Como diria o inesquecível Fernando Pessa: e esta, hein? Precisamente no país onde rebentou o escândalo Dieselgate - e onde os Diesel nunca foram particularmente acarinhados - está a ganhar força uma tendência inesperada: os motores TDI mais antigos estão a ser cada vez mais procurados no mercado de usados. Sim, é mesmo nos EUA.
Porque é que os Diesel voltaram a despertar interesse por lá?
Ao deparar-me com este tema na Jalopnik, fiquei genuinamente intrigado, mas os sinais apontam para um fenómeno que está a crescer - e, como é natural, a valorização acompanha a procura. Num mercado norte-americano em que a oferta atual de Diesel ligeiros é praticamente nula, começa a destacar-se uma combinação que se tornou rara: eficiência, consumos baixos e mecânica relativamente acessível. Quando algo deixa de ser produzido, mas continua a ter interessados, o mercado ajusta-se.
1.9 TDI PD (Pumpe-Düse): o nome no centro do fenómeno nos EUA
O núcleo deste “regresso” tem identidade bem definida: 1.9 TDI, sobretudo nas conhecidas versões PD (Pumpe-Düse). Trata-se de um motor com raízes no final dos anos 90 e que, por razões de fiabilidade, economia e simplicidade comparativa, continua a conquistar quem quer um carro funcional e durável - mesmo num contexto cada vez mais eletrificado e regulamentado.
Há também um lado prático nesta procura: para muitos compradores, estes TDI representam uma forma de obter consumos contidos sem entrar no território da tecnologia mais recente (e por vezes mais cara) - algo que, nos usados, pesa bastante na decisão.
Exemplos reais: preços que já fogem à “regra” da depreciação
A Jalopnik avançou alguns casos que ajudam a perceber até onde vai a valorização.
Um Volkswagen New Beetle TDI com apenas 32 000 km foi vendido por 15 000 dólares (13 800 euros), quando em novo custava cerca de 18 425 dólares (16 950 euros). Em termos estritamente financeiros - sobretudo se considerarmos a inflação - não é exatamente um investimento brilhante. Ainda assim, também não é a queda acentuada que muitos esperariam num mercado em que, com valores semelhantes, existem várias opções com motores V8.
No Jetta TDI, a subida torna-se ainda mais evidente: - uma carrinha com quase 200 000 km foi transacionada por 15 500 dólares (14 260 euros); - uma berlina com 82 000 km foi vendida por 18 000 dólares (16 560 euros).
São números que encostam estes Diesel ao território de um Golf GTI usado nos EUA - algo que, há poucos anos, soaria quase absurdo.
Não é febre especulativa: é um nicho muito específico
Convém manter a cabeça fria: isto não tem o perfil de uma onda especulativa massificada. O que está a acontecer parece concentrar-se num nicho bem definido - carros originais, com poucos quilómetros e bem preservados. Os TDI negligenciados, cansados ou “martelados” continuam, na prática, a valer pouco. Já os exemplares bons começam a escapar ao padrão habitual de desvalorização.
O que pode estar por trás desta preferência (além dos consumos)
Há um fator que raramente entra nas contas à primeira vista: a previsibilidade. Para alguns entusiastas, um TDI antigo e conhecido (como o 1.9 TDI PD (Pumpe-Düse)) é uma escolha de risco mais controlado do que soluções modernas com maior complexidade. E, quando a oferta de Diesel ligeiros desaparece do mercado novo, o usado torna-se a “última porta” para quem ainda quer esse tipo de condução e autonomia.
Ao mesmo tempo, a crescente eletrificação e o apertar da regulamentação fazem com que certos modelos passem a ser vistos como “os últimos do seu género” - não por serem os mais rápidos, mas por representarem uma forma de engenharia pragmática que está a desaparecer.
Talvez o verdadeiro “clássico moderno” seja o simples e eficiente
Num panorama automóvel cada vez mais eletrificado e regulamentado, talvez o verdadeiro clássico moderno não seja o mais potente nem o mais raro. Talvez seja, isso sim, o derradeiro representante de uma época em que eficiência e simplicidade caminhavam lado a lado. Lembrei-me disso quando tive o meu saudoso Mercedes 190 W 201.
Confissão em surdina: há mais um Diesel na garagem
Aqui entre nós - que ninguém nos ouve - entretanto comprei um Classe E 220 CDI (W 210), de 1999, com apenas 190 000 km. Mas não contem a ninguém…
Fiquem atentos ao canal de YouTube
Estejam atentos ao nosso canal de YouTube, até porque é bem possível que o venha a vender em breve. Não sei se aí em casa acontece o mesmo, mas por cá a minha mulher não me deixa acumular tudo - e elas têm (quase) sempre razão.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário