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A experiência de Collien Fernandes destaca um problema que muitos preferem ignorar.

Mulher com bebé no colo em estúdio de gravação com carrinho e brinquedos ao fundo.

Collien Ulmen-Fernandes sorri para a câmara com a precisão de quem já faz isto há anos - profissional, segura, um rosto familiar no panorama mediático alemão. Fora do enquadramento, porém, a engrenagem range. Não apenas no universo dos espectáculos, mas num sistema que continua a tratar mães como se fossem um “imprevisto” a gerir.

Enquanto fala, espreita o telemóvel para ver a fotografia da filha, acabada de deixar na creche. Um segundo de culpa, e depois volta ao modo automático. É aquele olhar que tantos pais reconhecem: estar presente, mas nunca por inteiro.

Mais tarde, Collien descreve uma cena que muita gente preferia não encarar: dia de filmagens, horas extra, nenhum plano B para a criança. E, de repente, o problema deixa de ser “ela” e passa a ser “as circunstâncias” - como se isso resolvesse alguma coisa.

Quando o sucesso só conta enquanto não és mãe

Num programa de televisão, Collien Fernandes pôs em palavras algo que continua a ser o “elefante na sala” em muitos escritórios, redacções e salas de reunião: na Alemanha, a maternidade ainda é frequentemente percebida como um risco para a carreira. Ela contou sem rodeios que, após o nascimento da filha, deixou de ser apenas “a apresentadora” - passou a ser “a mãe”, carregando um conjunto de preconceitos silenciosos que surgem sem convite.

De um momento para o outro, começaram perguntas que antes nunca apareciam: “Ainda consegues gerir o tempo?” ou “E quem fica com a tua filha?” Não são necessariamente ditas com maldade, mas trazem um subtexto pesado: como se a verdadeira competência profissional fosse incompatível com ter um filho.

Na prática, estas coisas não se manifestam apenas em grandes decisões. Collien deu um exemplo muito concreto: numa produção, uma cena foi prolongada à última hora por “motivos criativos”. Para quase toda a equipa, seria só um incómodo. Para ela, significou entrar em contagem decrescente para o horário de fecho da creche - telefonemas, pressão, coração apertado. E ninguém estava a olhar para isso.

Pode parecer “uma coisa pequena”. Para pais e mães, é o quotidiano.

Sejamos honestos: ninguém aguenta esta tensão todos os dias com serenidade. Consome energia. E não é um drama isolado de uma figura pública - é um sintoma.

Há anos que estudos mostram que mães na Alemanha são promovidas com menos frequência e acabam mais vezes “encalhadas” no regime de tempo parcial. No papel, quase todas as organizações se dizem “amigas da família”; na realidade, continuam a ser valorizadas as horas extra, a disponibilidade permanente e as reuniões marcadas em cima da hora ao fim da tarde. Exactamente o tipo de lógica que Collien descreve: um modelo que age como se as crianças existissem apenas na publicidade, não na agenda.

O mais perverso é que muita gente não se atreve a dizer isto em voz alta - por medo de ficar rotulada como “difícil”. É mais fácil transformar bebés numa narrativa bonita para redes sociais do que admitir o peso logístico real do dia a dia. E é aqui que está o núcleo do problema: o silêncio mantém o sistema a funcionar.

Collien Ulmen-Fernandes e a conciliação entre trabalho e família: lições práticas

A experiência de Collien Fernandes aponta para uma regra simples: o que protege não são esperanças vagas, são acordos claros. Quem tem filhos e trabalha - seja em televisão, em media ou noutra área - precisa de definir limites cedo e com nitidez. Pode soar duro, mas é, acima de tudo, uma forma de auto-defesa.

Uma estratégia concreta é deixar de “tentar ver se dá” e passar a tratar horários como não negociáveis. “Até às 17h estou disponível; a partir daí sou mãe.” É uma frase que exige coragem, mas que obriga a organização a adaptar-se.

Muita gente que se revê no que Collien descreve conta a mesma viragem: só quando verbalizou prioridades, é que surgiram alternativas reais - horários de filmagem mais flexíveis, dias de trabalho remoto, reuniões híbridas.

Não é preciso ser um rosto conhecido para pedir isto. É preciso insistir, mesmo quando, ao início, parece “pouco simpático”.

O erro mais comum é tentar apagar o problema com frases de bravura: “Nós desenrascamo-nos”, “Está tudo bem”, “Eu trato disso de alguma forma”. Soam fortes, mas servem sobretudo o sistema - não quem está a aguentar tudo. Criam a ilusão de que os pais se conseguem “duplicar” sem que ninguém tenha de ajustar nada.

Muitas mães dizem que acabam por querer parecer agradecidas em vez de assertivas. Sorriem quando o horário muda outra vez, mesmo quando por dentro a logística de cuidados colapsa. E, com o tempo, instala-se a ideia: se ela não diz nada, então está tudo controlado.

Há uma frase seca, mas útil, para ter presente: se não comunicas os teus limites, não te surpreendas quando eles forem ultrapassados. Parece mais duro do que é. Na prática significa: tens o direito de dizer que assim não dá - sem justificações intermináveis e sem transformar a tua vida num currículo de explicações.

Collien disse, em entrevista, que quer que a filha cresça a ver que o trabalho é importante - mas não é tudo.

“Quero que a minha filha, mais tarde, não pense: para ter sucesso tens de escolher - ou criança ou carreira. Ela tem de ver que as duas coisas são possíveis, desde que as estruturas finalmente acompanhem.”

E é aqui que a história deixa de ser apenas pessoal. Não se trata só de “organização individual”; trata-se de uma cultura que empurra pais e mães para uma posição defensiva.

Um ponto frequentemente ignorado - e que ajuda a mudar o quadro - é envolver também os pais nesta equação. Quando os homens assumem, de forma visível, horários de saída, dias de assistência à família e responsabilidades de cuidados, deixam de ser “excepções” e passam a ser referência. Isto reduz o estigma sobre as mães e torna a conciliação um tema de equipa, não de “caso individual”.

Outro aspecto que merece atenção, sobretudo para quem lê em Portugal, é a infraestrutura de cuidados. Sem creches com horários compatíveis e previsíveis, e sem uma cultura de planeamento nas empresas, qualquer discurso de “flexibilidade” fica vazio. A conciliação vive tanto de políticas internas como de serviços básicos disponíveis - e de previsibilidade, que é o que falta quando tudo muda em cima da hora.

Para quem quer começar a sair deste ciclo, três perguntas simples ajudam a abrir caminho:

  • Onde é que finjo que está tudo fácil - quando, na verdade, já estou em sobrecarga?
  • Que limite concreto posso comunicar com mais clareza nas próximas quatro semanas?
  • Com quem preciso mesmo de ter uma conversa honesta: chefia, parceiro/parceira, produção, família?

Isto não é luxo. É uma forma silenciosa de resistência contra um sistema que gosta de repetir que “não dá para ser de outra maneira”.

O que fica quando as câmaras se desligam

Quando Collien Fernandes fala em talk-shows sobre conciliação entre trabalho e família, sexismo e trabalho de cuidados, é fácil de consumir: palco, frases certeiras, aplausos. A parte difícil começa depois - quando cada pessoa regressa ao seu quotidiano. À manhã cedo antes da creche. À corrida entre reunião e jantar. À culpa quando a criança adoece e a agenda está cheia.

A experiência desta mãe conhecida funciona como uma lente de aumento. Mostra o que acontece ao mesmo tempo em inúmeros escritórios, hospitais, supermercados e em trabalho remoto: pais, sobretudo mães, a diminuírem-se para “não incomodar”; pais que saem a horas a serem vistos como pouco comprometidos; horários flexíveis que existem mais em documentos do que na prática; e pessoas tão exaustas que já não têm energia para exigir mudança.

Talvez a mudança real comece quando deixamos de tratar tudo isto como um “problema pessoal de organização” e passamos a vê-lo como um erro de construção social - e, portanto, algo corrigível. Cada relato que se torna público, como o de Collien, mexe um pouco nessa estrutura. Talvez partilhemos estas histórias não só porque geram cliques, mas porque nos dão, em segredo, permissão para deixar de engolir as nossas próprias injustiças. E talvez seja precisamente aí que nasce, em muitas cabeças ao mesmo tempo, um discreto e desconfortável: “assim, não dá mais”.

Ponto-chave Detalhe Valor para quem lê
Maternidade como risco de carreira O caso de Collien evidencia preconceitos não ditos e obstáculos estruturais Reconhecer experiências próprias e confirmar: “não estou a imaginar isto”
Definir limites claros Comunicar abertamente horários, disponibilidade e prioridades Reduz pressão e abre espaço para negociação concreta
Cultura e sistema, não destino individual Trocar a narrativa da “organização pessoal” pela responsabilidade estrutural Incentivo para questionar estruturas em vez de duvidar de si

FAQ

  • Porque se fala tanto de Collien Fernandes e da conciliação entre trabalho e família?
    Porque, sendo uma apresentadora conhecida, dá visibilidade a uma tensão que muitas pessoas vivem em silêncio: a distância entre a “mãe trabalhadora” idealizada e a realidade dura de estruturas insuficientes.

  • O problema é maior nos media do que noutros empregos?
    É mais visível, porque filmagens, viagens e horários irregulares dificultam muito a vida familiar. Ainda assim, os padrões - pouca planificação, preconceitos e exigência de disponibilidade constante - aparecem em muitos sectores.

  • O que podem as entidades empregadoras fazer de forma concreta?
    Respeitar janelas horárias acordadas, planear com antecedência em vez de alterar tudo ad hoc, oferecer opções reais de tempo parcial e trabalho remoto, e construir uma cultura onde pais não são catalogados como “inflexíveis”.

  • Como podem os pais e mães ajustar sem viver com medo de perder o emprego?
    Clarificar limites passo a passo, procurar aliados (colegas, comissão de trabalhadores/sindicatos, chefias que também tenham filhos) e apresentar soluções práticas em vez de apenas listar problemas.

  • Ajuda quando mães conhecidas falam sobre isto?
    Ajuda, porque a sua visibilidade normaliza o tema, quebra o silêncio e desloca o foco de uma suposta “fraqueza individual” para mudanças estruturais necessárias.

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