No Uruguai, investigadores detetaram um fungo que passa de gatos infetados para pessoas e outros animais. Este triângulo agente patogénico gato–humano–animal de estimação está a deixar as autoridades de saúde em alerta, porque o fungo pode espalhar-se discretamente entre bairros e atravessar fronteiras sem ser notado. O que à primeira vista parecia um problema localizado revela-se, afinal, parte de um surto mais vasto em vários países sul-americanos.
O fungo dos gatos Sporothrix brasiliensis altera o risco
No centro da investigação está o fungo Sporothrix brasiliensis, responsável sobretudo por infeções cutâneas. No Uruguai, a sua presença foi agora confirmada de forma clara, depois de se tornarem conhecidos cada vez mais casos de pessoas, animais de companhia e animais silvestres com contacto com gatos doentes. Uma equipa da Universidade da República do Uruguai (Udelar) reuniu dados de duas regiões costeiras no sudeste do país e encontrou um padrão: não estavam em causa apenas animais de donos, mas também gatos vadios, sem qualquer ligação com um caso inicialmente notificado.
Com isso, a leitura da situação mudou. O que parecia ser um caso isolado dentro de uma casa passou a ser um indício de um agente patogénico já instalado no ambiente. As autoridades falam agora numa nova introdução do fungo no país, com consequências para pessoas, gatos domésticos, cães e fauna selvagem nativa.
“Os gatos infetados funcionam como amplificadores: transportam quantidades enormes do fungo nas feridas e passam-no em cada confronto.”
Porque é que os gatos transmitem o fungo com tanta eficácia
Ao contrário de muitos fungos ambientais, Sporothrix brasiliensis não depende apenas do contacto com o solo ou de picadas de espinhos. Os gatos desempenham um papel central, porque conseguem “injetar” o agente patogénico diretamente na pele de outros seres vivos.
São típicas as feridas abertas, de má cicatrização, na cabeça, no focinho, à volta dos olhos e da boca, bem como nas patas. Nestas crostas e úlceras existe uma quantidade enorme de células fúngicas. Quando um gato infetado arranha ou morde, essas células entram diretamente no tecido da vítima. Também pode bastar o contacto de secreção da ferida com a pele ou com pequenas fissuras.
Uma análise recente da região destaca três vias principais de transmissão:
- Arranhões: marcas profundas com unhas contaminadas
- Mordeduras: células do fungo penetram diretamente no tecido
- Contacto com líquido da ferida: secreções ricas em fungo sobre pele lesionada
As gatas e os gatos de rua agravam sobretudo o problema. Lutam com frequência, percorrem grandes distâncias, mudam de grupo e de território - e quase nunca recebem tratamento. Assim, o fungo pode passar, sem ser detetado, de um bairro para outro. Um estudo detetou mesmo o agente patogénico em gotículas expelidas durante o espirro. O campo de risco, portanto, vai além do contacto físico direto.
Como o fungo dos gatos sobrevive no corpo: o interruptor da temperatura
Sporothrix brasiliensis tem uma capacidade que o torna especialmente adaptável. No ambiente, cresce como um fungo filamentoso, fixando-se em restos vegetais ou no solo. Mas, quando entra num corpo quente, muda de forma: os filamentos transformam-se em pequenas células compactas, semelhantes a leveduras.
Os especialistas chamam a isto dimorfismo - uma mudança entre duas formas dependente da temperatura. Esta forma de levedura instala-se com mais facilidade na pele danificada, sobrevive nos tecidos e pode multiplicar-se ali. É precisamente essa mudança que ajuda o agente patogénico a permanecer no ambiente e, ao mesmo tempo, a fixar-se em mamíferos, incluindo gatos e seres humanos.
Sintomas típicos em pessoas e animais
O que acontece nos seres humanos
A doença provocada chama-se esporotricose. Muitos doentes recordam um arranhão ou uma pequena picada, muitas vezes de um gato. Primeiro surge um nódulo vermelho, frequentemente pouco doloroso, no local de entrada. Esse nódulo pode abrir, formar crosta ou libertar líquido.
Ao longo do tempo, aparecem muitas vezes mais nódulos ao longo dos vasos linfáticos, normalmente numa espécie de linha desde o ponto da ferida em direção ao centro do corpo. Este “rosário” de nódulos é um sinal típico da doença. A infeção pode parecer inofensiva no início, mas pode durar semanas a meses.
Raramente, o fungo estende-se a estruturas mais profundas: articulações, pulmões ou até as meninges podem ser afetados - sobretudo em pessoas com o sistema imunitário enfraquecido.
Como se manifestam os gatos doentes
Nos gatos, o quadro clínico costuma ser mais dramático. Muitos animais apresentam:
- feridas persistentes e de cicatrização difícil na cabeça ou nas patas
- crostas espessas e perda de pelo, sobretudo na zona da cara
- áreas inchadas, por vezes com sangue ou pus
- em alguns casos, olhos avermelhados e lacrimejantes
Os animais lambem e coçam constantemente as zonas afetadas, o que provoca novas lesões - um ciclo ideal para a disseminação do fungo. Muitos gatos vadios nas regiões afetadas apresentam várias destas lesões pelo corpo inteiro.
Diagnóstico: porque é que os antibióticos muitas vezes não ajudam
Como muitas feridas cutâneas parecem, à partida, uma infeção bacteriana, médicos e veterinários prescrevem frequentemente antibióticos primeiro. Estes atuam contra bactérias - mas não contra fungos. Assim, perdem-se semanas preciosas enquanto o agente patogénico se fixa ainda mais no tecido.
Para um diagnóstico seguro, os profissionais de saúde recolhem material da ferida e observam-no ao microscópio ou fazem uma cultura fúngica. Só então se confirma tratar-se de Sporothrix. Segundo os investigadores envolvidos, a doença responde, em muitos casos, aos antifúngicos habituais, tanto em pessoas como em animais de companhia. Ainda assim, o tratamento costuma prolongar-se por várias semanas a meses, e os gatos são especialmente difíceis de tratar de forma consistente - por exemplo, porque administrar comprimidos é complicado ou porque os donos interrompem a medicação demasiado cedo.
Quem está particularmente em risco
Nem todos os arranhões resultam numa doença grave. Ainda assim, existem grupos de risco bem definidos. Estudos do Uruguai e de países vizinhos mostram que o perigo aumenta em:
| Grupo de risco | Motivo do risco mais elevado |
|---|---|
| Crianças com menos de dois anos | sistema de defesa imaturo, pele mais fina |
| Adultos mais velhos | defesa imunitária frequentemente mais fraca, doenças associadas |
| Pessoas com imunodeficiência | por exemplo, devido a cancro, VIH, medicamentos |
Nesses casos, o fungo pode espalhar-se mais facilmente para articulações, pulmões ou sistema nervoso central. Um arranhão despercebido de um gato doente torna-se, assim, muito mais perigoso do que a pequena ferida faria supor.
Disseminação além-fronteiras: do Brasil ao Uruguai
Sporothrix brasiliensis começou por chamar a atenção no Brasil, onde, há anos, se tornam conhecidos cada vez mais casos em gatos e, em paralelo, infeções humanas associadas. Num relatório, refere-se que, ao longo da última década, foram notificados mais de 11.000 casos humanos em regiões afetadas.
Agora, o agente patogénico surge também com maior frequência em países vizinhos. Na Argentina, especialistas descreveram, em 2024, dois casos humanos de infeção após contacto com o mesmo grupo de gatos doentes. No Uruguai, a análise atual mostra que o fungo não foi apenas importado, mas já circula localmente.
A circulação de gatos desempenha aqui um papel central: os animais são vendidos, oferecidos ou simplesmente transportados através de fronteiras - muitas vezes sem controlo sanitário. Também os transportes informais, por exemplo em mudanças de casa ou visitas, abrem novas regiões ao fungo. Um único animal infetado, com feridas abertas, pode ser suficiente para estabelecer uma estirpe estável numa nova cidade.
A mudança de experiência do Uruguai: do tatu ao gato
Historicamente, o Uruguai associava pouco a esporotricose aos gatos. A maioria dos casos documentados resultava do contacto com terra, plantas ou tatus. Em especial, os caçadores infetavam-se através de arranhões provocados por estes animais. Uma análise de quase quatro décadas revelou 157 casos confirmados, dos quais 128 ligados ao contacto com tatus.
Agora, o cenário está a mudar: em vez das clássicas infeções do “fungo do jardim”, o gato passa para o centro da atenção. Para médicos e veterinários, isso exige uma mudança de raciocínio no diagnóstico. Quem comparecer numa consulta, em regiões afetadas, com nódulos na pele após contacto com um animal, não deve ser testado apenas para bactérias, mas também de forma dirigida para Sporothrix.
Porque é tão difícil controlar
As autoridades de saúde enfrentam um dilema. Para travar o fungo, seria necessário identificar rapidamente o maior número possível de gatos infetados, tratá-los e mantê-los em casa durante a fase contagiosa. Com gatos de rua e animais com acesso livre ao exterior, isso só funciona de forma limitada.
Medidas eficazes dependem de vários pontos em simultâneo:
- sensibilização dos donos para sinais de alerta em feridas de gatos
- sistemas ativos de notificação para gatos de rua com aspeto suspeito
- programas de esterilização e captura para estabilizar as populações
- regras de controlo que limitem o vagabundeio prolongado de animais doentes
- cooperação estreita entre medicina humana, medicina veterinária e autarquias
Sem esta articulação, qualquer gato doméstico ou vadio não tratado pode manter o surto ativo durante anos - mesmo quando as pessoas afetadas já estão curadas.
O que isto significa para Portugal
Em Portugal, bem como na Alemanha e na Áustria, outras fontes de esporotricose continuam a ter maior peso, como picadas de plantas ou contacto com o solo. Ainda assim, os especialistas encaram os surtos internacionais como um aviso. O comércio global de animais de companhia, as viagens e as alterações climáticas também estão, gradualmente, a modificar o mapa das doenças fúngicas.
Um animal importado da América do Sul, infetado sem o saber, poderá, a longo prazo, desencadear novas cadeias de transmissão também aqui. Por isso, autoridades e laboratórios observam estas evoluções com grande atenção, para poderem reagir rapidamente em caso de necessidade.
Conselhos práticos para quem gosta de gatos
Quem vive com gatos ou lida com gatos de rua pode reduzir bastante o risco pessoal sem entrar em pânico. Algumas medidas simples ajudam:
- Levar ao veterinário, o mais cedo possível, gatos com feridas suspeitas e que não cicatrizam.
- Lavar bem e vigiar feridas causadas por arranhões e mordeduras.
- Procurar aconselhamento médico se surgirem vermelhidão, nódulos ou zonas húmidas nos braços e mãos, sobretudo após contacto com animais doentes.
- Ensinar as crianças a não pegar ao colo nem pressionar gatos doentes ou desconhecidos.
Para muitas pessoas, uma infeção fúngica parece, à partida, uma coisa sem importância. Mas os exemplos do Uruguai e do Brasil mostram como arranhões aparentemente banais podem evoluir rapidamente para doenças prolongadas e, por vezes, graves - sobretudo em pessoas vulneráveis.
Quem até agora conhecia expressões como “fungo dimórfico” ou “esporotricose” apenas de textos técnicos encontra-as agora num contexto muito quotidiano: no contacto com o próprio animal de estimação. É precisamente por isso que este tema está a ganhar mais peso entre médicos, veterinários e autoridades de saúde - muito para lá da América do Sul.
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