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Exército dos EUA quer antecipar a entrada em serviço do Bell MV-75 e acelerar a modernização da aviação de assalto

Soldado com tablet junto a drone e aeronave militar enquanto grupo de soldados regressa ao avião num aeroporto.

O Exército dos Estados Unidos está a preparar-se para encurtar o calendário de operacionalização do seu novo convertiplano Bell MV-75 - anteriormente identificado como Bell V-280 Valor - face ao plano inicialmente estabelecido. A intenção foi revelada pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, general Randy George, numa edição online do Senior Leader Situation Report.

Segundo o general, a incorporação destas aeronaves deverá começar mais cedo do que o previsto. O programa apontava, numa fase inicial, para entregas entre 2031 e 2032, mas a produção foi acelerada. Nas palavras de George: “Dissemos: ‘Não, precisamos disto rapidamente’” e “Até ao final deste ano, já teremos estes voos em andamento.”

Bell MV-75 (Future Long-Range Assault Aircraft – FLRAA): o novo convertiplano de assalto de longo alcance

O Bell MV-75 é a futura aeronave de assalto de longo alcance do Exército dos EUA no âmbito do programa Future Long-Range Assault Aircraft (FLRAA). Trata-se de uma aeronave de rotor basculante, concebida para oferecer maior agilidade e desempenho operacional do que helicópteros tradicionais, ao mesmo tempo que permitirá substituir progressivamente a frota Sikorsky UH-60 Black Hawk.

A aposta num convertiplano visa responder a missões que exigem maior alcance e velocidade, sem abdicar da capacidade de operar em ambientes exigentes e com margens reduzidas de manobra - uma das razões pelas quais o FLRAA tem sido apresentado como peça central na renovação das capacidades de assalto aéreo.

Modernização acelerada e pressão do ambiente operacional

A comunicação sobre o MV-75 surgiu integrada num quadro mais amplo de transformação das forças terrestres. No evento, o general George partilhou a sessão com o Secretário do Exército, Dan Driscoll, e com o Sargento-Mor do Exército, Michael Weimer, respondendo igualmente a questões colocadas por militares.

Nesse contexto, George sublinhou a urgência em reduzir ciclos de adopção tecnológica, tendo em conta a velocidade a que o ambiente operacional evolui: “Todos vocês sabem o que se está a passar no mundo e a rapidez com que a tecnologia está a mudar”, referindo também uma visita recente à Ucrânia.

Aquisição e integração mais rápidas: drones, autonomia e decisões mais próximas das unidades

A antecipação do MV-75 integra uma revisão dos processos de aquisição, com foco numa integração mais célere de capacidades emergentes. De acordo com George, o Exército está a adaptar as suas unidades para novos cenários, incluindo o emprego ofensivo de drones, como exemplifica a unidade de combate com drones criada recentemente pela 10.ª Divisão de Montanha.

Na aviação, a transformação das brigadas de aviação de combate inclui a entrada de sistemas aéreos não tripulados de maior dimensão, enquadrados nos Grupos 3, 4 e 5 - sendo o Grupo 5 comparável em tamanho a um MQ-9 Reaper. Em paralelo, George indicou que o modelo de avaliação tecnológica tenderá a ser menos centralizado:

  • “Queremos dar recursos às unidades e deixar que elas nos digam o que funciona, o que não funciona, e vocês devem ser os responsáveis por decidir o que compramos.”
  • “Vai ser um pouco diferente.”

Este princípio será particularmente relevante para soluções de autonomia e robotização: “Vamos experimentar com robôs”, explicou, acrescentando que o Exército pretende trabalhar com sistemas autónomos e recolher feedback directo sobre o que resulta e o que falha em condições reais.

Brigadas de infantaria mais móveis em 12 a 18 meses

Em paralelo com a componente aérea, a modernização prevê alterações estruturais nas brigadas de infantaria. O Exército planeia que todas as equipas de brigada de combate de infantaria sejam convertidas em brigadas móveis num horizonte de 12 a 18 meses, equipadas com o novo Veículo de Esquadra de Infantaria da GM Defense e com armamento de esquadra de última geração. George garantiu que, nesta frente, “está tudo dentro do cronograma”.

Marcos do programa FLRAA: da selecção do V-280 à designação MV-75

O percurso do MV-75 assenta em marcos já consolidados no âmbito do FLRAA. Em maio de 2025, o Exército dos EUA confirmou oficialmente a designação MV-75 para a futura aeronave de assalto de longo alcance durante a Annual Mission Solutions Summit da Association of the United States Army Aviation.

O programa tinha atingido um ponto decisivo no final de 2022, quando o Bell V-280 Valor foi escolhido em detrimento do Defiant X, desenvolvido pela parceria Sikorsky/Boeing.

Já em junho de 2025, o Exército anunciou a aceitação oficial do primeiro protótipo virtual do MV-75, desenvolvido pela Bell Textron em colaboração com a Lockheed Martin. Este modelo digital foi sujeito a simulações avançadas no âmbito de uma abordagem de engenharia digital, destinada a:

  • optimizar o desenho;
  • validar sistemas;
  • apoiar o desenvolvimento de tácticas operacionais antes da produção em massa.

Com base em informação divulgada em fontes abertas, o programa conta com um contrato inicial de 1,3 mil milhões de dólares, podendo atingir um valor potencial de 70 mil milhões de dólares caso sejam exercidas todas as opções previstas.

Impacto operacional: treino, manutenção e interoperabilidade

A aceleração do calendário do Bell MV-75 implica, além da produção, uma preparação simultânea das áreas de formação, doutrina, manutenção e cadeia logística. Para que a aeronave entre ao serviço com impacto imediato, será crítico alinhar a qualificação de tripulações e equipas de manutenção, bem como garantir disponibilidade de peças e ferramentas específicas de um sistema de rotor basculante.

Outro ponto relevante é a interoperabilidade com parceiros e aliados, sobretudo em operações conjuntas e em ambientes contestados. A entrada do MV-75 poderá influenciar a forma como se planeiam missões de assalto, evacuação e reabastecimento, incluindo a integração com drones de reconhecimento e ataque, num contexto em que a coordenação entre meios tripulados e não tripulados tende a ser cada vez mais determinante.

Um acelerador para a aviação de ataque dos EUA no curto e médio prazo

Com a antecipação anunciada pelo Estado-Maior do Exército, o Bell MV-75 afirma-se como um dos elementos com maior peso na modernização da aviação de assalto e ataque dos Estados Unidos no curto e médio prazo, tanto pelo salto tecnológico associado ao FLRAA como pela intenção declarada de encurtar o tempo entre decisão, produção, teste e emprego operacional.

Imagem de capa: Exército dos EUA.

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