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Quase Famosos (BLITZ): Martim Beles na 78ª edição

Jovem sentado no terraço a tocar guitarra elétrica, rodeado por auscultadores, caderno e chá, ao pôr do sol.

Quase Famosos, a rubrica da BLITZ que acompanha de perto os artistas emergentes, quer medir o pulso à nova música portuguesa. Semana após semana, a atenção recai sobre um nome diferente. Na 78ª edição, o destaque vai para Martim Beles: nasceu em Lisboa, mas cresceu e viveu sempre em Faro, e este ano editou o EP “não é necessário” (mesmo assim, em minúsculas), quatro faixas algures entre a folk e a pop, com ecos dos primeiros passos da brilhante Cafetra.

Martim Beles

Lisboa

Martim Beles e o EP “não é necessário”: porquê tudo em minúsculas

A escolha de escrever tudo em letra pequena - do título do EP aos nomes das canções - tem uma razão muito concreta. “Vem da minha interpretação, já que quase nada é necessário”, explica Martim. “Não é necessário estar a clicar num Caps Lock para deixar o início de cada palavra com a letra grande, para ficar mais apelativo ou assim”.

Essa leitura nasce, como conta, de um caminho pessoal e de uma aprendizagem contínua. “Tentar perceber o que é necessário e o que não é foi uma desconstrução que fui fazendo ao longo dos anos. Muito parece necessário, mas depois vemos e não é realmente: só água, comida e arte. O resto logo se vê”.

A ideia estende-se também ao modo como observa o mundo à sua volta - e ao alvo das suas críticas. Fala da classe dominante, “à grande vastidão de mandadores sem lei, que agem todos os dias com um desprezo e maldade absurda sobre aqueles que tentam dominar. Isso é algo que não é mesmo nada necessário”, afirma. “No EP, falo sobre estes temas como não teria feito tanto no passado; já não quero acomodar, e sendo que isso é o comum, tentei quebrar um bocado essa normalidade, estando a viver no atual estado de calamidade total”.

Percurso, influências e a colaboração de sonho

Para lá do lado combativo, quem é Martim Beles, afinal? Ele próprio reconhece o quão difícil é fixar isso em palavras. “É uma pergunta difícil”, admite. “Arranjar palavras para me descrever, para me expor, é um bocado estranho. Teria de começar por dizer que é um gajo que, tendo nascido em Lisboa, viveu a sua vida toda em Faro e teve a música, desde muito cedo, como algo necessário na sua vida”. E garante que essa necessidade nunca o largou: “sem música, não me consigo exprimir da forma exata que eu quero”.

No final de 2023, regressou à cidade onde nasceu para estudar música - e, apesar das dúvidas normais, sente-se no caminho certo. “Mesmo que ainda não faça a mínima ideia do que quero fazer da minha vida”, diz. “Martim Beles é só mais uma pessoa que quer fazer o que mais gosta num mundo cheio de entraves, tentando tomar esses entraves como inspiração e motor de motivação para fazer mais”.

O primeiro impulso sério para fazer música apareceu aos 15 anos, numa fase em que o rap e o trap eram o centro do seu interesse - “e, por isso, a minha música também ia por aí”. Em 2021, decidiu deixar para trás um moniker antigo e passar a assinar com o próprio nome. A partir daí, começou a reencontrar canções e discos que lhe tinham sido apresentados em criança. “Comecei a redescobrir algumas das músicas que o meu pai me mostrava em puto, nas viagens de vinte minutos até à escola”, recorda, citando Pearl Jam, Nirvana e Alice In Chains. Mais tarde, a lista alargou-se a Portishead, Smashing Pumpkins e Sigur Rós, além de “a cena toda dos anos 60 e do rock psicadélico, por recomendações do meu primo” e dos discos de música de intervenção guardados em casa dos avós.

Esse mergulho teve um efeito imediato na sua direção artística. “Encontrar toda esta música numa altura da adolescência em que estava a descobrir mais sobre tudo, não só sobre mim mas sobre o mundo, despertou uma grande vontade de explorar cada vez mais e fazer música com essas novas influências”, explica. O rap ficou para trás, veio a aprendizagem da guitarra e, já em 2024, juntou-se-lhe um MicroFreak, “o meu synth de estimação”. Hoje, sublinha duas referências centrais (sem esquecer todas as influências que chegam sem dar por isso): Fausto Bordalo Dias, na escrita em português, e Elliot Smith, quando canta em inglês.

Fausto é, aliás, o nome que aponta como colaboração de sonho - uma possibilidade que o tempo já fechou. “Sinto que o Fausto escreveu coisas que não vi ninguém, desde então, a fazer da mesma forma”, diz. “[A música dele] É tão única e tão lindamente devastadora, que é exatamente onde eu tento chegar com as minhas músicas, intencionalmente ou não. Há uma parte na minha canção favorita dele, ‘O Que A Vida Me Deu’, em que ele diz mas se tudo levaste leva enfim esta dor que ficou; esta letra, como tantas outras, atingiu-me de uma forma que nunca mais deixei de pensar nela. É um sentimento que eu tento alcançar com as minhas músicas, e quando escrevo letras que me deixam assim fico muito feliz - mesmo que elas possam parecer ‘tristes’”.

“Muitas vezes vejo pessoal a descrever o seu som de forma demasiado poética e abstrata, e que por vezes me chega como forçada” ~ Martim Beles

Entre Faro e Lisboa: cultura, processo de criação e próximos concertos

Depois de uma vida em Faro, o que é que encontrou ao voltar a Lisboa? A resposta vem simples e direta: “Pessoas e cultura”, aponta. E, mesmo com críticas ao estado da cidade, reconhece-lhe uma escala diferente. “A cidade de Lisboa, apesar de estar em decadência, da cultura no centro estar a ser cada vez mais aniquilada por quem decide as coisas, ainda oferece muitos mais concertos, eventos e comunidade do que há em Faro”.

O ganho foi também humano, de afinidades e de descoberta. “Tive especialmente a oportunidade de conhecer pessoas que pensam de forma parecida à minha, e que gostam das mesmas coisas que eu a vários níveis, algo que talvez não tivesse em Faro por não haver, definitivamente, muita oferta”, acrescenta. “A malta aqui quer ir a concertos e conhecer cenas novas, bandas emergentes, conviver; imensas outras coisas, que no sul é muito difícil, por falta de movimentos”.

Antes de se mudar, tentou mexer com a realidade local algarvia. Em Faro, promoveu um evento com novos artistas, precisamente porque via o calendário cultural dominado por outro tipo de festas. “com artistas emergentes, porque todos os eventos eram festas de listas de secundário e festas organizadas pela universidade, que são sempre DJs que tocam do mais comercial que anda por aí”. O diagnóstico é duro: “Não existe apoio à cultura quase de lado nenhum; mostrar música e tentar dinamizar Faro é muito difícil. Foi uma tentativa de pôr a malta em convívio, de existirem interações entre artistas, [mas] acabámos por ter alguns problemas logísticos e financeiros que me impossibilitaram de concretizar exatamente o que eu queria”.

Quando tenta definir a sua própria sonoridade, prefere fugir ao excesso de abstracção - e explica porquê. “Muitas vezes [vê] pessoal a descrever o seu som de forma demasiado poética e abstrata, e que por vezes me chega como forçada”. E dá um exemplo do tipo de abordagem que aprecia: “Acho mais interessante se for usada ironia como os amigos de Heroína fazem”. Ainda assim, se tiver de apontar uma linha geral, usa uma etiqueta ampla: “Por isso, digo quase sempre que é uma cena na onda do indie, o que pode ser demasiada coisa. Guitarras e camadas de synths que sinto que juntam o analógico dos anos 60 e 70 com o digital, com críticas tanto sociais como pessoais, entre outras coisas”. E fecha o assunto com uma nota de humildade e convite: “A malta que tire e sinta o que quiser: isto não é uma descrição da minha música, porque como para qualquer artista acho que não dá nunca para o fazer muito bem. É preferível irem ouvir”.

A escrita nasce, muitas vezes, do improviso e do instinto. Tudo começa nas suas “brincadeiras” com a guitarra, quando está a “sacar uns acordes que me inspiram naquele momento”. Daí, guarda ideias para mais tarde: “Posso gravar no telemóvel a progressão que tiver para ficar guardada, e depois explorá-la mais tarde e escrever uma letra. Às vezes, tento logo começar a fazer uma melodia que pode ou não sair logo com letra”. Depois de fixar guitarra e voz, constrói a produção por camadas, acrescentando sintetizadores “para colorir a música”.

No EP “não é necessário”, contou com baixo e bateria de Dantas (Reforma Agrária) e de Junkê (c-mm). O saldo, para Martim, foi de descoberta e surpresa. “O processo foi muito fixe, porque saiu algo que não sabia ainda que queria. Tive ainda guitarras gravadas em formato live pelo amigo Segurado, dos Cowboy Maurício”.

Até ao momento, sente que a recepção tem corrido bem e que há sinais claros de crescimento. “quem ouviu, diz que gosta e que eu evoluí muito”, partilha, sem esconder que continua em construção: “tenho a noção de que ainda tenho muito para evoluir e mostrar”. Também guarda espaço para o humor e para a incerteza saudável: “As coisas hão-de lá chegar. Seja lá o que isso for”, brinca. E sublinha o que, para si, já é suficiente para validar o caminho: “Ter pelo menos uma pessoa além de mim a dizer que gosta realmente de ouvir as minhas canções já me faz sentir que está tudo bem, e que não estou totalmente louco e sozinho nisto”.

Já este mês, deu um passo importante ao tocar para uma plateia maior, como primeira parte de Steve Gunn, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. O pensamento, agora, está apontado a um disco. Diz que já imagina um álbum para sair “algures no próximo ano”, antecedido por alguns singles. E deixa claro o que mais quer no imediato: “Espero que apareçam mais concertos”, reforça. “Falta chamarem-me para mais cenas. Quero é tocar!”. Dêem-lhe o toque…

+INFO: Bandcamp, Instagram

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