Pegar num probiótico qualquer numa prateleira de farmácia é, muitas vezes, comprar às cegas: o rótulo diz muito pouco do que interessa.
Na melhor das hipóteses, indica a espécie que está dentro, talvez apresente um código de estirpe em letra pequena, e promete benefícios vagos para o intestino.
Por trás desta lógica está uma suposição simples: se a bactéria “é boa” e pertence ao grupo certo, então fará o que se espera dela.
Uma equipa na Coreia do Sul decidiu pôr essa ideia à prova de forma directa, comparando dezenas de estirpes lado a lado em praticamente tudo o que determina se um probiótico funciona de facto.
As diferenças observadas foram mais marcadas do que se antecipava - e não são o tipo de alerta que um rótulo normalmente lhe dá.
A lista escondida
A maioria das bactérias usadas em probióticos pertence a um conjunto muito amplo conhecido como bactérias do ácido láctico, os mesmos microrganismos que transformam leite em queijo e vegetais em conserva através da fermentação.
São organismos que convivem connosco há muito tempo, tanto na alimentação como no trato gastrointestinal, e têm um historial de segurança robusto.
Na Korea University, em Seul, os investigadores reuniram 27 isolados destas bactérias, obtidos a partir de duas origens: a boca humana e queijo produzido localmente.
Inseo Kim liderou o trabalho, em colaboração com Hyun Park, do Department of Biotechnology, com o objectivo de perceber exactamente que microrganismos tinham em mãos e, sobretudo, o que eram capazes de fazer.
A identificação genética colocou os 27 isolados em cinco espécies. Uma delas, Lactobacillus rhamnosus, dominava as amostras recolhidas na boca, enquanto o queijo apresentava uma mistura das outras quatro espécies.
Dar-lhes um nome foi a parte simples. O desafio real era saber se alguma destas estirpes conseguia atravessar o corpo humano e merecer, na prática, o rótulo de probiótico que tantas vezes carrega.
Sobreviver ao intestino
Se um probiótico não aguenta o percurso, não serve para nada. O ácido do estômago é suficientemente agressivo para destruir a maioria das formas de vida.
E, logo a seguir, a bílis no intestino delgado impõe uma segunda camada de stress. Para ser útil, o microrganismo tem de resistir a ambos e manter-se viável.
A equipa expôs cada estirpe a um meio ácido com pH quatro e deixou-a nessa condição durante duas horas. Os resultados dividiram o conjunto de forma clara.
Duas espécies, L. rhamnosus e Lactobacillus reuteri, toleraram bem a acidez, com cerca de 98 por cento das células ainda vivas no final do ensaio.
Taxas de sobrevivência em meio ácido
Outras estirpes colapsaram quase por completo, embora aqui e ali alguns indivíduos tenham resistido contra as probabilidades.
O estudo mostra de forma inequívoca que sobreviver ao ácido não é uma característica distribuída de maneira uniforme dentro de uma espécie. Mesmo entre estirpes da mesma espécie, uma suportou o “banho” ácido e outras não.
Assim, uma cápsula pode exibir o nome “certo” e, ainda assim, conter um microrganismo que nunca chega intacto ao intestino.
Aderir à parede intestinal
Resistir é apenas o primeiro passo. Para ter impacto, um probiótico precisa de se fixar no revestimento do intestino e permanecer tempo suficiente para se estabelecer. Se passar simplesmente “de raspão”, não deixa efeito.
Os investigadores cultivaram, em laboratório, uma camada de células intestinais humanas e quantificaram a capacidade de adesão de cada estirpe. Houve um vencedor evidente.
L. reuteri apresentou uma adesão na ordem dos 80 por cento, muito acima das restantes estirpes, que em geral ficaram entre metade e dois terços. Uma estirpe não aderiu de todo.
A leitura dos genomas sugeriu uma pista: um gene, presente em cópias adicionais na estirpe mais adesiva, parece contribuir para remodelar a superfície externa da bactéria - a zona que entra em contacto directo com o epitélio intestinal.
Ainda assim, os autores foram cautelosos: não afirmaram que esse gene seja, por si só, o responsável pelo “agarre” superior; pode apenas estar associado ao verdadeiro factor causal.
Combater microrganismos indesejáveis
A capacidade de travar microrganismos nocivos é uma das promessas mais repetidas nos rótulos de probióticos.
Para testar isso, a equipa colocou cada estirpe frente a três agentes problemáticos: os responsáveis por intoxicações alimentares Escherichia coli e Staphylococcus aureus, além de uma levedura comum.
L. rhamnosus exibiu a actividade antimicrobiana mais forte, conseguindo suprimir os três alvos. Outras estirpes foram mais selectivas, reduzindo um patogénio mas deixando os restantes praticamente intactos.
Não surgiu um padrão simples; cada estirpe pareceu travar as suas próprias “batalhas” específicas.
Ao analisar o ADN, os investigadores observaram que a estirpe mais eficaz no combate transportava dois conjuntos distintos de genes ligados à produção de compostos antimicrobianos, enquanto as congéneres mais fracas tinham apenas um conjunto - ou nenhum.
Essa diferença genética coincide com o que foi visto nas placas de cultura, embora a equipa destaque que a actividade antimicrobiana também pode resultar de ácidos ou de outros subprodutos que não foram isolados.
Uma estirpe não é “a mesma” espécie
A maior surpresa apareceu quando se compararam estirpes dentro da mesma espécie.
Até este trabalho ter reunido tantos isolados e aplicado o mesmo conjunto de testes lado a lado, era comum assumir-se que conhecer a espécie de um microrganismo dizia quase tudo o que interessava. Não diz.
Duas estirpes com o mesmo nome de espécie, e com genomas que parecem quase iguais no papel, comportaram-se de maneira diferente no laboratório. Uma resistiu ao ácido; outra não.
Não se detectou uma lacuna evidente no ADN que justificasse a discrepância, o que aponta para outra explicação mais provável: diferenças na forma como os genes são activados e desactivados, e não simplesmente na lista de genes presentes.
Pela primeira vez, com tantas estirpes avaliadas em paralelo, este trabalho indica que o nome da espécie no rótulo é apenas uma orientação grosseira.
As diferenças que realmente contam estão um nível abaixo - ao nível da estirpe individual.
O que pode mudar a seguir
Fica claro que dois probióticos com o mesmo nome de espécie podem divergir muito nas características que determinam se ajudam, ou não, o consumidor.
A resistência ao ácido, a capacidade de aderir ao intestino e a força antimicrobiana variam de estirpe para estirpe - e os genes por trás dessas variações começam a ser identificados.
Esta informação dá a fabricantes e médicos uma forma mais rigorosa de avaliar probióticos. Em vez de confiar num nome de espécie, podem seleccionar as estirpes específicas que sobrevivem, aderem e combatem.
Depois, é possível construir produtos à volta das estirpes que passam esses critérios. Os mesmos marcadores genéticos podem ainda tornar-se uma lista de verificação para identificar as estirpes mais promissoras antes de uma única cápsula chegar à prateleira.
Para quem tomou probióticos por fé, a lição é simultaneamente humilde e útil.
Os benefícios dos probióticos existem em graus - e a próxima geração de suplementos poderá, finalmente, indicar com clareza qual é, de facto, o tipo que está a comprar.
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