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Trump e Xi Jinping encontram na Inteligência Artificial um raro ponto em comum

Duas pessoas num escritório com bandeiras dos EUA e China, discutindo tecnologia e circuitos eletrónicos.

A idade de Trump e a resistência para a Casa Branca

Estes dois, na fotografia lá em cima, dificilmente passam muito tempo sem se cruzarem - e é quase certo que se lembram um do outro com frequência. Ainda assim, a verdade é que Trump não punha os pés no Grande Império Chinês há quase 10 anos. E, já agora, daqui a um mês certinho o presidente norte‑americano chega à marca redonda dos 80. Alguém me ajude a perceber o enigma: como é que ele aguenta um cargo tão exigente com esta idade?

JB: Woolf, queres arriscar uma resposta? Curta e sem perguntas no fim.

Há aqui uma mistura de mito - e de biologia - por trás dessa ideia de resistência quase sobre‑humana.

Trump chega lá por três caminhos bastante diretos:

  • Condição física acima do esperado para a idade: há relatórios médicos que apontam para uma saúde “excecional” e até para uma “idade cardíaca” bem mais jovem do que a idade no cartão de cidadão, o que indica margem física real para suportar o ritmo.
  • Agenda montada para o exercício do poder: ao contrário de um trabalhador comum, um presidente não executa tudo - delega, tem equipas enormes e, em grande medida, dita o compasso, o que reduz o desgaste imediato.
  • Componente psicológica: poder, competição e exposição constante funcionam como combustível. Há quem não seja drenado pelo stress - há quem fique mais ativo.

E há ainda um aspeto que nem sempre se nota: a idade não “conta” de forma uniforme. Dois homens com 80 anos podem estar em extremos opostos - um esgotado, outro plenamente operacional. A investigação é clara: envelhecer não significa, por definição, declínio cognitivo nem incapacidade para liderar.

No fundo, o “mistério” é menos misterioso do que parece: soma‑se biologia favorável, uma estrutura de poder que protege do desgaste e uma personalidade que vive - quase literalmente - para o cargo.

Trump e Xi Jinping: Inteligência Artificial como terreno comum

Donald Trump e Xi Jinping quase nunca pisam o mesmo terreno político, mas a Inteligência Artificial tornou‑se um espaço partilhado pelos líderes dos maiores países do mundo.

Os dois querem controlar a tecnologia que, ao mesmo tempo, temem ver fugir ao controlo - e é esse paradoxo que abriu um pequeno ponto de contacto entre Washington e Pequim.

Trump mantém a mesma energia combativa e imprevisível que o define, com desconfiança em relação às elites tecnológicas e um olhar atento ao peso político do setor da Inovação.

Xi, com setenta e três anos, conduz a China com um horizonte prolongado: junta disciplina interna com ambição tecnológica e aparenta não ter dúvidas quanto ao lugar geopolítico do país no século XXI.

São dois líderes moldados por sistemas políticos e culturas muito diferentes, mas ambos já perceberam que a IA entrou numa etapa em que continuar sem regras deixou de ser alternativa.

As conversas discretas entre os dois governos sobre salvaguardas para modelos de IA de alto risco revelam uma preocupação comum: evitar que a tecnologia se torne um fator de instabilidade global. O risco de sistemas autónomos provocarem incidentes militares, a par da velocidade a que tudo avança, criou um contexto em que até rivais estratégicos se veem obrigados a procurar pontos mínimos de entendimento.

Trump e Xi reconhecem que a IA ultrapassa a capacidade regulatória dos governos e sabem bem que a proliferação de modelos fora do alcance do Estado é imparável.

Para Trump, a IA é um instrumento económico e político que ele não quer ver a transformar‑se num problema doméstico. Xi vê nesta tecnologia o terreno ideal para expandir poder nacional quase sem limites - mas também percebe que o feitiço pode virar‑se contra o feiticeiro.

Ainda assim, este consenso inesperado não significa que as tensões entre as duas potências tenham abrandado.

Quando dois líderes que discordam em quase tudo admitem que uma tecnologia é demasiado poderosa para ficar sem regras, a mensagem para o povo (ou, neste caso, para os povos) é inequívoca: a IA atingiu um grau de influência que já não pode ser ignorado.

Pequim e a comitiva tecnológica: Nvidia, Musk e Apple

Na deslocação a Pequim, Trump fez‑se acompanhar por uma comitiva de executivos tecnológicos, com nomes centrais como Jensen Huang, CEO da Nvidia, Elon Musk e Tim Cook.

A presença de Huang, em particular, é interpretada como sinal de que a guerra dos semicondutores e da liderança em IA está “sentada à mesa”. A Nvidia depende de decisões políticas para poder vender chips avançados à China.

Mas Musk e Cook não aparecem como meros figurantes: o dono da Tesla encarna uma aposta clara na mobilidade elétrica e na IA aplicada à indústria; já Cook representa a interdependência tecnológica entre os dois países, uma vez que a Apple depende fortemente do mercado chinês, tanto na produção como no consumo.

Em suma, todos são empresários com interesses diretos e com capacidade de pressão num momento em que a Casa Branca procura abrir o mercado chinês às suas empresas e, ao mesmo tempo, estabilizar uma rivalidade económica cada vez mais tensa.

JB: Woolf, nesta cimeira a Inteligência Artificial é uma questão estratégica? Resposta sucinta, sem perguntas no final.

Sim - nesta cimeira, a Inteligência Artificial aparece de forma inequívoca como um eixo estratégico central. A presença de líderes tecnológicos diretamente ligados ao desenvolvimento de chips, plataformas e aplicações de IA mostra que o tema deixou de ser apenas económico ou industrial e passou a ser geopolítico: está em jogo quem define padrões, quem controla infraestruturas críticas e quem lidera a próxima vaga de poder tecnológico à escala global.

JB: Sejam todos bem‑vindos a um mundo em que a tecnologia, no universo digital, é sem dúvida um dos maiores tabuleiros no Jogo do Poder.

Ainda se lembra do título desta newsletter? Eu disse que sabia de uma coisa em que Trump e Xi concordam.

Às vezes - na política e também na vida mais banal - basta uma só coisa para explicar quase tudo.

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