Num bairro denso de uma cidade, daqueles em que o betão costuma levar a melhor, os camiões de entregas passam a resmungar, um elétrico range e alguém pragueja junto a um parquímetro. No meio desse ruído, algo corta o ar: uma explosão de canto de aves tão inesperada que uma mulher de ténis de corrida abranda o passo e olha para cima.
Ela não encontra as aves numa árvore imponente, mas numa sebe baixa de arbustos verde-escuros plantada ao longo de uma nova ciclovia. Pardais entram e saem, um melro salta por baixo, bicando o solo. O ar parece um pouco mais fresco naquele corredor estreito de sombra. Um rapaz espera o autocarro e passa os dedos pelas folhas, sem se dar conta.
Esse pequeno trecho é um dos mais de 11 milhões de arbustos urbanos que, discretamente, estão a mudar a forma como as cidades se sentem, soam e respiram. E a parte mais surpreendente é o que está a acontecer entre os ramos.
The quiet comeback of the city shrub
Os urbanistas gostam de imaginar skylines e parques emblemáticos, mas a mudança mais importante está agora ao nível dos joelhos. Ao longo dos passeios, em redor de paragens de autocarro e nas ilhas de parques de estacionamento, milhões de arbustos estão a ser encaixados em cantos esquecidos de bairros dominados pelo asfalto. À primeira vista, não parecem dramáticos: apenas bordaduras verdes, grupos de bagas, moitas junto aos suportes das bicicletas.
Passe por eles numa tarde quente e a diferença nota-se logo. O ar fica menos agressivo. O ruído do trânsito parece estranhamente abafado. Surge um bater de asas ou o brilho de uma cauda a desaparecer na folhagem. Estes arbustos estão a tornar-se o “andar intermédio” da vida urbana, uma camada em falta entre o solo nu e a copa das árvores lá no alto.
Em Madrid, um corredor de 7 quilómetros de arbustos nativos juntou parques que antes eram ilhas ecológicas. Em Chicago, observadores de aves juntam-se agora ao lado de um antigo parque de estacionamento sem graça, onde uma massa de cornus e viburnos alimenta toutinegras durante a migração. Em Melbourne, os urbanistas registaram um aumento de 15 por cento nas observações de pequenas aves em ruas que trocaram plantas decorativas estéreis por arbustos densos e com bagas.
Os números por trás desta mudança são impressionantes. Desde 2015, mais de 11 milhões de arbustos foram reintroduzidos ou replantados em áreas urbanas em todo o mundo através de programas municipais, projetos de ONG e campanhas de cidadãos. Isto não é apenas “requalificação verde” no sentido de relações-públicas. Os arbustos podem baixar a temperatura junto ao solo em vários graus nos dias de maior calor, segundo medições de campo em cidades da América do Norte e da Europa. Retêm humidade, capturam partículas finas dos gases de escape e oferecem um habitat tridimensional real a criaturas que nunca chegam a tocar na copa de uma árvore.
As aves estão no centro desta nova história dos arbustos. Muitas espécies evitam árvores altas e expostas em ruas ruidosas, mas entram sem hesitar em vegetação densa. Os arbustos oferecem bagas, sementes, insetos e algo ainda mais precioso numa cidade: abrigo. Um melro a atravessar um passeio aberto fica vulnerável. Um melro que pode saltar de arbusto em arbusto, permanecendo escondido, passa a ter território funcional outra vez.
How shrubs cool streets and repair broken ecosystems
Para perceber porque é que os arbustos estão a tornar-se aliados do clima, é preciso prestar atenção à altura em que realmente vivemos: do chão até cerca de dois metros. É nessa faixa que o calor bate com mais força, onde as crianças brincam, os cães passeiam e os nossos pulmões respiram. As árvores ajudam, sim, mas a sombra delas nem sempre chega tão perto do asfalto. Os arbustos chegam.
Plantações densas de arbustos criam manchas de sombra curtas e sobrepostas ao longo do dia. O solo por baixo mantém-se húmido durante mais tempo, e isso arrefece o ar à medida que a água evapora. Numa caminhada de medição em Paris, no verão passado, investigadores encontraram uma diferença de até 4 °C entre passeios sem vegetação e passeios ladeados por bordaduras densas de arbustos. É a diferença entre “sufocante” e “ainda se aguenta” durante uma vaga de calor.
Há também a forma como os arbustos mexem com o comportamento do ar. Os ramos e folhas quebram os padrões do vento, abrandando as rajadas quentes que correm pelos corredores de rua. Ao mesmo tempo, retêm partículas poluentes lançadas pelo trânsito. Nem todos os arbustos são iguais neste ponto: espécies com folhas rugosas, peludas ou cerosas tendem a apanhar mais partículas do que as de folhas lisas e brilhantes. Ainda assim, até sebes modestas podem reduzir a concentração de partículas nocivas à altura das crianças em ruas escolares movimentadas.
How cities – and residents – can actually do with shrubs
O trabalho de reparação ecológica acontece em camadas. Os arbustos oferecem néctar para polinizadores na primavera, refúgio para insetos no verão, bagas para aves no outono, e ramos e folhada para criaturas que hibernam no inverno. Com o tempo, uma rua que antes recebia apenas pombos e ratos começa a acolher melros, carriças, tentilhões, lagartos, escaravelhos. E daí em diante, outras cadeias voltam a formar-se: predadores, necrófagos, decompositores. Uma teia viva costurada à volta de paragens de autocarro e linhas de estacionamento.
As campanhas de arbustos mais eficazes começam com uma pergunta aparentemente simples: onde é que a cidade se sente mais hostil? Em Roterdão, os planeadores deram literalmente marcadores aos moradores e pediram-lhes que circulassem os “pontos de calor insuportáveis” nos mapas do bairro. Muitos assinalaram os mesmos sítios: paragens de autocarro sem sombra, entradas de escolas, zonas de espera perto das passadeiras. Esses tornaram-se locais prioritários para corredores de arbustos.
Uma regra prática que tem saído das experiências no terreno: pense em faixas, não em pontos. Um arbusto isolado num mar de betão tem pouca força. Uma faixa contínua de arbustos, mesmo com apenas um metro de largura, começa a funcionar como a borda de uma microfloresta. Arrefece de forma mais eficaz, oferece abrigo real e torna-se interessante para a fauna. As cidades que apostam em linhas contínuas de arbustos ao longo de pelo menos um dos lados das ruas principais obtêm o maior retorno ecológico pelo orçamento de plantação.
Para as famílias, a lógica é a mesma em escala reduzida. Substituir uma faixa de gravilha ou um relvado estéril por arbustos em camadas - altos atrás, médios ao centro, coberturas baixas à frente - cria uma versão pequena dessa faixa protetora. Junte um prato raso com água ou uma pequena pilha de troncos na base, e criou um pedaço de habitat que as aves usam mesmo, em vez de apenas o sobrevoarem.
Os moradores das cidades sentem muitas vezes que isso está fora do seu alcance. Não têm jardim, nem varanda, nem tempo. Ou desconfiam de plantações “desarrumadas”, com receio de reclamações de vizinhos ou senhorios. Além disso, há o medo da manutenção: quem vai podar tudo, regar, impedir que aquilo vire um íman de lixo? Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Os gestores municipais partilham essa ansiedade em escala maior. Um relvado aparado é péssimo para a biodiversidade, mas burocraticamente simples. Já os arbustos são tridimensionais, crescem de forma irregular e acolhem vida que as pessoas nem sempre apreciam à primeira vista. Os projetos que funcionam a longo prazo costumam seguir um pequeno conjunto de hábitos: poda parcial, não total, uma ou duas vezes por ano; deixar alguns ramos e bagas durante o inverno; e escolher espécies adaptadas à chuva e ao solo locais, para que não precisem de cuidados constantes. As melhores plantações aceitam um pouco de selvagem como parte do desenho, e não como falha.
Num plano humano, os arbustos também podem ser catalisadores sociais. Os moradores que ajudam a plantá-los acabam por começar a cumprimentar-se ali, a vigiar “os seus” pássaros, a apanhar o lixo ocasional. Esse pequeno sentido de responsabilidade partilhada vale mais do que contratos de manutenção complicados.
“Costumávamos brincar que a nossa rua só tinha dois sons: carros e discussões”, diz Leila, uma organizadora comunitária num bairro denso de Marselha. “Agora, ao fim da tarde, as pessoas ficam junto aos arbustos com os filhos, a contar quantas aves conseguem ver. Os carros continuam lá, mas a rua parece menos hostil. Como se estivesse, em parte, do nosso lado outra vez.”
À volta destas histórias, juntaram-se algumas boas práticas que estão a emergir nas cidades que mergulharam de cabeça na revolução dos arbustos:
- Dê prioridade às plantações de arbustos onde as pessoas esperam ou se movem devagar: paragens de autocarro, portões de escolas, bancos e passadeiras.
- Prefira espécies nativas, com bagas ou sementes e ramificação densa, em vez de arbustos ornamentais “em pirâmide”.
- Plante em faixas em vez de cubos ou pontos isolados, sempre que exista sequer uma tira estreita de terreno.
- Deixe alguma folhada e ramos secos na base para alimentar insetos e fungos.
- Envolva os moradores na plantação e na manutenção ligeira, em vez de entregar tudo a equipas distantes.
A new way of seeing the city from the ground up
Depois de começar a olhar para os arbustos como infraestrutura, é difícil deixar de os ver. Uma paragem de autocarro sem eles parece de repente nua, exposta ao calor e aos fumos. Um recreio rodeado apenas por grades metálicas e alcatrão cru soa a oportunidade perdida. Pelo contrário, uma linha modesta de groselhas-floridas ou aveleiras consegue fazer um espaço brutalmente funcional parecer quase acolhedor.
Estamos habituados a discutir adaptação climática em termos de megaprojetos e orçamentos de milhares de milhões. Os arbustos são o oposto dessa lógica: baixos, discretos, replicáveis quase em qualquer lugar. A sua força está em parte nos números - esses 11 milhões e a contar - e em parte na sua posição, exatamente onde humanos e fauna se cruzam a toda a hora. Não exigem a nossa atenção como uma árvore monumental talvez exigisse. Limitam-se a trabalhar, folha a folha, ramo a ramo.
Numa tarde fria de outono, pode surpreender-se com uma cena que resume tudo isto. Uma criança deixa cair uma migalha de bolacha junto a um arbusto e observa, de respiração suspensa, uma ave minúscula sair disparada, apanhar a migalha e desaparecer de novo no verde. Por um segundo, a cidade de betão esbate-se, e o arbusto torna-se uma porta para outro mundo, sobreposto ao que já conhecemos. Para nós, essa sensação é difícil de medir. Ecologicamente, pode ser precisamente o tipo de pequena magia diária que ajuda uma cidade a sarar.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Arbustos arrefecem à altura das pessoas | Faixas densas de arbustos reduzem a temperatura junto ao solo e retêm poluição ao nível da rua. | Perceba como pequenos corredores verdes podem tornar caminhadas, deslocações e esperas mais suportáveis durante vagas de calor. |
| Habitat na “camada intermédia” | Os arbustos criam abrigo, alimento e espaço de nidificação entre o solo e a copa das árvores. | Veja porque é que aves, insetos e outra vida selvagem regressam quando os arbustos são plantados em corredores contínuos. |
| Aplicável em qualquer escala | Cidades, escolas e moradores podem substituir margens estéreis por plantações em camadas de arbustos. | Identifique onde, na sua rua ou prédio, alguns arbustos podem mudar discretamente o ambiente - e a saúde - do lugar. |
FAQ :
- Os arbustos urbanos são mesmo tão eficazes como as árvores para arrefecer? As árvores dão uma sombra mais ampla no geral, mas os arbustos arrefecem precisamente à altura das pessoas, perto do asfalto onde o calor se acumula mais depressa. Juntos, árvores e arbustos formam uma combinação muito forte.
- Que espécies de arbustos são melhores para as aves nas cidades? Arbustos nativos, com bagas ou sementes e ramificação densa, são ideais: pense em pilriteiro, corniso, viburno, aveleira, amelanchier ou equivalentes locais que ofereçam alimento e abrigo.
- Os arbustos atraem pragas ou criam problemas de segurança? Arbustos bem escolhidos e bem colocados tendem a atrair mais aves e insetos benéficos do que “pragas”. Manter os ângulos de visão abertos em esquinas e passadeiras reduz qualquer preocupação de segurança.
- Os arbustos conseguem sobreviver em faixas urbanas estreitas e duras? Muitas espécies aguentam bem em locais difíceis se o solo for solto, coberto com mulch e regado nas primeiras épocas. Depois de estabelecidos, os arbustos são muitas vezes mais resistentes do que relvados ou flores sazonais.
- O que posso fazer se for arrendatário e não tiver jardim? Pode defender a plantação de arbustos à volta do prédio, da escola ou da paragem de autocarro do bairro, juntar-se a grupos de greening local ou usar vasos grandes com arbustos compactos em varandas e pátios comuns.
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