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Estratégia de contraterrorismo de Trump recalibrada e comunicada a aliados

Mulher a liderar reunião estratégica com equipa diversa e mapa digital mundial numa sala moderna com bandeira americana.

A estratégia de contraterrorismo do Governo dos Estados Unidos foi ajustada e, nos últimos dias, apresentada a responsáveis de países aliados. Uma das porta-vozes do Conselho Nacional de Segurança (CNS) - estrutura que, a partir da Casa Branca, aconselha o Presidente norte-americano - resume assim a nova linha ao Expresso: “Eles terão de fazer mais para se proteger. O tempo dos Estados Unidos como superpolícia global acabou”.

Num relatório com 16 páginas, dois alvos surgem como duas das três prioridades centrais: os gangues ligados ao narcotráfico e as organizações terroristas islâmicas. A terceira preocupação é apontada como novidade: movimentos “antifascistas e antiamericanos” que, segundo o texto, se alimentam da “ideologia radical pró-transgénero”.

O Presidente dos EUA, Donald Trump, rubricou o documento e, num dos trechos, sustenta que “a Administração trabalhará para identificar as ameaças e neutralizá-las pela força ou estrangulando os seus recursos financeiros”.

O líder norte-americano afirma ainda que vai impedir que “conservadores e cristãos inocentes” continuem a ser alvos. “Vemos claramente a ameaça”, acrescentou, na terça-feira, Sebastian Gorka, diretor do gabinete de contraterrorismo do CNS. “Extremistas de esquerda como a Antifa, os assassinos transgénero, os não-binários, os radicais de esquerda que mataram o meu amigo Charlie Kirk [ativista pró-Trump assassinado num recinto universitário no passado verão]”.

Apesar de o FBI e grande parte do meio académico defenderem que a maior ameaça à segurança interna tem origem em milícias armadas de extrema-direita - entendimento também sublinhado por entidades como o Centro de Estudos Estratégicos -, Gorka passou esse dado em branco e preferiu concentrar a mira nos adversários políticos de Trump. “A verdade é que a esquerda protagonizou muito mais tentativas de assassínio político nos últimos anos do que a direita.”

“O homem branco voltará a reinar de forma suprema”

Entretanto, grupos supremacistas como os Wolverine Watchmen - associados ao plano para raptar e matar a governadora do Michigan, Gretchen Whitmer -, bem como os Proud Boys, os Oath Keepers e os Boogaloo Boys, protagonistas da insurreição de 6 de janeiro de 2021, deixaram de estar no centro das atenções.

“Era o que se esperava”, lamenta Bruce Hoffman, antigo conselheiro do Congresso dos EUA, que o nomeou para supervisionar o trabalho do FBI após o atentado de 11 de setembro de 2001. Hoffman é também coautor do livro “Deus, Armas e Sedição”, dedicado ao terrorismo de extrema-direita, descrito na obra como “uma ameaça protagonizada por indivíduos e grupos interessados em fazerem os Estados Unidos regressar a um tempo definido por hierarquias, dividindo as pessoas consoante a sua raça, género, religião e até identidade regional. A América onde o homem branco voltará a reinar de forma suprema.”

Ainda assim, Hoffman admite que o novo enquadramento tem pontos a favor. “Os autores acertam nalgumas coisas. Por exemplo, concentram-se no perigo de grupos terroristas obterem armas de destruição maciça. Mas, depois, falham muito.”

A ausência de referência aos referidos grupos de extrema-direita surpreendeu todas as fontes ouvidas. “Não foca no terrorismo doméstico, nas células extremistas”, critica o general Michael Hayden, antigo diretor da CIA. “Ao invés, o documento, que deveria ser puramente técnico e apartidário, está recheado de acusações contra inimigos políticos. Desde quando é que o combate ao terrorismo num país que viveu o 11 de setembro deve servir para jogos partidários?”

Expostos “à ira de fanáticos capazes de tudo”

A ofensiva militar no Pacífico e nas Caraíbas contra embarcações alegadamente usadas para transportar estupefacientes para os EUA evidenciou a intenção da Administração Trump de redesenhar o que entende por ameaça terrorista.

FBI e várias agências de informações insistem na importância de enfrentar estruturas como o cartel de Sinaloa ou o MS-13. “Contudo, não são grupos terroristas”, frisa Patrick Eddington, antigo analista da CIA. “São grupos motivados pelo lucro, não por ideologia política. Por isso mesmo, combatemo-los utilizando as nossas forças policiais. Ao nomear qualquer entidade não estatal violenta como um grupo terrorista, criamos confusão.”

Questionado sobre as implicações desta redefinição no trabalho de agentes e oficiais no terreno, Hoffman alerta para efeitos imediatos. “Gera desordem sobre quem tem autoridade para fazer o quê e desvia recursos. Ao canalizarmos dinheiro para combater narcogangues, no treino de pessoal, por exemplo, retiramos dinheiro de áreas que são, verdadeiramente, ameaças à segurança interna.”

A isto soma-se que, além do desinvestimento em equipas que investigavam milícias ultranacionalistas, o Departamento de Justiça afastou elementos do FBI que tinham participado nessas investigações.

Em reação a esses afastamentos, vários avançaram com ações contra o FBI, alegando discriminação ideológica. “Despediram-nos e revelaram a identidade de pelos menos 70 agentes, expondo-os à ira de fanáticos capazes de tudo”, diz ao Expresso a advogada Margaret Donovan, mandatária de dois dos queixosos.

Voltando à prioridade do combate ao narcotráfico, há ainda o risco de, na prática, esta escolha drenar meios destinados ao enfrentamento do terrorismo islâmico. Michael Hayden critica a falta de densidade do relatório sobre este ponto. “Não tem nada que ver com estratégia. É somente uma forma de ver o mundo. Gorka gosta de falar grosso e, por isso, afirma que todos os jiadistas serão transformados em pó. Isso quer dizer o quê?”

“Radicalização recíproca”

A nova estratégia de contraterrorismo não contempla o impacto de tecnologias emergentes e de instrumentos já explorados por grupos como o autoproclamado Estado Islâmico e a Al-Qaeda. Entre os riscos apontados por especialistas estão inteligência artificial, impressoras 3D, drones, criptomoedas e um vasto conjunto de plataformas digitais encriptadas usadas para recrutar fanáticos.

Quanto ao foco em perseguir organizações de extrema-esquerda, Robert McFadden, antigo membro do Serviço de Investigação Criminal Naval (NCIS), admite que “há um aumento da violência perpetrada por radicais esquerdistas”. Ainda assim, enquadra o fenómeno: “parte desse fenómeno se relaciona com a radicalização recíproca, ou seja, à medida que as milícias de extrema-direita se consolidam, os grupos de extrema-esquerda tentam ganhar terreno”.

McFadden sublinha, porém, que o peso relativo de cada lado continua a ser incomparável. “Lembre-se do ataque à sinagoga Árvore da Vida, em Pittsburgh (11 mortos e oito feridos), da chacina num Walmart em El Paso (23 mortos e 22 feridos) e do que aconteceu em Buffalo, onde um supremacista matou 10 negros num pequeno supermercado. Não há comparação.”

Perante a dimensão da violência, “torna-se natural um aumento de ataques violentos protagonizados pelo lado oposto”, considera o antigo oficial do NCIS. “Prevejo que aumentem, motivados por fatores sócio-económicos ou raiva relacionada com tópicos da agenda externa como Gaza.”

Hayden reforça que este tipo de polarização sempre existiu. No entanto, avisar apenas para um polo e apagar o outro - justamente o mais perigoso - “é olhar para o espectro ideológico e escolher o que nos dá jeito, é politizar o contraterrorismo e tal pode ter consequências trágicas”.

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