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Mais luz diurna está associada a menor risco de demência, revela estudo

Idosa sentada numa poltrona junto à janela, puxando a cortina num dia soalheiro.

Sair à rua ao meio-dia significa entrar numa luz que pode ser cem vezes mais intensa do que a de um escritório comum - mas, na prática, quase ninguém dá por isso.

Ainda assim, passamos grande parte das horas mais luminosas do dia dentro de portas.

Um estudo com perto de 88,000 adultos concluiu que a quantidade de luz diurna forte a que as pessoas estiveram expostas se associou ao risco futuro de demência, e essa ligação foi mais preditiva do que vários factores de risco já bem estabelecidos.

Monitorizar a luz do dia com sensores

Quase 88,000 adultos, com idade média de 62 anos, aceitaram usar durante uma semana um sensor no pulso. Não se tratava de pulseiras de actividade habituais.

Cada acelerómetro de pulso incluía um medidor de luz que registava, minuto a minuto, quão brilhante era o ambiente - do nascer ao pôr do sol.

A investigação foi liderada pelo Dr. Hongliang Feng, da Guangzhou Medical University (GMU), na China.

Ao longo de um acompanhamento típico de cerca de 8 anos, 741 voluntários receberam um diagnóstico de demência.

A equipa do Dr. Feng quis perceber se quem apanhava mais luz durante o dia teria evoluído de forma diferente. Os dados reunidos ofereceram algo que estudos anteriores não tinham conseguido com a mesma robustez.

Até aqui, muitos trabalhos baseavam-se em inquéritos sobre quanto tempo as pessoas diziam passar no exterior, mas esses relatos mostraram-se pouco fiáveis. Desta vez, os sensores captaram a exposição real.

O que os dias mais luminosos mostraram

Os participantes cuja luminosidade média diurna ultrapassava 1,000 lux - aproximadamente o nível de uma tarde nublada ao ar livre - tiveram cerca de menos 16 por cento de probabilidade de desenvolver demência.

Trabalhos anteriores já apontavam na mesma direcção: um estudo tinha observado taxas mais baixas entre quem passava mais horas no exterior.

E quanto mais forte era a luz, maior parecia ser o benefício. Os voluntários que acumulavam pelo menos 42 minutos por dia acima de 5,000 lux - luz de dia aberto - viram o risco descer ainda mais. A tendência foi contínua: mais minutos de luz intensa, menos demência.

Depois surgiu o número mais marcante. Receber menos de 42 minutos diários de luz intensa antecipou a demência futura com mais força do que factores de risco importantes como obesidade, consumo elevado de álcool e histórico de traumatismo craniano.

A hora do dia conta mais do que a escuridão

Houve um resultado inesperado. Uma parte considerável da investigação tem alertado que a luz nocturna - ecrãs, candeeiros de rua, luzes no quarto - poderia, com o tempo, prejudicar o cérebro.

Aqui, porém, a luz durante a noite não apresentou uma ligação clara com a demência, nem num sentido nem no outro.

Isto sugere que o momento da exposição pode ser tão relevante quanto a quantidade. O que parece ajudar é receber luz forte quando o corpo a espera - durante o dia - em vez de tentar eliminar qualquer brilho depois de escurecer.

Foram os dias claros que fizeram a diferença, não as noites mais ou menos escuras. É uma nuance fácil de ignorar - e relativamente simples de pôr em prática.

Ter um quarto escuro pode ser útil, mas pouco resolve se as horas diurnas continuarem sombrias. Foi na metade mais luminosa do ciclo que o sinal apareceu.

Como a luz chega ao cérebro

A ligação entre luz do dia e memória deverá passar, em grande parte, pelo relógio interno do corpo.

A luz intensa da manhã e do meio do dia entra pelos olhos e ajusta o ritmo circadiano - o ciclo de cerca de 24 horas que indica ao organismo quando estar alerta e quando desacelerar.

A luz contribui para manter esse relógio interno alinhado, e os investigadores testaram essa hipótese nos seus dados.

Aproximadamente um terço da associação pareceu operar através do ritmo diário de descanso e actividade, juntamente com diferenças visíveis na estrutura cerebral em exames. O restante permaneceu sem explicação.

O estudo, no entanto, não permite afirmar se dias mais escuros causam dano ou se apenas acompanham outros processos.

Quem recebe pouca luz pode mexer-se menos, dormir pior ou já estar numa fase inicial e ainda não detectada de declínio. Em qualquer dos casos, o desenho do estudo identifica um padrão - não uma causa.

Quem beneficiou mais

O efeito não foi igual para todos. Surgiu com maior força em três tipos de participantes, em que a redução do risco chegou a até 41 por cento.

Isto é uma diferença considerável face aos 16 por cento observados no conjunto total.

Entre os três grupos com maior benefício estavam as pessoas com tendência natural para horários tardios e também aquelas expostas a níveis elevados de luz nocturna.

O terceiro grupo tinha a variante APOE ε4 - uma versão genética que aumenta a probabilidade de doença de Alzheimer. Para quem já partia de um risco mais elevado, a luz diurna pareceu ajudar mais.

Isto aponta para uma direcção potencialmente útil: quem tem mais a perder poderá ter mais a ganhar com uma rotina mais luminosa.

Um artigo separado associou ciclos de luz perturbados a um declínio mais rápido em pessoas que já apresentavam problemas de memória, o que vai ao encontro do que a equipa de Feng observou.

Um passo simples a seguir

Os investigadores vêem aqui uma oportunidade prática. A luz do dia é gratuita e, para muitas pessoas, aumentar a exposição não exige receita nem consultas - pode passar por trabalhar perto de uma janela ou por passar mais tempo no exterior.

Uma caminhada de manhã pode ser uma forma simples de elevar a exposição à luz diurna.

“Daytime light exposure may serve as a novel indicator of dementia risk,” disse Feng. A luz também poderia ajudar a sinalizar quem merece maior vigilância.

Como os dados recolhidos no pulso são objectivos e baratos de obter, a equipa avançou a hipótese de os usar em rastreios de demência.

Antes deste trabalho, a relação entre luz e demência assentava sobretudo em inquéritos imprecisos.

Agora existe evidência sólida, baseada em leituras de sensores durante uma semana em dezenas de milhares de pessoas, de que dias mais luminosos se alinham com menor risco ao longo de anos.

As dúvidas em aberto são se aumentar a luz pode prevenir a doença e se uma medição barata deve integrar um check-up.

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