço final, mas uma coisa parece evidente: o Hipster foi uma verdadeira “pedrada no charco” e serve de sinal de que este programa poderá ser o impulso que a indústria automóvel europeia aguardava.

Próxima paragem: Auto Rádio na próxima semana

Razões não faltam para acompanhar (ou ouvir) o episódio mais recente do Auto Rádio, que regressa na próxima semana às plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário