Saltar para o conteúdo

O Homem do Leme: musical com Xutos & Pontapés em rodagem em Lisboa para filme e série

Homem com luvas de boxe segura guitarra elétrica no telhado com ponte e rio ao fundo em Lisboa.

As canções dos Xutos & Pontapés são o ponto de partida de "O Homem do Leme", um projeto que está a ser rodado em Lisboa e que vai dar origem a um filme e uma série, centrados numa narrativa de sobrevivência na selva urbana.

Um musical "de sobrevivência" filmado em Lisboa

Concebido como musical, "O Homem do Leme" acompanha uma história "de sobrevivência, de tentativa de superação, de chegar a uma condição melhor, mas havendo um lado sempre a puxar para baixo. Portanto, é uma luta intensa", explicou à Lusa o argumentista Mário Cunha, durante uma jornada de filmagens no Bairro do Armador, em Lisboa.

Com realização de João Maia, esta ficção olha para "a vida de jovens dentro de bairros sociais, em condições socioeconómicas desfavorecidas e muito próximos da vida criminal".

Enredo de "O Homem do Leme": Zé Pedro e a vontade de sair do submundo

No centro da trama está Zé Pedro, que, ao entrar na maioridade, "sobrevive sozinho" depois de a mãe desaparecer e o pai ser detido.

Interpretado por Sandro Feliciano, Zé Pedro dedica-se ao graffiti e imagina-se, no futuro, como artista plástico com reconhecimento. O plano que traça para si passa por estudar numa universidade de artes fora de Portugal, como forma de se libertar de "um meio que o oprime e que não lhe dá possibilidade de sair do submundo" da pequena criminalidade.

Quando está concentrado na preparação para os exames que o podem aproximar desse objetivo, "regressa ao bairro o seu melhor amigo de sempre, acabado de sair da prisão".

Esse regresso acaba por ser determinante: o amigo "puxa novamente Zé Pedro para o mundo do qual ele quer sair". "Ele tenta resistir a isso, mas depois há a questão da lealdade, da amizade e uma série de peripécias que levam a que ele acabe por se meter em problemas, dos quais depois tem de sair", contou Mário Cunha.

Personagens, machismo estrutural e o boxe como alternativa ao crime

O núcleo principal de "O Homem do Leme" inclui ainda duas personagens femininas, Inês e Débora, que, além das dificuldades associadas ao contexto social em que vivem, enfrentam "o machismo estrutural, e com a violência que está associada a isso".

Entre as figuras centrais está também Pina, descrito como "um antigo boxer e que tem um passado também ligado à criminalidade, mas do qual se limpou". É ele quem gere uma academia de boxe, onde "tenta puxar os jovens através do desporto para fora do mundo do crime".

Aqui, realidade e ficção cruzam-se: o local que faz de academia de boxe na história é a Academia Jorge Pina, pertencente à associação fundada pelo pugilista Jorge Pina, que em 2004 perdeu quase por completo a visão quando se preparava para o Campeonato do Mundo de Boxe.

Instalada no Bairro do Armador, esta associação tem como objetivo fomentar a inclusão social de crianças e jovens em situação de desvantagem, incluindo aqueles com necessidades educativas especiais, recorrendo ao desporto como ferramenta.

Além do Bairro do Armador, na zona de Chelas, a produção filma também no bairro da Quinta do Cabrinha, em Alcântara - embora, na ficção, estes dois lugares surjam como vizinhos no mapa, e não em extremos opostos de Lisboa.

Xutos & Pontapés na banda sonora de "O Homem do Leme"

Por se tratar de um musical, a presença da música é constante. Os temas dos Xutos & Pontapés entram em vários momentos, em versões "rearranjadas" por Armando Teixeira, músico e produtor que assume a direção musical do projeto. As canções são interpretadas pelos próprios atores.

Segundo Mário Cunha, houve músicas que ficaram "bastante diferentes" e outras que permaneceram "um bocadinho mais próximas" das gravações originais.

Para lá das novas leituras do repertório dos "Xutos", o projeto integra ainda uma canção inédita, com letra de Mário Cunha e música de Armando Teixeira.

Selecionar o alinhamento foi, nas palavras do argumentista, exigente: olhar para "o vastíssimo cancioneiro dos "Xutos" e encontrar dez músicas que encaixassem na história, cujas letras e a temática tivessem que ver com aquilo que as personagens estavam a viver", foi "um grande desafio".

A banda sonora inclui inevitavelmente "Homem do Leme", que dá nome ao projeto, e ainda temas como "Remar Remar", "Barcos Gregos", "Circo de Feras" e "Sémen".

Sobre o modo como os momentos musicais entram na narrativa, Mário Cunha descreveu-os assim: "é como se o tempo parasse e se entrasse num momento fantasioso, num momento de sonho, dentro de uma realidade muito crua".

Sandro Feliciano entre representação e música

Em "O Homem do Leme", Sandro Feliciano vive a sua "primeira grande experiência" fora do teatro, num trabalho que lhe permite juntar dois territórios onde se sente em casa: a interpretação e a música.

No início deste ano, o ator lançou o seu álbum de estreia, como Malammore, intitulado "Aurora", apresentado como uma narrativa autobiográfica e um testemunho sobre a experiência de ser um jovem negro em Portugal.

Para Sandro Feliciano, o que está a viver nas gravações pode ter impacto criativo: acredita que este processo pode "fazer surgir novas músicas, novos projetos, novas visões, novos conhecimentos".

Do ponto de vista interpretativo, admite que Zé Pedro é "muito desafiante em vários aspetos", até porque "todo o projeto é um projeto diferente, um musical".

"Logo aí obrigou-me a entrar também por outros caminhos. Tivemos preparação vocal, de dança e também de boxe, com o Jorge Pina", disse à Lusa, durante uma pausa na rodagem.

Apesar de a sua história pessoal não coincidir com a da personagem, o ator refere que tem encontrado "muitos pontos de contacto" com o contexto e com as pessoas com quem se tem cruzado.

"Há muitos pontos de contacto mesmo, porque "vimos todos do mesmo sítio". Acho que a comunidade negra instantaneamente encontra uma relação quando vê um semelhante. Há experiências que são comuns, apesar de eu ter vivido fora de um bairro social e ter crescido longe deste ambiente em que estou agora", partilhou.

E não é só na vivência que reconhece semelhanças: também identifica "muitas referências que são comuns". "O que não há é o espírito de comunidade que existe aqui, por exemplo, eu nunca experienciei esse espírito de comunidade", afirmou.

Nascido em Portugal, filho de pais cabo-verdianos, Sandro Feliciano foi adotado aos dois anos por um casal de portugueses brancos.

Aos sete anos começou a fazer teatro no Grémio Dramático Povoense, na Póvoa de Santa Iria (Vila Franca de Xira). Mais tarde, ingressou na Escola Profissional de Teatro de Cascais e, aos 16 anos, ainda a estudar, integrou o elenco de "Casa Portuguesa", peça de Pedro Penim estreada em 2022 no Teatro Nacional D. Maria II, e apresentada depois em várias cidades portuguesas e estrangeiras.

Sobre o impacto da adoção, diz ter "a certeza" de que, se não tivesse sido adotado, a sua vida teria seguido um rumo diferente.

Embora tenha nascido num bairro social, não guarda qualquer lembrança dessa fase.

Já na experiência de filmar "O Homem do Leme", sente que o bairro "é uma coisa muito fechada".

"Não as pessoas. As pessoas são abertas, gostam de conhecer, mas todo o bairro é fechado. E a própria sociedade também fecha os bairros, em muitos aspetos, em muitas coisas. E como também irá acontecer com estas personagens, tudo bloqueia. Ter uma morada aqui parece que significa algo logo, instantaneamente, e algo negativo, nunca positivo", referiu.

"O Homem do Leme" é uma produção da SkyDreams para a RTP, ainda sem data anunciada de estreia. No elenco surgem atores profissionais como Pedro Hossi, Mariana Cardoso, Mina Andala e Luís Henrique Matos, além de Sandro Feliciano, e participam também amadores, residentes de Chelas.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário