Saltar para o conteúdo

António José Seguro no Prémio Norte-Sul critica a deriva autocrática e lembra jornalistas mortos por Israel

Homem em fato a falar num púlpito com mapa da Europa e capacete da imprensa sobre a mesa.

A cerimónia de entrega do Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa, realizada esta terça-feira na Assembleia da República, ficou marcada por críticas contundentes do Presidente da República, António José Seguro, a países e dirigentes que, numa “deriva autocrática”, estariam “apostados na tragédia e em propagar o desprezo pelos direitos humanos”. No centro do alerta, destacou a morte de jornalistas atribuída a Israel - sublinhando que representa a larga maioria das mortes de jornalistas registadas no mundo - e a forma como a banalização da violência tem alimentado um estado de indiferença generalizada.

Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa: António José Seguro e a crítica às “superpotências”

No encerramento da sessão, Seguro concretizou os exemplos que, no seu entender, espelham a degradação do respeito pelos direitos humanos: Gaza e o Líbano, a Ucrânia e o Sudão. A par destes cenários, apontou também às “superpotências” que, não vivendo conflitos no próprio território, sustentam estados belicistas e toleram violações de direitos fundamentais.

O empoderamento da violência por parte de países que se transformam em estados bélicos, o apoio dado por superpotências que recorrem a procedimentos iguais de violação dos direitos humanos, tudo isto, esmaga a esperança de uma vida justa e em paz”, afirmou, numa cerimónia que distinguiu Rami Abou Jamous, jornalista palestiniano que tem acompanhado e relatado a guerra em Gaza, e o islandês Bragi Guðbrandsson, conhecido pelo trabalho na defesa dos direitos da criança e pela criação do modelo Barnahus (Casa das Crianças), vocacionado para proteger menores em situações de violência e abuso sexual.

A “contradição brutal” e as vozes contra a indiferença

Na leitura de António José Seguro, o momento actual expõe uma “contradição brutal” entre “os países e líderes políticos apostados na tragédia, a propagar o desprezo pelos direitos humanos, e a negar o que pensámos ter consolidado - uma civilização assente no humanismo -“ e, do outro lado, “as vozes que se agigantam e estremecem a indiferença”. Foram essas vozes, acrescentou, que ali se pretendia premiar e enaltecer, em oposição à “banalização da violência” e com o objectivo de manter vivo o “sonho” de um “amanhã melhor”.

Seguro alerta para número de jornalistas mortos por Israel

Ao contrário de alguns, que no conforto veem as imagens da guerra e já não as sentem porque a banalização da violência e o desencanto se transformaram em amargura e esta, por sua vez, se escondeu atrás da couraça da indiferença, Rami Abou Jamous, e muitos camaradas de profissão, não baixam a voz”, declarou. Nesse contexto, chamou a atenção para os dados mais recentes do Comité para a Proteção de Jornalistas: no ano passado, de um total de 129 jornalistas que morreram enquanto exerciam a profissão, metade foram mortos em Gaza.

O Presidente referiu ainda outra contabilidade: segundo a Organização Não Governamental “Campanha Emblema de Imprensa”, só este ano, 16 dos 27 jornalistas mortos terão sido vítimas de ataques israelitas. Na leitura de Seguro, isto significa que a maioria dos jornalistas mortos em 2024 foi morta por acção do Estado de Israel, sobretudo no Líbano e em Gaza.

Num agradecimento marcado pela emoção, o jornalista palestiniano Rami Abou Jamous interveio a partir de Gaza através de vídeo, por não conseguir sair do enclave. “Sair de Gaza tornou-se um privilégio apenas designado aos moribundos, a ocupação aprisiona-nos, isola-nos, sufoca-nos“, começou por dizer, dirigindo-se à Sala do Senado da Assembleia da República portuguesa, palco habitual da cerimónia anual. ”Profundamente comovido“, condenou o ”genocídio que se sente não apenas nas bombas, mas também nas narrativas“ e sublinhou a **”vitória das pequenas cantenas face à máquina de destruição militar e mediática

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário