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Estudo revela discriminação socioeconómica entre alunos do 2º e 3º ciclos

Alunos escrevem em cadernos numa sala de aula com professora ao fundo supervisionando as atividades.

Discriminação socioeconómica no 2º e 3º ciclos

A maior parte dos alunos a frequentar o 2º e 3º ciclos do ensino básico diz não se sentir discriminada por razões socioeconómicas ou refere que essas situações, quando existem, acontecem raramente. Ainda assim, 12% de uma amostra representativa de 2500 alunos, de escolas públicas e privadas em Portugal, afirmaram viver episódios deste tipo com muita frequência, apontando impactos negativos no bem-estar e na integração social.

Quando os alunos identificam o que está por trás da discriminação percebida ligada a fatores socioeconómicos, os motivos mais mencionados (cerca de metade das respostas) prendem-se com a maneira de falar e com a aparência - seja a roupa, seja a ausência de bens que estão “na moda”. Os investigadores das universidades Lusófona, ISCTE e da Faculdade de Psicologia de Lisboa, responsáveis pelo estudo financiado pelo Observatório Social da Fundação “la Caixa”, concluíram ainda que estas vivências negativas se relacionam com menor bem-estar e com expetativas mais pessimistas em relação ao futuro.

Ao serem questionados sobre a forma como avaliam o seu próprio estatuto socioeconómico - com base em indicadores como quantidade de comida, brinquedos ou dinheiro, num eixo entre poucos e muitos recursos -, em média os participantes colocam-se num patamar intermédio. Já os alunos que reportam menos posses e famílias mais desfavorecidas acabam por enfrentar uma maior vulnerabilidade social e emocional.

“Comparações diárias entre pares acentuam as experiências de privação, discriminação e preconceito, com efeitos negativos na saúde mental, na autoestima e no desempenho académico”, assinalam os investigadores. Em paralelo, estes alunos tendem também a apresentar expetativas mais baixas quanto ao futuro académico e profissional, quando comparados com colegas que se posicionam num nível socioeconómico intermédio.

Privação relativa e comparação com os pares

O estudo avaliou igualmente a chamada “privação relativa”, isto é, a forma como os alunos se percecionam a si próprios em comparação com os colegas. Entre os exemplos, perguntou-se se consideravam que os pares tinham férias melhores, piores ou iguais. No conjunto dos participantes, a perceção de privação relativa revelou-se baixa e, além disso, sem diferenças significativas entre alunos do ensino público e do privado. Apesar disso, cerca de 10% indicaram níveis elevados de privação relativa.

Outra conclusão aponta que, embora a discriminação pessoal percebida surja com pouca prevalência, os mesmos alunos referem observar este tipo de discriminação na escola a níveis moderados. Também aqui não se encontraram diferenças relevantes entre público e privado, o que sugere que a “discriminação não depende do tipo de escola, mas é comum a diferentes contextos educativos”. Ao comparar ciclos de ensino, são os alunos do 7º ao 9º ano os que mais dizem observar discriminação entre colegas, face aos do 5º e 6º ano.

Atitude face à pobreza: entre o dizer e o fazer

No estudo “Implicações da perceção de desigualdades socioeconómicas no bem-estar das crianças e nas suas aspirações” analisaram-se ainda atitudes de crianças e adolescentes perante pessoas em situação de pobreza. Para isso, distinguiu-se entre atitudes explícitas - como ‘preocupo-me com as pessoas pobres’ ou ‘as pessoas pobres incomodam-me’ - e atitudes implícitas, mais inconscientes, avaliadas através de associações automáticas feitas sem tempo para ponderar respostas e menos influenciadas pela ‘desejabilidade social’.

Os resultados mostraram que, em termos explícitos, as atitudes são globalmente bastante positivas, enquanto, ao nível implícito, surgem como negativas. Para os autores, estes dados apontam que, “apesar de as atitudes declaradas explicitamente serem positivas, podem persistir preconceitos inconscientes e encobertos”. Esta discrepância é ainda mais visível entre alunos do ensino privado. “Quanto mais os participantes se veem em posições sociais mais altas, mais positivas são as atitudes explícitas que dizem ter em relação às pessoas pobres. No entanto, na avaliação implícita, verifica-se o contrário: aqueles que se veem em posições sociais mais altas são os que mais fortemente associam de forma automática as pessoas em situação de pobreza a aspetos mais negativos”.

O papel das escolas na prevenção do preconceito

Reconhecendo que a discriminação na escola por motivos socioeconómicos existe, os autores deixam uma recomendação dirigida às escolas: que atuem “proativamente na redução das desigualdades socioeconómicas, de forma a prevenir a socialização destas atitudes e de comportamentos discriminatórios”, que acabam por “perpetuar a vulnerabilidade social e emocional das crianças e adolescentes”. Neste sentido, defendem que temas como estatuto socioeconómico, mérito e privilégio devem ser trabalhados, discutidos e objeto de reflexão no contexto escolar.

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