A remoção cirúrgica do útero e dos ovários pode ter um custo sério - e muitas vezes subestimado - para a saúde individual, segundo investigação recente.
Histerectomia, ooforectomia bilateral e AVC: o que a evidência mais recente indica
Uma meta-análise que reuniu dados de estudos envolvendo mais de 2 milhões de pessoas concluiu que a histerectomia (cirurgia para remover o útero e o colo do útero) está associada a um aumento de 5% no risco de AVC (acidente vascular cerebral), quando comparada com não realizar a intervenção.
O sinal de alerta torna-se ainda mais forte quando, além da histerectomia, é feita a remoção dos dois ovários: nesse cenário, o risco de AVC surge associado a um aumento de 18%. A retirada de ambos os ovários é designada por ooforectomia bilateral.
Stephanie Faubion, directora médica da Sociedade da Menopausa, uma organização sem fins lucrativos dedicada à melhoria da saúde das mulheres, sublinha que estes resultados “evidenciam que procedimentos tão frequentes podem trazer riscos a longo prazo”. Acrescenta ainda que os dados apontam para “uma oportunidade de avaliar com maior rigor o risco cardiovascular e aplicar estratégias de redução desse risco em mulheres que são submetidas a estas cirurgias”.
Procedimentos frequentes, efeitos a longo prazo ainda pouco compreendidos
Actualmente, a histerectomia e a ooforectomia (remoção de um ou de ambos os ovários) figuram entre as intervenções cirúrgicas mais comuns em mulheres nos EUA. Ainda assim, permanece limitada a compreensão sobre as consequências para a saúde a longo prazo.
Embora muitas destas cirurgias sejam realizadas por condições não terminais, tem-se acumulado evidência de que podem implicar um preço elevado - potencialmente grave - para o organismo e para o cérebro.
Quando é que a histerectomia costuma ser considerada?
As recomendações variam, mas, em regra, a histerectomia tende a ser reservada para situações em que outras abordagens falharam ou não são adequadas, nomeadamente em condições ginecológicas importantes como:
- cancro
- prolapso
- endometriose
- hemorragia pós-parto
- miomas uterinos
A remoção dos ovários: uma prática antiga que a evidência veio questionar
Antes da viragem do século, foi durante algum tempo relativamente habitual, nos EUA, remover os dois ovários durante uma histerectomia. Só nas últimas décadas se foi consolidando evidência de que esta estratégia pode trazer perigos relevantes.
Um estudo de grande escala publicado em 2009 concluiu que mulheres a quem foram removidos ambos os ovários durante uma histerectomia por doença benigna enfrentavam um aumento marcado do risco de morte por qualquer causa, incluindo doença coronária e cancro do pulmão.
Comparadas com mulheres que preservaram os ovários, aquelas que os retiraram apresentaram um aumento de 14% no risco de AVC.
A razão exacta para esta associação não é totalmente clara. Ainda assim, alguns investigadores suspeitam que, como os ovários libertam hormonas, estes resultados possam estar ligados ao aparecimento de menopausa precoce.
Por isso, actualmente, a remoção de ambos os ovários não é, em geral, recomendada em doentes pré-menopáusicas, a menos que exista um risco grave (por exemplo, cancro).
Uma relação complexa: idade, terapêutica hormonal e definições de AVC
A ligação entre ooforectomias e AVC não é simples e pode ser influenciada por vários factores, incluindo:
- a idade no momento da cirurgia
- o uso (ou não) de terapêutica hormonal de substituição
- diferenças na forma como os estudos definem e classificam AVC
Em 2018, por exemplo, alguns investigadores observaram que mulheres jovens submetidas a ooforectomia que utilizavam substituição de estrogénio não tinham necessariamente um risco acrescido de AVC.
Já em 2024, uma meta-análise indicou o contrário, associando a histerectomia a risco de AVC, sobretudo quando havia remoção dos dois ovários.
Novos dados e uma meta-análise maior para esclarecer contradições
Para reduzir a incerteza, investigadores na China analisaram dados nacionais de saúde de longo prazo dos EUA, recolhidos em mais de 21.000 mulheres entre 1999 e 2018. Em seguida, combinaram esses resultados com mais 15 estudos para comparação estatística.
Ao analisar apenas os dados nacionais entre 1999 e 2018, a histerectomia não pareceu estar associada de forma significativa ao risco de AVC. O aumento de risco só se evidenciou quando, em simultâneo, ocorreu remoção dos dois ovários.
No entanto, quando os autores expandiram a análise para a meta-análise mais ampla, os dados passaram a indicar aumento de risco nos dois grupos. Isto sugere que alguns estudos anteriores poderão não ter dimensão suficiente para detectar, com fiabilidade, uma associação estatisticamente significativa - sendo necessárias amostras maiores.
Os autores concluem que a investigação actual indica que a histerectomia e/ou a ooforectomia bilateral estão associadas a um aumento do risco de AVC, reforçando que mulheres submetidas a estas cirurgias devem ser acompanhadas de perto e beneficiar de medidas preventivas proactivas para identificar sinais precoces de AVC.
Defendem ainda que as conclusões devem incentivar investigadores e equipas clínicas a desenvolver técnicas cirúrgicas mais seguras ou tratamentos alternativos para doenças que hoje conduzem a histerectomia e ooforectomia bilateral.
O que pode ser feito na prática: vigilância e redução do risco
Para além das decisões cirúrgicas, há um aspecto frequentemente decisivo: a prevenção cardiovascular ao longo do tempo. Em mulheres com história de histerectomia e, em particular, de ooforectomia bilateral, faz sentido discutir com a equipa de saúde um plano de monitorização que inclua avaliação regular de pressão arterial, colesterol, glicemia, controlo do peso, e revisão de factores como tabagismo e sedentarismo - variáveis que podem influenciar o risco de AVC independentemente da cirurgia.
Também é útil garantir que a decisão é tomada com consentimento plenamente informado, ponderando alternativas terapêuticas (quando aplicáveis) e clarificando objectivos: aliviar sintomas, tratar uma doença específica, reduzir risco oncológico, ou evitar complicações. Esta conversa é particularmente importante em idade pré-menopáusica, porque a preservação dos ovários pode ter implicações hormonais com impacto a longo prazo.
O estudo foi publicado na revista Menopausa.
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